O Aprisionamento de Satanás
Rev. Herman Hoeksema
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1
João escreve que ele "vi[u] descer do céu um
anjo; tinha na mão a chave do abismo e uma grande corrente. Ele segurou o
dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o prendeu por mil
anos; lançou-o no abismo, fechou-o e pôs selo sobre ele, para que não
mais enganasse as nações até se completarem os mil anos. Depois disto,
é necessário que ele seja solto pouco tempo."
É muito evidente que nessas palavras o Vidente de
Patmos descreve não o que ele viu acontecendo historicamente, mas o que
ele contemplou numa visão. Uma interpretação estritamente literal do
texto, portanto, não está em harmonia com a natureza da passagem. Nem
ela é possível. Ninguém pensa na possibilidade de uma interpretação
literal quando em Apocalipse 13:1 o profeta nos diz que "vi emergir
do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres,
dez diademas e, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia". É entendido
sem dúvida que tudo isso foi visto por João numa visão. E o mesmo é
verdadeiro da passagem inteira do livro de Apocalipse que estamos
discutindo. Não é uma contradição, mas uma interpretação correta da
Escritura quando dizemos que João não viu realmente um anjo
descer com uma grande corrente e a chave do abismo em sua mão, e que ele
não viu realmente que o diabo foi preso e lançado no abismo, mas
que ele viu tudo isso como representado a ele numa visão.
Nem deve uma visão ser interpretada como se fosse uma
mera predição direta dos eventos como realmente acontecerão. Não seria
interpretar, mas fazer violência à Escritura e também a essa passagem
particular da Escritura se parafraseássemos esses versículos da seguinte
forma: "Então um anjo descerá do céu com a chave do abismo e uma
grande corrente em sua mão. E ele segurará o dragão, a antiga serpente,
que é o Diabo, e Satanás, e o prenderá por mil anos". Tal
paráfrase do texto desrespeita completamente o fato que a passagem fala
de uma visão. A questão é: qual é a idéia central da visão? Que fato
João aqui contempla como sendo realizado diante dos seus olhos? E a
resposta a essa questão é prontamente dada: que o diabo é preso por um
decreto divino, de forma que seja impedido de realizar o seu propósito. O
anjo desce da parte de Deus para executar esse decreto, a chave do abismo,
a grande corrente, o lançar e o selar, tudo isso pode ser considerado
como pertencendo à forma da visão somente. Mas todas elas servem para
enfatizar o fato que Satanás é preso pelo decreto divino certa e
eficazmente, de forma que durante o período do seu confinamento não
poderá realizar os seus propósitos maus.
Devemos entender também, para uma interpretação
correta dessa parte amplamente discutida do livro de Apocalipse, que é
extremamente importante que a concebamos em sua verdadeira luz, isto é,
meramente como outra figura apocalíptica de alguma fase do "dia do
Senhor". Qualquer tentativa de colocar nessa profecia o elemento
tempo e interpretá-la como se os eventos aqui preditos seguissem no tempo
após aqueles mencionados no capítulo 19:11-21 falhará. Em 19:17, ss.,
temos a figura da destruição de todas as nações. Todavia, aqui ainda
nos deparamos com aquelas próprias nações que vivem nos quatro cantos
da terra. Isso pode ser entendido somente se tomarmos a posição de que
em Apocalipse 20:1-10 um novo aspecto do mesmo "dia do Senhor",
outras fases do qual foram representadas antes, é apresentado aqui. Essa
visão particular apresenta para nós o aspecto do julgamento sobre Gogue
e Magogue, juntamente com a explicação do fato que essas nações
aparecem na última cena, e na do julgamento final do dragão, o diabo.
Por conseguinte, não precisamos ler como se João tivesse escrito,
"E após isso o diabo será preso por mil anos, etc.", como
todos os pré-milenistas precisam fazer. Mas devemos deixar o texto como
ele se apresenta: "E vi descer do céu um anjo, etc." O anjo
"tinha na mão a chave do abismo e uma grande corrente".
Evidentemente, João contempla o anjo numa forma humana e física. Para
"a chave do abismo", confira o comentário sobre o capítulo 9,
versículo 1. O abismo é a própria habitação temporária do diabo e
seus anjos (cf. 2 Pedro 2:4). A chave e a corrente não precisam ser
alegorizadas. Na figura elas são apenas isso, e nada mais. Elas
representam o poder do anjo para abrir e fechar o abismo e prender
Satanás.
