O Ser de Deus
Herman Hoeksema
Tradução: Marcelo Herberts
A partir do que já foi dito sobre a cognoscibilidade
e a incompreensibilidade de Deus, deve ser evidente que é absurdo falar
acerca de provas para a existência de Deus e que elas não são
necessárias. Ninguém está apto a demonstrar com certeza matemática
que Deus existe, nem pode a razão alcançar isso através de um
silogismo. Tudo o que pode ser demonstrado e provado dessa forma precisa
pertencer ao mundo do nosso próprio entendimento e experiência, e,
portanto, não é Deus.
"Quem dele se aproxima precisa crer que ele
existe e que recompensa aqueles que o buscam" (Hebreus 11:6). É a
fé, uma evidência das coisas que não se vêem e a essência daquilo
que se espera, que é capaz de "entender que os mundos foram
formados pela palavra de Deus, tal que as coisas que são vistas não
foram feitas daquilo que é visível" (vv. 1, 3), e que podem
abordar a incompreensibilidade de Deus. Isso é verdade não apenas num
sentido espiritual e ético, tal que não podemos adorar e confiar nEle
sem fé, mas é também verdadeiro num sentido intelectual. Alguém que
discorresse sobre o conhecimento de Deus não poderia abordar esse
propósito mediante uma dúvida acerca do que Deus é ou não é, ou com
uma franca negação da sua existência. Sem fé é impossível agradar
a Deus. Sem fé é impossível encontrá-lo.
Igualmente, não há necessidade de provas para
convencer o homem daquilo que Deus é, pois Ele se revela e não deixa-se
ficar sem o testemunho na consciência de toda e qualquer pessoa. É
somente na forma de evidências da revelação que as assim chamadas
provas para a existência de Deus encontram valor e significado.
A Prova Cosmológica
O argumento cosmológico origina-se da lei da causa e
efeito. Todas as coisas têm uma causa. Isso pode ser considerado uma
lei universal. Portanto também o universo, o cosmos como conjunto
orgânico, precisa ter uma causa. Essa causa do universo como um todo é
a causa última ou final, Deus.
Não é difícil demonstrar a fraqueza e a falácia
dessa argumentação. Por esse silogismo a mente humana não pode jamais
mover-se para além do mundo de causa e efeito. Suponha que a conclusão
quanto a uma causa última de todo universo fosse correta. Essa causa
ainda iria pertencer ao mundo da nossa experiência e jamais poderia ser
o absoluto, pois há uma relação de necessidade entre causa e efeito.
Existe uma diferença infinita entre causa e criador. A relação do
criador com o universo é de liberdade e soberania, ao passo que a
relação de uma causa é de necessidade e dependência.
Uma causa nunca é auto-existente; auto-existência
é um dos principais atributos de Deus, que é Deus. Uma causa
não seria causa sem o seu efeito; Deus é Deus eternamente e
permanece Deus, ainda que todo o mundo se reduzisse ao nada. Portanto,
mesmo se pudesse ser admitido que a argumentação acima nos conduzisse
a uma causa última ou final, a conclusão de que essa causa final é
Deus é totalmente arbitrária e injustificada.
Mesmo a conclusão em si, isto é, que deve existir
uma causa final do mundo, é arbitrária. A partir da premissa maior de
que todas as coisas têm uma causa, pode ser feita a inferência que
mesmo o mundo tem uma causa. Mas não há nada nessa premissa que
garanta o julgamento que essa causa é final, isto é, em si mesma
não-causada. De fato, estritamente falando, a premissa maior nega a
finalidade de qualquer causa. Alguém poderia voltar o conjunto do
argumento em favor do ateísmo, como segue: Todas as coisas têm uma
causa, isto é, não há nada não-causado; se um Deus existe, ele
precisa ser não-causado; logo, Deus não existe.
Na verdade, a existência do mundo é evidência
certa de Deus para o crente, e para ele representa o cúmulo do absurdo
negar o ser de Deus como criador do universo. No entanto, a fé não
alcança Deus na forma de um argumento lógico, mas crê e ouve o
discurso de Deus em todas as coisas que são feitas. Pela fé nós
sabemos que o mundo é estruturado pela palavra de Deus (Hebreus 11:3).
A Prova Ontológica
O argumento ontológico procura raciocinar a partir
da noção de Deus que está presente em nós para a existência dEle. O
método de argumentação de Anselmo é neste ponto, tal como
apresentado por Dr. A. Kuyper, complicado e mecânico: Primeiro, algo
maior do que qualquer coisa concebível precisa existir: aquilo que
existe no pensamento e que na verdade é maior do que aquilo que existe
apenas no pensamento. Segundo, Deus é concebido como algo maior do que
qualquer coisa que pode ser concebida. Terceiro, portanto Deus existe
não apenas no pensamento, mas também de fato.
Eu não sei se Kuyper representa corretamente a
argumentação de Anselmo, mas sendo o caso, parece-me que temos aqui um
mero exemplo de argumentação circular. Simplesmente e claramente
estabelecido, o silogismo coloca-se da seguinte forma: Deus é concebido
como algo maior além do que nada mais pode ser concebido. Algo maior
além do que nada mais pode ser concebido existe não apenas em
pensamento, mas também de fato. Portanto, Deus existe não apenas em
pensamento, mas também de fato.
Assim estruturado, o silogismo simplesmente assume o
que precisa ser provado, isto é, a declaração na premissa menor. Se
é verdade que algo maior além do que nada maior pode ser pensado ou
concebido existe não apenas em pensamento, mas também de fato, a
conclusão também resulta. Mas isso é precisamente o que precisa ser
provado, não se tratando deveras algo auto-evidente. Portanto todo o
argumento é uma forma de argumentação circular.
No entanto, o argumento ontológico real é muito
mais simples. Ele sustenta que nós temos uma idéia de Deus. Essa
idéia de Deus é infinitamente maior do que o homem em si. Portanto a
idéia de Deus não pode ter sua origem no homem; ela pode ter sua
origem somente no próprio Deus. Portanto, Deus existe. Essa linha de
raciocínio também está baseada em pressuposições que requerem prova.
A suposição principal é que há um mundo real de seres correspondendo
ao nosso mundo do pensamento, que existem coisas reais (noumena)
correspondendo às nossas idéias das coisas (phenomena), e que
as idéias têm sua origem nas coisas reais.
