A Controvérsia Clark-Van Til
Herman Hoeksema
Nota do editor:
Em 1943, o Dr. Gordon H.
Clark, que se tornou o maior filósofo cristão do século vinte, buscou
a ordenação na Igreja Presbiteriana Ortodoxa (OPC – Orthodox
Presbyterian Church), uma pequena denominação com quase sete anos de
existência.
O Dr. Clark recebeu oposição imediata da faculdade
do Seminário Teológico de Westminster, liderada pelo Professor
Cornelius Van Til. A despeito da zelosa oposição deles, o Dr. Clark
foi ordenado pela OPC.
Mas a controvérsia tinha apenas começado. Em 1944 a
faculdade do Seminário de Westminster tentou remover o Dr. Clark do
ofício, não lançando acusações contra ele, mas argumentado que o
procedimento que a OPC usou para ordená-lo foi irregular. Eles estavam
lutando, não meramente para impedir que o Dr. Clark ganhasse
influência na denominação, mas para reter o controle deles do
Seminário também.
A controvérsia que se seguiu levantou alguns dos
assuntos doutrinários mais importantes, assuntos que ainda permanecem
ressoando por todas as igrejas Americanas: O que significa dizer que
Deus é "incompreensível"? Deus é emotivo? A Escritura é
uma revelação proposicional? O homem pode conhecer a mesma verdade que
Deus conhece? O que é fundamental: a mente do homem ou as suas
emoções? Se Deus é onipotente e soberano, como o homem pode ser
considerado como responsável por suas ações?
Herman Hoeksema, fundador das Igrejas Protestantes
Reformadas, entendeu o significado da controvérsia e escreveu uma
série de editoriais incisivos na revista daquela denominação, "
The
Standard Bearer". Ele argumentou que o irracionalismo da
faculdade de Westminster disfarçou suas doutrinas arminianas, as quais
eles insistiram ser "verdadeiramente Reformadas". Esse livro
é uma coletânea desses editoriais.
1. Introdução: O Texto de uma Reclamação
O exposto acima é o título de um longo protesto
impresso por alguns membros da Igreja Ortodoxa Presbiteriana
"contra ações do Presbitério da Filadélfia na questão da
licenciatura e ordenação do Dr. Gordon H. Clark".
Eu tinha lido sobre a controvérsia envolvida no The
Presbyterian Guardian [O Guardião Presbiteriano], mas eu não
tinha visto o texto completo desse protesto. Um amigo foi muito gentil
ao me enviar o mesmo, pelo que lhe ofereço meus sinceros agradecimentos.
Parece que em 7 de Julho de 1944, deu-se uma reunião
especial do Presbitério da Filadélfia, com o propósito de examinar um
certo Dr. Gordon H. Clark com o objetivo de sua licenciatura e
ordenação ao ministério. Contra o fato de que essa reunião foi
convocada, bem como contra seus procedentes e decisões, o protesto ou
"Reclamação" é direcionado. Ele foi assinado por doze
pessoas, entre as quais estão os nomes de alguns bem conhecidos entre
nós: R. B. Kuiper, C. Van Til, e N. B. Stonehouse. A primeira parte da Reclamação
diz respeito à convocação dessa reunião especial. Os protestantes
mantém que a reunião foi convocada ilegalmente, e concluem essa parte
do seu protesto com o "pedido de que a reunião do Presbitério da
Filadélfia em 7 de Julho de 1944 foi considerada como ilegalmente
reunida e que seus atos e decisões e os atos e decisões decididos a
partir dela devem ser declarados como nulos e anulados" (2).
O resto do protesto, seu corpo principal, é dividido
em quatro partes, conforme ela descobre quatro erros sérios nas
concepções teológicas do Dr. Clark—erros que se tornaram
manifestos, de acordo com os reclamantes, na examinação do Dr. Clark
pelo Presbitério, e, a despeito do fato supracitado, o Presbitério
decidiu licenciá-lo e proceder em sua ordenação.
A primeira parte trata com as alegadas visões
errôneas do Dr. Clark com respeito à incompreensibilidade e
cognoscibilidade de Deus (2-6).
A segunda parte diz respeito às "visões [do
Dr. Clark] da relação da faculdade do conhecimento, a faculdade
intelectual, com outras faculdades da alma" (6-10).
A terceira parte acusa o Dr. Clark de manter "que
a relação da soberania divina e a responsabilidade humana entre si
não apresenta nenhuma dificuldade para o seu pensamento e que as duas
são facilmente reconciliáveis diante do tribunal da razão humana"
(10-13).
A quarta parte é uma elaboração sobre a
declaração de que "no curso da examinação do Dr. Clark, tornou-se
abundantemente claro que seu racionalismo o impede de fazer justiça ao
ensino preciso da Escritura de que no Evangelho Deus oferece
sinceramente salvação em Cristo a todos os que ouvem, réprobos bem
como eleitos, e que ele não tem prazer em que alguém rejeite essa
oferta, mas pelo contrário, deseja que todos aceitem-na e sejam salvos
(13-15).
Especialmente em vista do último erro alegado do Dr.
Clark, o leitor pode facilmente entender que estamos especialmente
interessados nessa controvérsia, e que não podemos nos refrear de
fazer umas poucas considerações sobre essa Reclamação ...
