Graça Comum
Prof. Herman Hanko
Introdução
A controvérsia sobre a graça é de
interesse particular às Igrejas Protestantes Reformadas na América (Protestant
Reformed Churches in America – PRCA), pois essa foi a ocasião
imediata para a existência dessas igrejas como uma denominação
separada. Os fundadores dessas igrejas foram expulsos da Igreja Cristã
Reformada (Christian Reformed Church – CRC) por recusarem
concordar com a graça comum como uma doutrina ensinada na Escritura e
nas confissões. Esses líderes, Revs. Herman Hoeksema, George Ophoff e
Henry Danhof, recusaram pregar e ensiná-la em suas congregações, como
requerido deles.
Da forma como o erro da graça comum foi
adotado oficialmente pela CRC, havia duas formas nas quais a graça de
Deus era dita ser comum a todos os homens. Uma era a graça operante e
poderosa de Deus no coração do réprobo mediante o Espírito de Cristo,
pelo qual o pecado no réprobo era restringido e o não regenerado
capacitado a realizar boas obras de valor a Deus e à igreja. A segunda
era uma graça que era comum por ser uma manifestação geral de uma
atitude de favor e amor para com todos os homens manifesta não somente
nas boas dádivas que todos os homens recebem de Deus, mas manifesta
especialmente na oferta sincera e graciosa do evangelho que convida
todos os homens a crerem em Cristo. O convite comum do evangelho é uma
expressão do desejo profundo de Deus de que todos os homens sejam
salvos.
Há uma relação entre essas duas visões,
pois a graça de Deus para com todos os homens que é manifesta na livre
oferta do evangelho é também uma graça dada a todos os homens em seus
corações, pela qual eles são capacitados a aceitar ou rejeitar a
oferta do evangelho. Essa é a mesma graça que supostamente torna
possível um homem não regenerado fazer o bem.
A Graça Comum da Oferta do Evangelho
A ideia de uma oferta graciosa do evangelho
e suas doutrinas associadas é encontrada desde os primórdios na
história da igreja da nova dispensação, embora o termo "oferta
do evangelho" não foi usado então. Já no tempo do grande pai da
igreja Agostinho, na final do século IV e primeira parte do século V,
a questão entre Agostinho e Pelágio foi a graça soberana e particular
versus a graça comum. Agostinho sustentava a predestinação eterna e
soberana. Os seguidores de Pelágio sustentavam um desejo geral de Deus
em salvar todos os homens e uma expiação universal que torna a
salvação possível a todos os homens.1
Pouco após o grande Sínodo de Dordt, a
heresia amiraldiana surgiu na França. Ela recebeu o nome do seu
principal defensor, Amyraut, que propôs as mesmas ideias que Pelágio
no tempo de Agostinho. A influência dessa heresia, algumas vezes
conhecida como universalismo hipotético, foi muito influente na França
e nas Ilhas Britânica, e numa extensão menor na Holanda.
Embora a Assembleia de Westminster, que
tinha uns poucos membros amiraldianos, não tenha adotado a heresia da
oferta sincera, a heresia sobreviveu em dois homens, Richard Baxter e
Edward Fisher. Alguns homens2 reviveram-na na "Controvérsia
sobre a Essência" (Marrow Controversy) do século dezoito.
Da Escócia, onde a "Controvérsia
sobre a Essência" aconteceu, ela foi importada para a Holanda. O
contato entre a igreja da Escócia e a igreja na Holanda tornou a
transferência das ideias doutrinárias inevitável. A ênfase sobre uma
oferta do evangelho e certa universalidade da morte de Cristo (Cristo
não morreu por todos os homens, mas era dito estar "morto"
para todos os homens) invadiu o pensamento de mais reformados na Holanda.
A Igreja Estado na Holanda tinha se tornado apóstata, e o povo piedoso
e ortodoxo foi forçado a se reunir secretamente para manter a sua
piedade e ortodoxia. A ênfase sobre o entusiasmo espiritual da piedade
e experiência que caracterizava os "Marrow men" foi atrativa
aos fieis na Holanda, que estavam cansados da frieza deixada pela
apostasia em sua igreja. Mas juntamente com tal piedade veio a ideia da
oferta do evangelho.