Antes de prosseguirmos, devemos não somente fazer a
pergunta, mas também respondê-la definitivamente: esse aprisionamento de
Satanás, esse confinamento certo do diabo, deve ser considerado como
absoluto e completo, de forma que ele está restringido em toda a sua
atividade, ou como relativo e em parte, de forma que a restrição posta
sobre ele o limita em partes, somente numa certa direção, e o condena a
uma inatividade somente parcial?
Essa pergunta é respondida no texto. E a resposta do
texto, sem dúvida, é que a restrição é parcial e numa certa esfera de
ação. O propósito do aprisionamento de Satanás é mencionado no
versículo 3 como sendo "para que não mais enganasse as nações".
E no versículo 8 somos informados ainda mais definitivamente que quando
ele for solto por um pouco de tempo, ele "sairá a seduzir as
nações que há nos quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, a fim de
reuni-las para a peleja. O número dessas é como a areia do mar." Se
tomarmos essas duas passagens em conexão uma com a outra, pode ser
considerado como estabelecido, em primeiro lugar, que o aprisionamento de
Satanás é limitado a certas nações que são chamadas Gogue e Magogue;
e, em segundo lugar, que seu confinamento o impede de enganar aquelas
nações; e, em terceiro lugar, que o engano que ele é impedido de
realizar, por causa do seu aprisionamento ou a restrição posta sobre ele,
é o que de outra forma faria essas nações se reunirem para lutar contra
o acampamento dos santos e a cidade amada.
De Gogue e Magogue lemos em Ezequiel 38:2, ss., e
Ezequiel 39:1-16. Ali Gogue é o príncipe de Rôs, de Meseque e Tubal, da
terra de Magogue. Eles constituem uma grande multidão que desce do norte
de Israel, até do limite do horizonte, para fazer um ataque final sobre o
povo de Deus. Mas granito, fogo e enxofre do céu causam sua completa
destruição. Na passagem de Apocalipse que estamos agora discutindo,
essas mesmas multidões são simplesmente chamadas de Gogue e Magogue; e
agora elas são descritas como vivendo nos quatro cantos da terra e
chegando ao acampamento dos santos de toda direção. Israel aqui é
tomado, em harmonia com toda a Escritura, no sentido neotestamentário da
palavra. A visão do Israel restaurado do qual Ezequiel 38 e 39 falam foi
realizada na igreja da nova dispensação. Ela é "o acampamento do
santos", e é "a cidade amada", isto é, o Cristianismo em
seu sentido mais amplo, da forma como ele existe e se desenvolve na nova
dispensação e corresponde à nação de Israel no Antigo Testamento. Ela
é representada no texto como estando situada no centro da terra. Ao redor
dela, nos quatro cantos da terra, isto é, fora do centro da história,
estão as nações que permanecem pagãs. Embora os eleitos dessas
nações também sejam reunidos na igreja, como nações elas permanecem
distintamente pagãs. Gogue e Magogue, portanto, são nações pagãs em
distinção da Cristandade nominal.
Podemos observar aqui que o dragão, o diabo, a quem o
anjo segura, é descrito em todos os seus poderes malignos. Ele representa
o príncipe deste mundo, o poder espiritual por detrás de todas as
forças anticristãs de oposição a Cristo e sua igreja (cf. capítulo
12:3,4). Além do mais, ele é descrito aqui em todos os seus propósitos
maus e poder de enganar. Ele é a antiga serpente, referindo-se,
certamente, à tentação no paraíso. Ele é chamado o diabo, isto é, o
mentiroso e enganador, o difamador e acusador dos irmãos. E ele é
descrito, ou nomeado, como Satanás, o oponente, o adversário de Cristo e
da causa de Deus no mundo. Na visão o anjo domina o diabo e o prende com
a corrente, lança-o no abismo, fecha o abismo e põe um selo sobre ele,
isto é, sela o abismo contra toda violação.
O diabo, portanto, está preso com muita segurança. E
ele está preso com respeito a essas nações pagãs, como aquelas na
passagem que estivemos agora discutindo. A passagem ensina, portanto, que
o diabo está preso de uma forma que não possa fazer com que as nações
de Gogue e Magogue pelejem contra a igreja, a cidade amada, ou, se você
preferir, contra as nações cristãs. Ele pode fazer muitas coisas nesse
período de restrição, tanto entre as nações nominalmente cristãs
como entre os povos que são chamados de Gogue e Magogue. Ele pode andar
em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar, como na
verdade o faz. Mas ele é impedido de enganar aquelas nações a fim de
reuni-las para a peleja.
Fonte (original): Behold, He Cometh!, Herman
Hoeksema, Reformed Free Publishing Association, p. 640-643.
1E-mail para contato: felipe@monergismo.com.
Traduzido em Setembro/2006.
(Para material
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