O crente que procede do princípio básico, "Eu
creio em Deus, criador de todas as coisas," não tem dificuldade
aqui. Ele crê mediante a Palavra (Logos) que Deus criou todas as
coisas, incluindo a capacidade perceptiva e cognitiva do homem, numa tal
forma que as faculdades do homem estão em harmonia com a Palavra. Mas a
razão pura não pode jamais estabelecer essa verdade, como é
claramente evidente a partir da história da filosofia de Descartes a
Kant. Novamente, o argumento assume que o homem tem em si uma idéia de
Deus a partir da qual pode concluir a existência de Deus em si. Mas
suponha que ele analise a sua idéia de Deus. Suponha que ele descubra
que essa idéia de Deus é maior do que ele mesmo, e suponha que haveria
um ser correspondendo a essa idéia. Este ser seria Deus? É evidente
que não. Ele seria um ser maior do que o homem, mas ainda não seria Deus.
Para o crente esse argumento é plenamente
convincente. Ele não parte da sua idéia de Deus, mas da fé no Deus
vivo em si, que é infinito em poder e majestade – não apenas maior
do que o homem, mas também infinitamente superior à sua compreensão
mais arrojada. Ele sabe também que não tem esse conhecimento de Deus a
partir de si mesmo, mas que Deus mediante a sua palavra e Espírito é o
seu autor. Esse conhecimento não é da razão e não é alcançável na
forma de uma demonstração lógica, nem deriva a sua certeza de um
argumento silogístico. Antes, é derivado da revelação e tem a sua
convicção imediata através do testemunho do Espírito Santo. Para a
fé é não somente absurdo, mas pecaminoso colocar de lado esse
testemunho.
A Prova Teleológica
A mais rica e mais bela de todas as assim chamadas
provas para a existência de Deus é a prova teleológica. Isso
significa sermos conduzidos para além, em direção não apenas a um
determinado super-poder acima de tudo, ou causa final do mundo, mas
também a um designer pessoal de todas as coisas, dotado de
intelecto e vontade, de conhecimento e sabedoria.
No mundo ao nosso redor, bem como em nosso próprio
ser, vemos desígnio e propósito em toda parte. Quão maravilhosa e
perfeitamente estão todas as coisas adaptadas umas as outras tal que
cada criatura existe, se move, vive e age dentro da esfera da sua
própria lei, e todas as suas necessidades são satisfeitas. O peixe
está adaptado à água, o pássaro a voar no ar, a besta a vagar na
selva, árvores e flores a crescer e florescer no solo, e nuvens, chuva
e raios solares, a fazer com que a semente germine na terra. O olho
está adaptado à luz, o ouvido ao som. A mente humana está adaptada a
interpretar o mundo ao seu redor e manter sob o seu domínio todas as
coisas.
Em toda parte há propósito e desígnio, e todas as
coisas proclamam em alta voz um designer maravilhoso em sabedoria,
benevolência e poder. Esse designer é Deus. De fato, o crente
ama esse argumento. Ele ama cantar com o salmista inspirado: "Quantas
são as tuas obras, Senhor! Fizeste todas elas com sabedoria! A terra
está cheia de seres que criaste" (Salmos 104:24). Novamente, essa
é a linguagem da fé, não da razão sem fé, e está baseada na
revelação. A fé não busca provar a existência de Deus, mas parte da
certeza da sua existência.
Na medida em que a razão pura ou incrédula está
implicada, notemos que também esta assim chamada prova demonstra
exatamente nada no que se refere à existência de um ser inteligente
exterior ao mundo, que é infinito em poder e sabedoria e o designer
de todas as coisas. Ela pode ser da mesma forma empregada pelo
evolucionismo panteísta para demonstrar que a natureza em si é
inteligente, que Deus é o mundo, encontrando a sua consciência mais
alta no homem.
Além disso, se há desígnio no universo, há
também muitos fenômenos que pareceriam demonstrar o exato oposto de
desígnio e propósito. Há atrito, conflito, morte, destruição e
aparente tolice em toda parte. Um bebê nasce, e sua mãe morre nas
dores do parto, ou o bebê em si é arrebatado pelo inexorável braço
da morte. Uma árvore cresce, e o raio a derruba. Uma safra está quase
pronta para a colheita, e uma chuva de pedras a destrói. O mundo tal
como percebemos e conhecemos hoje é tão repleto de fenômenos beirando
o absurdo que alguns têm negado o desígnio por completo, tendo
proclamado o universo como o pior que poderia ter sido concebido por
alguém.
Fé na revelação de Deus tem a sua resposta a essas
objeções, pois ela conhece a ira de Deus pelo pecado, e considera a
sabedoria de Deus na expressão de Jesus Cristo o Senhor, em quem o
crente encontra a solução para todos esses fenômenos e olha
esperançoso para a teodicéia final e perfeita no dia da revelação do
julgamento reto de Deus. Mas a razão incrédula que coloca de lado ou
contradiz a revelação do próprio Deus de si mesmo não pode
restabelecer Deus na forma do argumento teleológico. Ela não tem poder
enquanto prova racional.
A Prova Moral
A prova moral para a existência de Deus é
encontrada em sua forma mais simples no imperativo categórico de Kant.
Todos os homens têm um senso de obrigação daquilo que é certo e
errado, somado a um sentimento inegável de responsabilidade de fazer o
que é certo e um senso de auto-reprovação quando se faz o que é mau.
Há nele como se fosse uma voz que não é silenciada, sempre dizendo à
sua consciência interior, "Du sollst" (Tu deves). Isso
pressupõe que existe um locutor e, além disso, alguém que é Senhor e
Soberano. Esse autor da ordem "Du sollst" na consciência
moral do homem é Deus.
Novamente, nós admitimos que o conhecimento humano
do bem e do mal e seu senso de dever são certamente provenientes de
Deus. Os pagãos, que não têm a lei, têm a obra da lei escrita em
seus corações, tal que a sua própria consciência constantemente dá
testemunho, ora defendendo ora acusando-os uns aos outros (Romanos
2:14-15). Mas por esse argumento é completamente impossível provar a
existência de Deus a alguém que não esteja partindo da fé em Deus e
na sua revelação. Spencer demonstra que esse "Du sollst"
não tem nada a ver com a voz de um ser supremo e Senhor, mas que tem
sua origem na sociedade, limitando em todos os aspectos e em milhares de
formas o amor-próprio. O humanismo desenvolve a sua própria ética,
divorciada na sua totalidade do conhecimento de Deus e dos seus
preceitos.