No tempo da Separação em 1834 (De
Afscheiding) da Igreja Estado na Holanda, sob a liderança de
Hendrick De Cock e outros, a ideia de uma oferta sincera tinha se
enraizado profundamente. De Cock e SimonVan Velzen não sustentavam tal
ideia do evangelho, mas Anthony Brummelkamp, e mui provavelmente
Albertus C. Van Raalte, sim. E assim, isso entrou no pensamento das
igrejas Reformadas na Holanda e, através da imigração, na América.
Embora Abraham Kuyper se opusesse a
qualquer noção de uma oferta sincera do evangelho como acontecia em
partes das igrejas Reformadas, e embora seus seguidores na América não
ensinassem tais visões, muitos daqueles que tinham suas raízes
eclesiásticas na Separação de 1834 criam nessa doutrina. E assim, ela
foi livremente ensinada na CRC por vários pregadores de meados do
século XIX em diante.
Dessa forma ela entrou no pensamento da
CRC, e não é surpresa que, quando a CRC fez decisões sobre a graça
comum, foi inclusa uma declaração sobre a oferta sincera do evangelho.
As ideias principais presentes na oferta do
evangelho são as seguintes.
A pregação do evangelho é e deve ser uma
expressão da parte de Deus em salvar todos os que ouvem o evangelho.
Isto é, a vontade de Deus é que todos os que ouvem o evangelho sejam
salvos. Ele deseja intensamente isso e expressa esse desejo na
pregação. Os ministros que pregam, portanto, têm a obrigação de
dizer a todos os que ouvem que Deus deseja que eles sejam salvos. Tais
ministros devem fazer tudo o que podem para assegurar aos seus ouvintes
que a salvação está disponível a eles.
É afirmado por aqueles que defendem essa
visão que é impossível fazer a obra do evangelismo e a obra
missionária no exterior, a menos que a pessoa assegure os seus ouvintes
que Deus deseja verdadeiramente a salvação deles e que é a vontade de
Deus que eles sejam salvos. Dessa forma, a porta está aberta para o
ministro instar com os pecadores para que aceitem a Cristo, convidá-los
a vir a Cristo, e urgir para que se "apeguem a Cristo" – uma
frase que se tornou bem popular com os "Marrow men".
Tal desejo da parte de Deus em salvar todos
os que ouvem o evangelho está baseado em certa atitude favorável de
Deus para com todos os homens. Deus está favoravelmente inclinado a
todos os homens e expressa essa inclinação em sua vontade de salvar
todos. Aqui é onde a graça entra no assunto. Essa atitude graciosa de
Deus para com todos os homens é revelada de outras formas, tais como a
chuva e a luz do sol, saúde e prosperidade, e uma vida boa e próspera.
Mas ela é expressamente revelada nas declarações claras de Deus a
todos os que ouvem o evangelho: que Deus, de sua parte, deseja realmente
que aqueles que ouvem sejam salvos.
Mas a graça não é somente uma atitude
favorável da parte de Deus. A graça inclui todos os atributos divinos
de amor, bondade, paciência, misericórdia e outros. E assim, Deus ama
todos os homens, é misericordioso para com todos os homens, é bondoso
para com todos os homens, e faz somente aquilo que ressaltará o seu
desejo de salvar todos os homens.
Já que uma pessoa deve necessariamente
questionar sobre a base judicial para tal atitude de favor, essa ideia
de graça comum envolve também certa expiação universal. A base
judicial é o caráter e suficiência universal do sofrimento de Cristo.
Deus não pode desejar salvar aqueles por quem nenhuma salvação está
disponível. Deus não pode oferecer bênçãos que não estão no
depósito de Deus. E assim, uma oferta graciosa universal do evangelho
envolve um aspecto universal no sacrifício expiatório de Cristo.
Se a pregação expressa o que Deus deseja,
é óbvio que quer um homem seja salvo ou não depende do que o homem
deseja. Deus faz tudo o que pode, incluindo a expiação pelo pecado em
seu Filho; resta ver o que o homem fará. Dessa forma, um arminianismo
grosseiro está ligado à oferta graciosa do evangelho. A salvação
depende do livre-arbítrio do homem. Aqueles defensores da graça comum
que ainda são de alguma forma comprometidos com o calvinismo e seus
cinco pontos têm tentado preservar seu calvinismo insistindo que o
homem não tem livre-arbítrio, mas que Deus dá a graça especial e
salvadora aos seus eleitos somente. Mas tal contradição grosseira
procede de uma ideia que Deus tanto deseja salvar como não deseja
salvar. E é o livre-arbítrio que vence essa contradição, e então
aqueles comprometidos a uma oferta graciosa e sincera do evangelho
acabam sustentando abertamente a doutrina arminiana do livre-arbítrio.
Quase sempre, se não sempre, essa graça
comum que vem por meio da pregação do evangelho é não somente uma
declaração objetiva do amor de Deus por todos os homens, mas é
também uma concessão subjetiva de graça sobre aqueles que ouvem o
evangelho. Essa graça é aplicada ao coração dos ouvintes. Essa
graça dá àqueles que ouvem a capacidade espiritual para escolher ou
rejeitar a oferta do evangelho. Ela é uma graça, portanto, que pode
ser resistida.
Objeções à Oferta do Evangelho
As objeções contra essa visão do
evangelho, que foram produzidas ao longo dos séculos e particularmente
pela PRCA, são as seguintes.
O evangelho não pode ser e nunca é uma
mera oferta, pois é "o poder de Deus para a salvação de todo
aquele que crê" (Rm 1.16). Um poder para salvação é bem
diferente de uma oferta que depende da vontade do homem para a
recepção do seu conteúdo.
Juntamente com uma oferta sincera e
graciosa vai um pacote inteiro de doutrinas que desonram a Deus ao
destruir as doutrinas da graça soberana e particular. A Escritura e as
confissões ensinam que Deus faz todas as coisas para a sua glória como
o soberano Senhor de tudo. Na salvação, ele determina quem será salvo
e quem não será – por quem Cristo morreu e por quem ele não morreu.
Deus determina também em quem o Espírito opera a salvação e em quem
o Espírito endurece o coração. Deus salva os seus eleitos por meio do
poder da cruz, e sua obra de salvação é inteiramente sua. Dessa
forma, a heresia da oferta graciosa do evangelho é arminianismo, mas a
Escritura ensina uma graça soberana e particular de Deus que tributa
toda a glória a Deus.
Todo o conceito de oferta graciosa do
evangelho introduz uma contradição impossível na própria mente e
vontade de Deus. Ela ensina (pelo menos entre aqueles que alegam ser
reformados) que Deus tanto deseja a salvação de todos os homens como
não deseja a salvação de todos os homens. Quando confrontados com tal
contradição, os defensores dessa heresia recorrem à doutrina
deformada do paradoxo e contradição aparente.
A visão que o evangelho expressa o desejo
de Deus em salvar todos os homens coloca aqueles que a sustentam no
campo de uma longa linha de hereges começando com os pelagianos do
século V. Em contraste, a graça soberana e particular é a verdade da
igreja desde os tempos antigos.
Essas são as questões da graça comum da
oferta sincera do evangelho.
A História da Graça Comum Kuyperiana
A outra parte da graça comum tem a ver com
a graça de Deus, operada pelo Espírito Santo no coração de todos os
homens, que restringe o pecado e capacita o homem a fazer o bem.
Essa ideia de graça foi proposta pela
primeira vez por Abraham Kuyper numa obra massiva, intitulada De
Gemeene Gratie (Graça Comum). Kuyper deu esse título ao seu livro
porque queria distinguir sua graça comum da graça comum da oferta
graciosa do evangelho, a qual ele se opunha.