A Prova Histórica
O mesmo pode ser dito do argumento histórico, que é
algumas vezes vinculado aos quatro argumentos já considerados. Ele
procede, ou do fenômeno geral da religião em meio a todas as nações
ou do progresso deliberado na história. Mas nem uma nem a outra forma
de argumentação é suficiente para provar a existência de Deus a
alguém que não deseja dobrar-se à revelação do Deus vivo e que
conteste a sua palavra.
Ao passo que todas essas assim chamadas provas têm a
sua importância e valor para alguém que crê, assim como os muitos
testemunhos do Deus invisível; enquanto provas estritamente lógicas
que devam convencer a razão incrédula, não têm qualquer poder. O
tolo continuará a dizer em seu coração "Deus não existe" (Salmos
14:1), e o homem natural ainda irá se negar a glorificá-lo e dar-lhe
graças. Somente a fé e a obediência humilde à palavra de Deus
estarão aptas a confessar "Eu creio em Deus."
A Impossibilidade da Definição de Deus
À luz do que tem sido dito acerca da
incompreensibilidade de Deus, deve ter ficado claro que todos os
esforços para prover uma definição adequada de Deus devem ser
infrutíferos. A essência de Deus não pode ser definida no sentido
próprio do termo definição. Definir significa limitar, tal
como o termo em si alude. Quando nós definimos algum objeto, incluímo-lo
a uma certa classe, colocamo-lo na categoria de um universal conhecido,
para então distingui-lo dos outros objetos na mesma classe, mencionando
as suas características distintivas.
É simplesmente impossível definir a essência de
qualquer coisa pelo simples fato de não podermos formar um conceito
claro do significado de essência. Nós podemos dizer que a
essência de uma coisa é aquilo que ela é, ou sua substância,
ou sua hipóstase [hypostasis], o substrato de todas as
qualidades e atributos necessários de uma coisa, aquilo em que tudo o
mais subsiste. Mas sentimos que todas essas tentativas de definição
não têm êxito em limitar com clareza às nossas mentes o conceito essência,
ou ser. A dificuldade parece estar em que essência precisa em si
mesma ser um conceito último, tal que não possamos encontrar um
universal mais amplo ou abrangente.
Como então podemos esperar formular uma definição
satisfatória do ser ou da natureza de Deus? Deus é Deus. Não pode
existir um conceito mais alto do que a nossa idéia de Deus. Não pode
existir universal em que Deus possa ser classificado. Ele não pode ser
comparado: "‘Com quem vocês me vão comparar? Quem se assemelha
a mim?’ pergunta o Santo" (Isaías 40:25). Qualquer definição
ou descrição de Deus que falhe em levar em conta essa
incomparabilidade de Deus estaria por meio disso destruindo a própria
idéia de Deus. O que não pode ser comparado certamente não pode ser
definido. Da mesma forma não é possível encontrar o gênero de
tal definição no próprio Deus.
Freqüentemente tem se buscado isso. Algumas pessoas
partiram da idéia do Espírito a fim de fazer dela o gênero da sua
definição; outras partiram da idéia do amor; ainda outras, da idéia
do ser puro ou da idéia da auto-suficiência de Deus (aseitas).
Mas todas essas tentativas, à medida que se propunham a oferecer uma
definição do Altíssimo, naufragaram no choque contra os rochedos da
simplicidade de Deus. Deus é um. Ele é suas virtudes. Todas as suas
virtudes, muito embora discriminadas em sua revelação a nós, são uma
unidade nele. Portanto, todas as tentativas de definir a essência do
ser divino precisam ser abandonadas, posto que necessariamente
infrutíferas. Dizer que podemos definir Deus é negar a sua própria
Divindade.
Isso não significa que não podemos descrever a
natureza divina. Se não pudéssemos dizer nada sobre o ser de Deus
teríamos de retroceder à conclusão do agnosticismo. Sem com isso
reivindicar a capacidade de prover uma definição lógica e abrangente
da essência de Deus, podemos claramente circunscrever a nossa
concepção de Deus enquanto ela estiver baseada na revelação, a fim
de expressar quem e o que ele é, tanto em si mesmo quanto em relação
ao mundo, e fazer isso em distinção e oposição a todas aquelas
concepções de Deus que não estejam baseadas na revelação e são,
portanto, necessariamente falsas. Aqui precisa ser novamente enfatizado
que todas as nossas descrições da natureza de Deus precisam estar
baseadas estritamente naquilo que Deus em si nos tem revelado no que se
refere ao seu próprio ser e natureza.
O Método da Filosofia
A fé não pode nem por um só momento conceder à
razão o direito e a capacidade de dizer quem e o que é Deus.
Dogmáticos não podem adotar o método da filosofia, que sempre faz
desta o seu próprio deus, seja quando com audácia reivindica junto com
Fichte que a razão humana simplesmente o criou, seja se a verdadeira
concepção de Deus é determinada pela maioria de votos na humanidade.
Para a filosofia representa um problema se politeísmo, monoteísmo,
teísmo, deísmo ou panteísmo apresentam a concepção correta de Deus.
Para o crente, que deriva todo o seu conhecimento de Deus a partir da
Sua própria revelação, isso não pode representar dúvida.
O professor G. Watts Cunningham descobre um problema
real aqui, em parte porque a "consciência religiosa" é
"questionável em seu pronunciamento acerca do objeto da sua fé".
Ele julga que esses pronunciamentos da consciência religiosa são uma
"autêntica babilônia."
Para
alguns crentes existem muitos deuses com uma grande variedade de
características; para outros há somente um Deus, ainda que
concebido com uma variedade interminável de qualidades; alguns
crêem que Deus é o artífice do progresso do mundo, outros O
identificam precisamente com o progresso do mundo; às vezes Ele é
concebido como um Deus ciumento interessado em alguns poucos
escolhidos, e então novamente é assumido como alguém que não
respeita pessoas; segundo a fé de alguns, Ele é uma personalidade
auto-consciente com uma disposição de atingir certos fins, ao
passo que em outros tipos de fé ele é um Poder inconsciente, Karma
ou Céu; e assim a confusão segue ad infinitum. É claro, mesmo uma
mera reflexão revela que tal confusão é logicamente intolerável;
obviamente, não pode ser o caso de todas essas visões estarem
certas. O que diríamos então? Iríamos nos refrear no
questionamento, que a fé pode abundar? Isso é impossível, e a
consciência religiosa da humanidade não irá tolerar isso. Assim,
aparte das crenças em Deus emerge o problema de Deus; a própria
diversidade da fé faz deste um problema inevitável.