Quando os seguidores de Kuyper chegaram a
esse país (Estados Unidos) na última parte do século XIX e primeira
parte do século XX, a maioria deles se filiou à CRC. Assim, havia na
realidade dois campos na CRC, cada um sustentando uma visão diferente
de graça comum. Esses dois campos não se entendiam muito bem, e a
dissensão entre eles foi severa. Mas eles encontraram um
comprometimento que restaurou a paz e unidade, um comprometimento
expresso nos três pontos da graça comum adotado pelo Sínodo da CRC em
Kalamazoo, Michigan, em 1924. Esses três pontos foram a ocasião para a
expulsão dos Revs. Hoeksema, Ophoff e Danhof, que recusaram
subscrevê-los.
A Protestant Reformed Churches foi
organizada a partir de reformados que saíram dos dois grupos dentro da
CRC, um grupo do campo de De Cock e outro grupo do campo de Kuyper.
Contudo, esses membros foram unidos na PRCA em sua confissão mútua da
graça soberana e particular. Eles rejeitaram os dois tipos de graça
comum como arminianismo e contrárias à Escritura e às confissões.
É uma pergunta interessante o motivo pelo
qual Kuyper desenvolveu sua teoria elaborada de graça comum. A resposta
a essa pergunta reside em sua visão da Holanda e seu papel na defensa e
propagação da fé reformada.
Antes da Separação de 1834, a única
igreja Reformada na Holanda era a Igreja Estado (Hervormde Kerk).
Muitos na Holanda, incluindo Kuyper, criam que seu país estava
destinado a ser a fonte da fé reformada em todo o mundo. A verdade da
fé reformada, fluindo da Holanda como uma poderosa corrente, pensavam
eles, percorreria como um rio todo o mundo e teria tamanha influência
que todas as nações se tornariam reformadas ou ficariam, no mínimo,
sob a influência da fé reformada e se beneficiariam da prosperidade e
bem estar nacional que floresceriam nos países reformados. A Holanda
estaria nessa posição poderosa porque era um país reformado com um
governo que apoiava a igreja reformada.
Quando Kuyper viu a possibilidade de
organizar um partido político que poderia controlar o governo, ele
resignou ao ministério e entrou na política. Primeiro seu partido, o
Partido Anti-Revolucionário, ganhou assentos no parlamento holandês, e
então Kuyper viu a possibilidade que ele mesmo poderia se tornar
primeiro ministro. Mas ele foi capaz de se tornar primeiro ministro
somente ao formar uma coalizão com outro partido político, visto que
seu partido não tinha uma maioria absoluta por si mesmo. Essa coalizão
foi feita com o partido católico romano, e como resultado dessa
coalizão, Kuyper teve sucesso em seu objetivo de se tornar primeiro
ministro.
A coalizão de Kuyper com os católicos
romanos não foi uma ação estranha no seu partido. Era óbvio para
todos que, embora a Igreja Reformada fosse a igreja patrocinada pelo
Estado, nem todos os cidadãos da nação eram verdadeiros filhos de
Deus, nem membros da Igreja Reformada. Se, portanto, a Holanda haveria
de ser a fonte da fé reformada como um país reformado, deveria ser
considerado os muitos que não eram reformados, de forma que todos
pudessem se unir numa causa comum de promover a fé reformada por todo o
mundo.
Kuyper encontrou a base para tal
cooperação entre todos os cidadãos em sua doutrina da graça comum. A
graça comum era o fundamento sobre o qual crentes e incrédulos, na
verdade todos os cidadãos da Holanda, poderiam cooperar numa causa
comum de cristianizar o mundo, ou torná-lo verdadeiramente reformado.
Esse foi o fundamento, portanto, para o envolvimento de Kuyper na
política e para sua coalizão com os católicos romanos.
A Natureza da Graça Comum Kuyperiana
A ideia de graça comum de Kuyper seguia as
seguintes linhas.
A queda de Adão no paraíso foi de uma
devastação tão severa que sem a intervenção divina, a criação
teria se tornado um deserto estéril e o homem teria se tornado uma
besta ou um diabo. Deus, portanto, interveio com a graça comum, que ele
concedeu a todos os descendentes de Adão para preservá-los de se
tornarem bestar ou demônios. Essa mesma graça comum foi dada à
criação no tempo do dilúvio, quando Deus estabeleceu um pacto com
toda a criação e colocou o arco-íris nos céus como um sinal de sua
graça comum.