Para o crente esse problema não existe, pelo simples
fato que ele não deriva a sua concepção de Deus de um estudo das
diversas manifestações da consciência religiosa.
Da mesma forma não há uma solução satisfatória
quando o problema de Deus é filosoficamente apresentado dessa forma. O
professor Cunningham, tendo eliminado o politeísmo e deísmo como
possíveis soluções, arbitrariamente decide-se em favor do teísmo
como este oferecendo a verdadeira concepção da natureza de Deus:
O campo de batalha é então aparentemente
deixado para o teísmo e o panteísmo. O que pode ser dito dos seus
méritos relativos? Aqui a consciência religiosa da humanidade não
fala inequivocamente. Uma das grandes religiões, pelo menos, é
totalmente panteísta; e ela soma entre seus devotos uma grande
parte da raça humana. Mas o Budismo permanece quase sozinho nesse
sentido; as outras grandes religiões, particularmente o
Cristianismo e o Maometismo, são predominantemente teístas em sua
visão de Deus. Assim, pareceria que do ponto de vista da
consciência religiosa o peso de autoridade descansa em favor do
teísmo antes que do panteísmo; e esse é certamente o caso se pode
ser demonstrado (tal como muitos dizem ser possível) que o
Cristianismo moderno expressa o discernimento mais profundo que a
consciência religiosa do homem já alcançou.
Evidentemente o peso de autoridade ao qual o
Professor Cunningham se refere é o voto majoritário computado pela
"consciência religiosa" do mundo, pois ele fala acerca do
"peso de autoridade" da razão:
Como a consciência religiosa raciocina, também
hesita entre o panteísmo e o teísmo. Mas aqui também o peso de
autoridade pareceria favorecer as reivindicações do teísmo. Os
argumentos acima enumerados, especialmente os mais fortes (os
argumentos epistemológico e moral), conduzem mais diretamente ao
teísmo; de fato, seria difícil reconciliá-los com uma visão
panteísta radical do mundo. E no desenvolvimento histórico do
pensamento filosófico os maiores pensadores têm, no seu todo,
mostrado uma inclinação para o teísmo antes que para o panteísmo.
As citações acima mostram claramente que a
filosofia não tem uma solução ao problema que levanta e que não tem
nada de positivo a dizer sobre a questão da natureza de Deus.
O Método Subjetivo de Abraham Kuyper
Da mesma forma a fonte do nosso conhecimento e da
descrição da natureza de Deus não pode ser encontrada na experiência
subjetiva do crente, nem mesmo se amparada por revelação. Esse parece
ser o método recomendado pelo Dr. A. Kuyper quando ele ensinava
dogmática na Universidade Livre de Amsterdam. Parece quase
inacreditável, mas ele diz:
Se, portanto, a partir da natureza e história do
assunto, parece que a idéia do ser não pode ser definida,
então a questão que se levanta é como podemos mesmo lidar com a
idéia na teologia. A esse respeito o parágrafo diz que, falando da
natureza de Deus, nós nunca precisamos partir do nosso entendimento
pessoal ou do pensamento abstrato. Toda tentativa de abordar essa
doutrina por meio do raciocínio abstrato parte de um falso
escolasticismo ou colapsa dentro dele. Uma pessoa tem um fundamento
sólido sob os pés quando se volta à sua vida pessoal interior e
às suas experiências religiosas e parte daí. Falar das "impressões
religiosas" não é falar de algo provido pela graça, mas
daquelas impressões básicas, fundamentais, da vida religiosa, no
próprio coração dos nossos corações, assim desconsiderando
aquelas impressões que são dadas pela nossa própria auto-realização
da autoconsciência. Os parágrafos precedentes chamam isso de
"senso do divino, gravado na própria essência e entranhas do
homem". Se alguém diz que não existe tal coisa, então deixe
tal pessoa renunciar a toda empreitada teológica. Pois mesmo que
uma pessoa tenha dez bíblias e possua todo o conhecimento
exegético possível do que está nessas bíblias, sem uma conexão
interna com o ser eterno ela não pode avançar nem um só passo.
A partir dessa experiência religiosa e dessas
impressões religiosas, o Dr. Kuyper alega que nós podemos ascender ao
conhecimento de um ser eterno ou Ego, que é um, imutável, e que tem o
fundamento do seu ser em si mesmo. Kuyper nos lembra que quando ele fala
da consciência religiosa ou experiência, não se refere àquela do ser
humano individual, mas à consciência universal da humanidade tal como
iluminada pela revelação das Escrituras:
Se alguém pergunta, então, se segue a partir
disso que observando esse [senso do divino] fora da sua própria
auto-realização e autoconsciência, todo homem chega a uma
confissão desse EU SOU de Deus, então a resposta precisa ser: Não.
De fato o homem tem um senso do ideal, mas todo homem o tem enquanto
pecador, em cuja condição tudo é anormal. Não apenas isso, pois
mesmo se ele não fosse anormal por causa do pecado, ainda não
seria verdade que todo homem o teria na forma individual. Uma
consciência humana individual é inconcebível – um homem não
existe exceto em conexão com e enquanto parte de todo o organismo
da raça humana. A consciência humana tem sido dada somente à
raça humana no seu todo …
Assim, quando falamos da confissão do divino EU
SOU em Deus como um Ser, essa confissão não é encontrada na
consciência individual de A ou B, mas na consciência da humanidade
concebida como uma coleção de indivíduos, e tal como dizemos, na
forma de graduação, processo, associação.
Em segundo lugar, nós precisamos também falar
do homem como sendo anormal em conexão com a debilidade que a
natureza humana tem padecido debaixo da influência do pecado.
Portanto, Deus faz Cristo, o filho do homem, o representante de toda
a raça humana, não como um indivíduo anormal, mas completamente
normal. A partir de Cristo, portanto, vem a nós um remanescente e
testemunho da manifestação normal da consciência que habita na
raça humana. As Escrituras são dadas para limpar a nossa
consciência. E assim é pela consciência humana, em grau, processo
e associação, e purificada pela revelação das Escrituras
Sagradas, que nós chegamos à confissão de que todas as
operações dentro de nós e ao nosso redor irradiam e vêm a nós a
partir do EU SOU de Deus, que existe em distinção a nós e que Ele
tem em si mesmo.
O Erro de Kuyper
Que Kuyper aborda aqui perigosamente o idealismo
panteísta de Fichte é evidente. Que Kuyper está totalmente errado é
evidente não apenas a partir das Escrituras, mas também a partir da
história da filosofia. Quando o homem natural constrói a partir da sua
própria experiência de Deus uma concepção de si mesmo, faz sempre um
Deus a partir do seu próprio coração, ou nega em absoluto que Deus é.
Cristo não aparece na palavra de Deus como o representante da
consciência humana geral em seu estado puro e normal, mas como quem vem
do alto, como o Filho de Deus encarnado, e como a luz que brilha nas
trevas, embora as trevas não a compreendam (João 1:5). Em Cristo nós
não temos a mais sublime manifestação da consciência humana em sua
relação a Deus, mas a mais sublime revelação de Deus a nós: "Há
muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos
antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos
por meio do Filho" (Hebreus 1:1-2).
Em Cristo, portanto, nós não temos a expressão da
consciência humana acerca de Deus, mas a expressão divina de Si mesmo
diretamente através do seu Filho em carne humana. Não a partir da
filosofia, não a partir da razão humana, não a partir da experiência
religiosa, e não a partir da experiência religiosa da raça humana,
mas a partir da revelação somente, isto é, da palavra do próprio
Deus concernente a sua pessoa, é que precisamos derivar uma descrição,
qualquer que seja a descrição que nos seja possível fazer a partir da
natureza de Deus.
Deísmo e Panteísmo
Se consultarmos as Escrituras e formularmos a nossa
descrição da natureza de Deus segundo a sua revelação, descobriremos
que a palavra de Deus o revela a nós tanto em sua natureza
transcendente como imanente, como o "Todo Pleno", segundo a
ênfase de Barth; no entanto, as Escrituras também o revelam como
aquele que está muito próximo de nós, cuja criatura lhe é tão
familiar que Ele pode ser descrito por termos deduzidos da existência
da criatura.
Em outras palavras, uma descrição da natureza de
Deus baseada nas Escrituras precisa excluir e condenar como falso tanto
o panteísmo como o deísmo. Ainda que uma ênfase na transcendência de
Deus, na sua unicidade plena, na verdade que ele está no céu e estamos
na terra, que ele é Deus, tenha o seu lugar e mérito; no
entanto, uma ênfase exclusiva nessa esfera da natureza de Deus o separa
completamente de nós e do mundo, torna a revelação impossível, e de
fato o distancia uma vez mais para o reino do desconhecido. Tanto a sua
imanência como a sua transcendência, a sua similitude e a sua
diversidade, nos são reveladas no livro sagrado. Ambos precisam ser
mantidos em uma descrição da natureza de Deus. Quando fazemos isso
tanto o deísmo como o panteísmo são eliminados de uma concepção
cristã de Deus.
Deísmo, uma filosofia que foi originada junto aos
enciclopedistas franceses e alguns pensadores ingleses do século
dezoito, enfatiza exclusivamente a transcendência de Deus. Deus está
acima do mundo. Ele criou o universo, mas não se envolve com ele. Ele
não apenas constituiu a essência do mundo, mas também lhe deu suas
leis; agora o universo corre por sua própria conta e leis. Da mesma
forma que um relojoeiro ajusta um relógio, lhe dá corda e o deixa
correr, Deus criou o mundo, constituiu-o de forma tal que pudesse
funcionar independentemente, e o deixa correr sem qualquer
interferência ou controle da Sua parte.
Panteísmo é a visão diametralmente oposta. Segundo
o panteísmo, Deus não é transcendente. Ele é apenas imanente ao
mundo; ou antes, identificado com o mundo. Tudo é Deus, e Deus é tudo;
mas acima, além ou aparte do mundo, não há Deus.
A Imanência de Deus
As Escrituras sustentam a imanência e a
transcendência de Deus apresentando-o como muito próximo de nós, como
sendo tão parecido conosco e mesmo como a criatura, que ele descreve a
Si mesmo em termos deduzidos da existência do homem bem como da
criação em geral. Embora aquele que fez o mundo e todas as coisas
implicadas nisso certamente não resida em templos feitos com as mãos (Atos
17:24), ele "não está longe de cada um de nós: porque nele
vivemos, e nos movemos, e existimos" (vv. 27-28). Diretamente e
além de toda a existência e atividade da criatura existe Deus.
A voz do Senhor ressoa, quebra os cedros do Líbano e
os faz saltar como um bezerro, separa as labaredas do fogo, faz tremer o
deserto, faz parir as cervas, e descobre as brenhas. Ele se assentou
sobre o dilúvio, e dará força ao seu povo (Salmos 29:3, 5-11).
O SENHOR desfaz o conselho dos gentios, quebranta
os intentos dos povos. O conselho do SENHOR permanece para sempre;
os intentos do seu coração de geração em geração.
Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o SENHOR, e o povo ao qual
escolheu para sua herança. O SENHOR olha desde os céus e está
vendo a todos os filhos dos homens. Do lugar da sua habitação
contempla todos os moradores da terra. Ele é que forma o coração
de todos eles, que contempla todas as suas obras. Não há rei que
se salve com a grandeza dum exército, nem o homem valente se livra
pela muita força. O cavalo é falaz para a segurança; não livra
ninguém com a sua grande força. Eis que os olhos do SENHOR estão
sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua misericórdia;
Para lhes livrar as almas da morte, e para os conservar vivos na
fome. (Salmos 33:10-19)
"Nas suas mãos estão as profundezas da terra,
e as alturas dos montes são suas. Seu é o mar, e ele o fez, e as suas
mãos formaram a terra seca" (Salmos 95:4-5). "Os seus
relâmpagos iluminam o mundo; a terra viu e tremeu. Os montes derretem
como cera na presença do SENHOR, na presença do Senhor de toda a
terra" (Salmos 97:4-5). Ele se cobre de luz como de um vestido,
estende os céus como uma cortina, põe nas águas as vigas das suas
câmaras, faz das nuvens o seu carro, anda sobre as asas do vento, faz
sair as fontes nos vales, as quais correm entre os montes para dar de
beber a todo o animal do campo; os jumentos monteses matam a sua sede;
rega os montes desde as suas câmaras, a terra farta-se do fruto das
suas obras, faz crescer a erva, e traz comida para o homem e o gado, o
vinho que alegra o coração do homem, azeite que faz reluzir o seu
rosto, e pão que fortalece o seu coração. Ele ordena a escuridão, e
faz-se noite; todas as criaturas na terra, no mar e no ar esperam dele
que lhes dê o seu sustento em tempo oportuno (Salmos 104:2-3, 10-11,
13-27).