O resultado dessa graça comum é que o
homem, por meio do seu poder, é capaz de cumprir o mandato original da
criação de subjugar a terra. Sem a graça comum isso seria impossível;
com a graça comum, subjugar a terra se torna uma realidade.
Esse chamado para subjugar a terra é dado
a todos os descendentes de Adão, e porque todos são capazes de se
engajar com sucesso nessa tarefa, a graça comum forma um terreno comum
para os crentes e incrédulos cooperarem na tarefa comum de subjugar a
terra.
O mandato cultural implica a obrigação de
todos os homens em descobrir todos os poderes e recursos da terra e
fazer uso deles de forma que esses poderes possam ser utilizados
apropriadamente. Ao subjugar a terra, os homens descobrem os poderes do
vento, da chuva, eletricidade, átomos, etc. Esses poderes são, por sua
vez, usados de forma que beneficiem a humanidade, torne sua vida mais
fácil e agradável, e dê ao homem tempo livre para desenvolver a arte:
pintura, escultura, música, arquitetura, e assim por diante. Dessa
forma, a raça humana progride no desenvolvimento da cultura, que por
sua vez pode ser usada para resolver os problemas de doença, pobreza,
sofrimento, guerra, conflitos trabalhistas e raciais.
Porque os não regenerados estão lutando
pelos mesmos objetivos que os regenerados, a cooperação é possível
entre os dois tipos de pessoas, e o resultado é uma área ampla de
interesse e preocupação mútua, na qual o ímpio e o justo trabalham
lado a lado para colocar toda a criação e todas as instituições da
sociedade ao serviço de Cristo o Rei (pro rege).
Tudo isso soa um pouco semelhante ao sonho
pós-milenista. Embora Abraham Kuyper alegaria ser um amilenista, os
pós-milenistas têm-no considerado como um deles, e corretamente. As
igrejas reformadas têm seguido o sonho kuyperiano em muitos casos, e as
ideias de "tornar esse mundo um lugar melhor para viver",
"subjugando todas as coisas a Cristo o Rei", e "colocar
tudo na criação ao serviço de Cristo" são slogans de
instituições e escolas que ainda utilizam o nome Reformado/Reformada.
Alguns pensam que essa cooperação entre
justos e ímpios poderia acontecer no mundo das ideias também. O Dr.
Ralph Janssen recorre à graça comum kuyperiana para defender a sua
Alta Crítica da Bíblia. Ele descobriu muitas boas ideias na adoração
pagã das nações ao redor de Israel por causa da graça comum nelas, e
viu a religião de Israel como formada e modelada pelo pensamento pagão
e desenvolvida pela graça comum.
O Evolucionismo, abertamente ensinado em
escolas reformadas e presbiterianas, é justificado sobre a base que a
ciência incrédula, pelo poder da graça comum, é capaz de determinar
como o mundo veio à existência.
Com respeito à moralidade, o mesmo
pensamento é tomado como verdadeiro. A música mundana, em vez de ser
consignada às gerações e à podridão moral de Jubal, é vista como
obra frutífera da graça de Deus no coração de homens de outra forma
ímpios. Qualquer ato ou feito que numa forma exterior possa parecer ser
misericordioso, benéfico, inteligente ou agradável é atribuído à
graça comum de Deus, sem qualquer consideração pelo próprio
veredicto de Deus: "Tudo o que não é de fé é pecado" (Rm
14.23).
Kuyper alegava que as boas obras dos não
regenerados, porque eram realizadas pela graça, seriam preservadas para
o céu e os frutos dos pagãos seriam encontrados na glória. Acho
difícil imaginar que rock pesado será tocado no céu e que os muros da
nova Jerusalém serão decorados com as pinturas de artistas modernos. O
céu perderia muita atratividade se esse fosse realmente o caso.
Objeções à Graça Comum Kuyperiana
À parte do fato que a Escritura é muito
clara sobre o ponto crucial que a graça é sempre soberana, os
defensores da graça soberana e particular, especialmente a PRCA,
lançaram ataques bem sucedidos contra a teoria da graça comum de
Kuyper.
A teoria de Kuyper não é encontrada na
Escritura. Uma pessoa fica surpresa ao ler De Gemeene Gratie e
ver que Kuyper cita pouquíssimas passagens bíblicas para apoiar a sua
posição. Mas o que é pior: a visão é hostil à Escritura, pois vai
contra o próprio pronunciamento de Deus sobre as "boas" obras
dos não regenerados: "Tudo o que não é de fé é pecado" (Rm
14.23). Essa passagem é clara, abrangente e decisiva para qualquer
avaliação das obras de um homem. Ficamos com a impressão que no
julgamento de Kuyper, o ímpio é capaz de realizar mais coisas boas que
o filho humilde de Deus que diariamente luta com o seu pecado, confessa
que todas as suas obras são nada, sabe que até mesmo as suas melhores
obras são corrompidas e poluídas pelo pecado, e corre diariamente à
cruz em busca de perdão.
Herman Hoeksema predisse no começo da
controvérsia sobre a graça comum que se a teoria kuyperiana da graça
comum fosse alguma vez adotada, ela seria o fim da antítese entre o
povo de Deus e os ímpios. E assim ficou provado. A graça comum tem
sido um buraco no dique da antítese, um buraco que cresceu com o passar
dos anos até que se tornou uma brecha escancarada por meio da qual tem
passado um maremoto de mundaneidade e perversidade. Olhe para a igreja
ao redor de nós e chore.
A antítese não é entre o país reformado
da Holanda e o restante do mundo, ou entre a América e o restante do
mundo; é entre o eleito e o réprobo na Holanda, na América e por todo
o mundo. A antítese é marcada pelo fato que o incrédulo totalmente
depravado, capaz de fazer atos poderosos com os poderes da criação de
Deus, usa todavia tudo que descobre e inventa para promover o reino do
anticristo. Ele peca em tudo o que faz, pois suas obras não são da fé,
mas estão a serviço de Satanás e em oposição a Deus.
O filho de Deus eleito e regenerado também
vive no mundo – o mesmo mundo no qual o ímpio vive – mas o filho de
Deus vive no mundo como um cidadão do reino dos céus. Dessa forma, ele
usa o mundo de Deus, até onde tenha qualquer controle sobre uma parte
dele, para buscar o reino dos céus. Ele busca esse reino, como
manifesto no mundo, em sua igreja, em suas escolas pactuais, e em seu
andar como cidadão fiel que serve ao Senhor Cristo e testemunha por
palavra e ação a verdade do evangelho. Ele busca esse reino condenando
toda a impiedade no mundo e testificando sobre o julgamento inevitável
de Deus sobre o mal. E ele busca esse reino continuando sua
peregrinação terrena fielmente, que o aproxima mais e mais do seu
destino eterno, a morada de muitas mansões. O reino sobre o qual Cristo
seu redentor governa, e no qual ele é um cidadão, é um reino
celestial.
1
Para um estudo detalhado da história sobre a oferta sincera da
salvação, veja Herman Hanko, History of the Free Offer
(Grandville, MI: Theological School of the Protestant Reformed Churches,
1989).
2
O autor usa o termo "Marrow men". O termo refere-se a doze
homens que protestaram contra a decisão da Assembleia Geral da Igreja
da Escócia, tomada em 1720, de condenar o livro "The Marrow
of Modern Divinity" [A Essência da Teologia Moderna], de Edward
Fisher. O livro de Fisher foi publicado pela primeira vez em 1645 e
republicado em 1648/1649. Entre os doze "Marrow men",
havia alguns teólogos bem conhecidos, como Thomas Boston, James
Hog, Traill, Ralph e Ebenezer Erskine. (Nota do tradutor).
Fonte: Capítulo 34 do livro Contending
for the Faith, de Herman Hanko.
Tradução: Felipe Sabino de Araújo
Neto, maio/2010