Ele abre a sua mão e farta os desejos de todos os
viventes (Salmos 145:16). Ele faz justiça aos oprimidos, dá pão aos
famintos, solta os encarcerados. Ele abre os olhos aos cegos, levanta os
abatidos, ama os justos, guarda os estrangeiros, sustém o órfão e a
viúva; mas transtorna o caminho dos ímpios (Salmos 146:7-9). Ele cobre
o céu com nuvens, prepara a chuva para a terra, faz produzir erva sobre
os montes, dá o sustento aos animais e aos filhotes dos corvos, quando
estes clamam, dá neve como lã, esparge a geada como cinza, lança o
seu gelo em pedaços; manda a sua palavra e os faz derreter, faz soprar
o vento e correr as águas (Salmos 147:8-9, 16-18). Ele é o que está
assentado sobre o círculo da terra, estende os céus como cortina, e os
desenrola como tenda, para neles habitar, e chama a todas as hostes pelo
nome (Isaías 40:22, 26).
Ele faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e
a chuva desça sobre justos e injustos (Mateus 5:45). Ele alimenta as
aves do céu, e veste a erva do campo com beleza (Mateus 6:26-30).
Nenhum passarinho cai em terra sem a vontade dEle, e os cabelos das
nossas cabeças estão todos contados por ele (Mateus 10:29-30). Mesmo a
sorte que se lança no regaço é determinada pelo Senhor (Provérbios
16:33). O coração do rei é na mão do Senhor como ribeiros de águas:
que o inclina a todo o Seu querer (Provérbios 21:1). Deus é imanente
em todo o mundo; e toda a existência e atividade da criatura se devem a
Sua presença e poder.
Deus está não apenas em todas as coisas, mas há
também uma similaridade entre a criatura e Ele próprio, tal que todas
as virtudes da criatura são remetidas a ele, especialmente as do
homem, criado à imagem de Deus. Nesse sentido ele não é ‘o Outro’
de Barth.
A verdade da imanência de Deus é a base dos
freqüentes antropomorfismos nas Escrituras. Deus refere a si mesmo como
face (Êxodo 33:20, 23); o salmista anseia contemplar a face de Deus na
justiça (Salmos 17:15); o anjo da sua face (presença) os salvou (Isaías
63:9). Freqüentemente as Escrituras falam acerca dos olhos do Senhor (Salmos
11:4; 32:8; 34:15; Provérbios 15:3; Hebreus 4:13) e mesmo das suas
pálpebras (Salmos 11:4). Elas fazem menção à menina dos seus olhos,
dos seus ouvidos, nariz, boca, lábios, pescoço, braços, mão direita
(ou simplesmente mão), dedo, coração, intestino, peito e pé. Diz-se
dele como quem regozija, fica magoado, ofendido, temer a ira do inimigo,
amar e odiar, ser misericordioso e ficar irado, ser ciumento e
arrepender-se, esquecer e vingar-se. Ele se abaixa, menospreza, senta-se
e aguarda, ele trabalha e descansa, ele vem e vai, ele caminha e
encontra o homem, ele ignora e abandona, ele escreve e ratifica, ele
sara e cobre as feridas, ele ri, ele zomba, fala, vê, ouve, inclina seu
ouvido, mata e faz viver. Ele é descrito como um homem de guerra,
pastor, homem forte, rei, legislador, construtor e artífice, sol e
proteção dele, leão, águia, fogo consumidor, fonte de água viva,
rocha, castelo forte, refúgio e abrigo, e mais. Tão grande é essa
similaridade, e tão estreita é essa afinidade, que é possível Deus
assumir carne humana, o infinito unir-se com o finito, o eterno prender-se
ao tempo. "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós (e vimos a
sua glória, como a glória do unigênito do Pai), cheio de graça e de
verdade" (João 1:14).
Todas essas expressões nas Escrituras que remetem a
Deus sentimentos humanos e virtudes das criaturas, e mesmo membros do
corpo humano, não têm em vista sua interpretação literal, nem mesmo
passam essa impressão. Se isso fosse esse o caso, Deus estaria se
rebaixando ao nível da criatura, e a distinção entre ele e o mundo
seria obliterada. Corretamente, a igreja tem sempre considerado essas
expressões humanas como figuras de linguagem, antropomorfismos.
Deus é um espírito de infinitas perfeições. O que
está presente na criatura está sempre infinitamente presente em Deus.
Antropomorfismos não são simples figuras vazias sem base em fatos.
Não se pode admiti-los de forma que a criatura seja o padrão para Deus
ou para o nosso conhecimento dele. Pelo contrário, antropomorfismos
baseiam-se na verdade de que todas as coisas são feitas e sustentadas
pela palavra de Deus de tal forma que são reflexo da Sua natureza e das
Suas virtudes gloriosas, que lhes chamou à existência a partir da Sua
vontade onipotente. Deus é imanente no mundo: está muito próximo
de nós; porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos. Existe
afinidade e similaridade entre Deus e a criação.
A Transcendência de Deus
Se frente à concepção falsa do deísmo a
imanência de Deus deve ser mantida, então não é menos importante
manter sua transcendência em oposição ao panteísmo em todas as suas
vertentes. Não é fácil definir o que se quer dizer por
transcendência quando o termo é usado em relação a Deus. Desde Kant,
os termos transcendente e transcendental têm se submetido
ao emprego filosófico. Transcendência foi aplicado à
especulação acerca do que reside além do escopo do entendimento
humano, e portanto tornou-se sinônimo de incompreensível, ao passo que
transcendental denota aquilo que a priori é relacionado a
todo o conhecimento humano, aquilo que a priori condiciona toda
experiência.
Na teologia, no entanto, transcendência é
usada para denotar a supereminência de Deus sobre a criatura, uma
supereminência que não é relativa, mas absoluta. Assim como a
imanência de Deus significa que ele está no mundo e relacionado a ele,
também a transcendência essencial de Deus significa que em si mesmo
ele é infinitamente exaltado sobre o mundo e que há um abismo
intransponível entre o mundo e Seu ser infinitamente glorioso. Ele é
Deus. Ele é o absoluto. Ele transcende toda a existência e todas as
relações da criatura.
É razoável que tenhamos de falar repetidamente da
transcendência de Deus quando discutimos os nomes e os atributos de
Deus. Nessa conexão, portanto, precisamos nos moderar a uma definição
geral do termo tal como usado aqui. Talvez não seja supérfluo advertir
contra a falsa idéia de transcendência que representa Deus como
estando fora do cosmos, ou do ponto de vista do espaço ou tempo, em
distinção à sua imanência em conformidade com aquilo que ele é
dentro do universo. Segundo tal concepção falsa de transcendência,
simplesmente estendemos infinitamente o universo e damos a Deus um lugar
nesse universo estendido. Aplicado ao espaço, nós então
concebemos Deus como estando parcialmente dentro do espaço limitado do
nosso mundo e parcialmente fora desse espaço, num espaço infinitamente
estendido.
Evidentemente, o erro fundamental dessa
representação da relação entre a imanência de Deus e sua
transcendência é que aplicamos o conceito espaço a Deus. Isso
é impossível. O espaço em si é uma criação. Deus não está
meramente fora do nosso espaço, mas é transcendente com relação à
essência de espaço, o que significa que a idéia de espaço não é
deveras aplicável a Ele. Da mesma forma que não podemos admitir acerca
da imanência de Deus como sendo aquela parte do Seu ser que está
dentro dos limites do universo, não podemos pensar da Sua
transcendência como a extensão infinita da Sua imanência no espaço
infinito. Da mesma forma que a Sua imanência significa que ele está
totalmente, com sua essência infinita, no universo e em
toda parte, relação e momento, Sua transcendência implica que com Sua
essência plena ele está acima do mundo e acima de todos
os seus momentos e relações.
O mesmo é verdade com respeito à relação de Deus
com o universo no tempo. Somos inclinados a conceber o nosso
tempo como sendo apenas uma parte de todo o tempo, isto é, do
tempo estendido infinitamente tanto no passado como no futuro. A
imanência de Deus então significa que Ele está parcialmente no tempo
cósmico, no tempo estendido do alfa de Gênesis 1 ao ômega
do dia de Cristo, ao passo que a sua transcendência então significa
que ele também existe infinitamente no tempo. Mas novamente, precisa
ser notado que o tempo em si é uma criatura, e ele não deve em
qualquer sentido ser aplicado a Deus. Sua imanência não implica que
parte do Seu ser está no tempo, pois Ele é O imutável. Antes,
significa que com o Seu infinito ser, ele está presente em cada momento
do tempo, ao passo que Sua transcendência denota que Ele é
essencialmente exaltado sobre todo o tempo e sobre cada momento do
tempo. Deus é o eterno. Ele é Deus.
É verdade que as Escrituras freqüentemente
descrevem Deus em termos que nos fariam pensar acerca dEle como estando
infinitamente estendido tanto no espaço como no tempo. É dito que Ele
está no céu, como sua residência típica: "Porventura Deus não
está na altura dos céus? Olha para a altura das estrelas; quão
elevadas estão!" (Jó 22:12). O céu, em distinção a terra, é
Seu trono (Isaías 66:1; Mateus 5:34; Atos 7:49). "Mas o nosso Deus
está nos céus; fez tudo o que lhe agradou" (Salmos 115:3). Somos
ensinados a nos dirigir a Deus como "Pai nosso, que estás nos
céus" (Mateus 6:9). Ainda, o céu e o céu dos céus não podem
contê-lo (1 Reis 8:27; II Crônicas 2:6). Às vezes é mesmo deixada a
impressão que Deus está no céu em distinção a terra, onde não
está: "porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra;
assim sejam poucas as tuas palavras" (Eclesiastes 5:2).
De tudo isso nós podemos concluir que Deus está
muito acima de nós, no mais alto dos céus, mas ainda dentro do
universo e do espaço criado, ao passo que a Sua essência igualmente se
estende além dos limites máximos dos céus, num espaço infinito, algo
extra-cósmico. O mesmo é verdade acerca da relação de Deus com o
tempo. Não apenas lemos "Antes que os montes nascessem, ou que tu
formasses a terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, tu és
Deus" (Salmos 90:2), mas freqüentemente é também deixada a
impressão de que Deus muda em e junto da natureza mutável do tempo.
Seu conselho é apresentado como pertencendo a um período anterior à
fundação do mundo. No entanto nós não devemos esquecer que em todas
essas expressões nas Sagradas Escrituras há um elemento
antropomórfico.
Não há linguagem humana que possa expressar
apropriadamente a natureza distintiva de Deus. Nós precisamos falar de
Deus em termos de espaço e de tempo. Mesmo o termo transcendência
é antropomórfico. Mas isso não significa que na teologia nós
possamos definir Sua transcendência de forma tal que espaço e tempo
sejam aplicados a ele. Mesmo o Catecismo de Heidelberg cuidadosamente
evita qualquer noção desse tipo quando, em sua explicação do
destinatário da Oração do Senhor, faz a pergunta "Por que é
adicionado: Quem está no céu?" e dá a resposta "Que
possamos não ter pensamentos terrenos da majestade celestial de Deus, e
não esperemos da Sua onipotência todas as coisas necessárias ao corpo
e à alma."
Nós precisamos, portanto, conceber a transcendência
de Deus como essencial, isto é, como se referindo à
supereminência absoluta e infinita do ser divino com relação a toda a
criação. Isso remete ao todo da essência divina e a todos os seus
atributos, não apenas àquelas virtudes de Deus que são distinguidas
como incomunicáveis.
Especialmente quando falando desses atributos
incomunicáveis do ser divino, a teologia tem em mente a transcendência
de Deus. A Confissão Belga remete a isso: "Todos cremos de
coração, e confessamos com os lábios, que há somente um simples e
espiritual Ser, que chamamos Deus; e que Ele é eterno, incompreensível,
invisível, imutável, infinito, todo-poderoso."
Os atributos incomunicáveis de Deus não podem ser
dissociados dos atributos comunicáveis. Ou diferentemente, as virtudes
ou perfeições incomunicáveis de Deus podem ser assumidos como
atributos também de qualidades comunicáveis. Não há atributos em
Deus que são eternos, incompreensíveis, invisíveis, infinitos e
onipotentes, ao contrário de outros atributos temporais,
compreensíveis, visíveis, finitos e limitados. As virtudes da Sua
mente, vontade e poder são caracterizados pela mesma infinitude e
inteireza das perfeições incomunicáveis.
A transcendência de Deus, então, significa que ele
é absolutamente supereminente em si mesmo e em todas as suas
perfeições, que ele é o absoluto em distinção a toda a existência
relativa, a eternidade e a infinitude em distinção a todo ser limitado,
o ser puro e auto-existente, o imutável em distinção à criatura
sempre mutável, o único ser simples em distinção a toda a variedade
do universo. Embora estando muito próximo de nós em sua imanência,
ele está longe de nós em sua transcendência. Embora estando por um
ato do seu próprio arbítrio numa relação imediata com toda a
criação, ele permanece em si mesmo absoluto. Embora sendo como nós,
ele é "o Outro." Ele é Deus.
A Espiritualidade de Deus
Mais dois outros elementos devem ser considerados em
nossa descrição da essência de Deus: sua personalidade e
espiritualidade. Que Deus é espírito é ensinado mais de uma forma nas
Escrituras. Indiretamente está implicado no segundo mandamento: "Não
farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em
cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da
terra" (Êxodo 20:4; Deuteronômio 5:8), que baseia-se na
invisibilidade e espiritualidade de Deus. É enfatizado aos filhos de
Israel que eles não vejam forma de similitude, a fim de que não
corrompam a si mesmos e mudem a glória do Deus incorruptível em imagem
de criatura corruptível (Deuteronômio 4:12, 15-24; Romanos 1:23). O
Senhor também expressa diretamente essa espiritualidade de Deus nas
palavras bem conhecidas: "Deus é Espírito, e importa que os que o
adoram o adorem em espírito e em verdade" (João 4:24). Em todos
os lugares é enfatizado que Deus é invisível (João 1:18; Romanos
1:20; Colossenses 1:15; I Timóteo 1:17), especialmente onde o apóstolo
fala acerca dEle como "aquele que tem, ele só, a imortalidade, e
habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver,
ao qual seja honra e poder sempiterno" (I Timóteo 6:16).
Essa espiritualidade de Deus precisa ser distinguida
da subsistência pessoal da terceira pessoa de Deus, o Espírito Santo.
Quando dizemos que Deus é espírito, queremos dizer que sua essência
é espiritual. Num sentido negativo, isso significa que Deus não é
material, tal como a criação visível e que, portanto, ele não está
limitado por forma ou extensão. Isso significa também que ele é
absolutamente invisível, e nesse aspecto, mesmo distinguido dos
anjos. Muito embora os anjos sejam invisíveis em relação à nossa
visão terrena e material, não são absolutamente invisíveis.
Num sentido positivo, a espiritualidade de Deus está
proximamente relacionada à sua simplicidade. Que Deus é espírito puro
significa que suas perfeições não subsistem em outra essência pela
qual são sustentadas e na qual residem. Deus é seus atributos.
Conosco isso é completamente diferente. Todos os nossos atributos têm
seu substrato e são limitados pela natureza físico-espiritual da qual
somos feitos. Mesmo acerca dos anjos, embora Deus os tenha feito
espíritos, isso é verdade. Eles representam uma natureza espiritual
criada, e todas as suas virtudes e capacidades estão enraizadas nessa
essência criada. Mas Deus é puro e absolutamente espiritual. Ele é
luz, amor e vida. Ele é sabedoria, conhecimento e entendimento.
Ele é justiça, retidão e santidade. Ele é graça,
misericórdia e verdade. Ele é poder absoluto e energia pura.
"Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em
espírito e em verdade" (João 4:24).
A Personalidade de Deus
A fim de não cairmos no erro do panteísmo,
precisamos imediatamente adicionar que Deus é um espírito pessoal.
Ele não é uma essência vaga, inconsciente, que eleva-se à
consciência na criatura, mas é em si mesmo uma existência pessoal, ou
ainda – para que não pensemos dele como uma entre outras pessoas –
ele é uma personalidade auto-existente, absoluta. Em todo lugar nas
Escrituras ele nos encontra como o Ego (EU SOU) em quem a
consciência e a autoconsciência são absolutamente idênticas e uma
só.
Essa subsistência pessoal de Deus assume a forma da
subsistência da tripla personalidade da Trindade Santa, da qual
precisamos falar posteriormente. No entanto precisa ser imediatamente
dito que essa existência triúna em Deus é nunca tal que frente a Sua
criatura ele apresenta-se como três, ou que ele sempre remete a nós
como um sujeito plural. Dentro de si mesmo ele pode falar no plural,
como em Gênesis 1:26: "E disse Deus: Façamos o homem à nossa
imagem, conforme a nossa semelhança". A nós Ele se revela e fala
como o absoluto Ego (EU SOU). Do Pai, mediante o Filho, e no
Espírito, ele nos confronta em sua revelação como o espírito puro
que é o único Senhor do céu e da terra, o bem-aventurado, e único
poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores (I Timóteo 6:15).
A isso podemos adicionar que a essência de Deus é
perfeição pura, absoluta bondade, e a implicação de todas as
perfeições e virtudes possíveis. Jesus inquiriu do jovem legalista,
"Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é
Deus" (Mateus 19:17). "E esta é a mensagem que dele ouvimos,
e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhuma"
(I João 1:5). Isso implica que ele é si mesmo bondade plena e que ele
é o único critério, bem como a fonte de toda a bondade na criatura.
Nunca é verdade que exista um padrão de bondade e
perfeição, de verdade, retidão e santidade, a partir da nossa
perspectiva ou mesmo acima de Deus, e que Ele é chamado de bom porque
se conforma a esse padrão. A bondade de Deus é absoluta. Ele não é
nem mesmo o bem supremo, a mais alta bondade. Ele é o bom, a
bondade absoluta; em sua própria essência ele é o único padrão ou
critério para toda a bondade. Portanto, Deus que é Deus, em
distinção a todas as criaturas, é O Santo. Precisamente porque ele é
Deus, ele é auto-centrado assim como é absolutamente auto-suficiente.
Como o único bom, a implicação de todas as
perfeições, Ele procura e encontra a si mesmo; ele ama a si mesmo e
busca a sua própria glória. Ele fez todas as coisas por amor do seu
próprio nome, mesmo o ímpio para o dia do mal. Deus é o único,
simples, absoluto, puramente espiritual, ser pessoal de infinitas
perfeições, todo-imanente em todo o mundo, não obstante
essencialmente transcendente em relação a todas as coisas.
Fonte: Reformed Dogmatics, Herman
Hoeksema, Reformed Free Publishing Association, vol. 1, pp. 63-88.
(Para
material adicional de Herman Hoeksema's Reformed Dogmatics em
Português, por favor, clique aqui.)