7. Racionalismo
A terceira acusação que os reclamantes trazem
contra o Dr. Clark é realmente dupla: De acordo com eles, ele é um
racionalista e um antinomiano.
A acusação de racionalismo é baseada sobre a
alegação de que o Dr. Clark tenta resolver problemas, paradoxos e
contradições, particularmente o problema da relação entre a
soberania divina e a responsabilidade humana. Qualquer um que fizer uma
tentativa de solucionar esse problema, que tentar harmonizar essas duas
doutrinas, que reivindicar que essa solução é possível — e
especialmente que está pronto para oferecer sua solução a esse
problema — é, de acordo com os reclamantes, um racionalista. Citamos
a partir da Reclamação:
O Dr. Clark afirma que a relação da soberania
divina e a responsabilidade humana entre si não apresenta nenhuma
dificuldade para o seu pensamento e que as duas são facilmente
reconciliáveis diante do tribunal da razão humana. Ele expressa
surpresa que tantos teólogos encontrem uma dificuldade insuperável
aqui [10].
Os reclamantes então fazem diversas citações a
partir de escritores reformados para mostrar que, por teólogos de boa
credibilidade, o problema tem sido sempre considerado como insolúvel.
Ele apresenta uma aparente contradição que não somos capazes de
harmonizar. Ambas [as verdades] devem ser confessadas — que Deus é
absolutamente soberano e que o homem é responsável. Mas como elas
devem ser harmonizadas está além do entendimento da mente humana.
Assim, eles citam Berkhof, Calvino, Vos, A. A. Hodge e Abraham Kuyper. E
então os reclamantes continuam:
Aqui está então uma situação que é
inadequadamente descrita como impressionante. Há um problema que
tem desnorteado os maiores teólogos na história. Nem mesmo a
Sagrada Escritura oferece uma solução. Mas o Dr. Clark afirma
desavergonhadamente que para o seu pensamento o problema cessou de
ser um problema. Aqui está algo fenomenal. Quais são as
satisfações dadas para isso? A mais caridosa, e sem dúvida a
correta, explicação é que o Dr. Clark encontra-se sob o encanto
do racionalismo. É difícil, de fato, escapar da conclusão que,
por sua recusa em permitir que o ensino escrirutístico da soberania
divina e o ensino escriturístico da responsabilidade humana
permaneçam lado a lado, e por sua reivindicação de que ele tem
reconciliado-os plenamente entre si diante do tribunal da razão
humana, o Dr. Clark caiu no erro do racionalismo. Sem dúvida, ele
não é um racionalista no sentido dele substituir a revelação
divina pelo raciocínio humano. Mas, para não mencionar a sua
descoberta da solução para o problema da relação entre si da
soberania divina e da responsabilidade humana no ensino de
filósofos pagãos que eram totalmente ignorantes do ensino da
Sagrada Escritura sobre qualquer um desses assuntos, é claro que o
Dr. Clark considera a Escritura a partir do ponto de vista de um
sistema no qual ela deve ser harmoniosa para a mente do homem em
todas as suas partes. O resultado inevitável é o racionalismo na
interpretação da Escritura. E isso também é racionalismo. Embora
o Dr. Clark não reivindique possuir no presente momento a solução
para todo paradoxo espiritual, todavia, seu racionalismo deixa
espaço para apenas uma sujeição temporária da razão humana à
Palavra divina... [12].
O que diremos sobre essa acusação de racionalismo?
Em primeiro lugar, podemos notar que ela é uma acusação antiga. Não
há nada original nas descobertas dos reclamantes. Eles usam a linguagem
dos líderes da Igreja Cristã Reformada desde aproximadamente
1922-1924. Desses, eles, sem dúvida, aprenderam a usar a linguagem
teológica deles. Pessoalmente, estamos muito familiarizados com a
acusação que eles estão agora trazendo contra o Dr. Clark.
Mas o que dizer da acusação em si?
Os reclamantes falam de uma "situação que é
inadequadamente descrita como impressionante", e de "algo
fenomenal". Devo confessar que essas palavras expressam exatamente
o meu sentido quando leio essa parte da Reclamação. Há aqui,
de fato, algo que é mais do que impressionante, que é realmente
inacreditável, que pode ser talvez quase catalogado como outro paradoxo:
o fenômeno de que os teólogos acusam um irmão teólogo de heresia
porque ele tenta resolver problemas!
Pois, note bem, é exatamente isso que esses
reclamantes fazem nessa parte da Reclamação. Eles simplesmente
o acusam de tentar encontrar uma solução, de reivindicar ter
encontrado uma solução. Quer o Dr. Clark tenha realmente sido bem
sucedido ou não na descoberta de uma solução para o problema da
soberania de Deus em relação à responsabilidade do homem, não está
em questão de forma alguma. Se sua solução está correta ou errada
não tem nada a ver com essa parte da Reclamação. O mero fato
de que o Dr. Clark tenta harmonizar coisas o torna um herege, um
racionalista. Outros teólogos têm sempre reivindicado que o problema
não é capaz de solução; os próprios reclamantes insistem que no
problema da soberania de Deus e a responsabilidade do homem enfrentamos
um paradoxo, uma contradição até onde podemos ver: Isso deveria ser
suficiente para advertir o Dr. Clark contra a tentativa de procurar uma
solução. Que ele, contudo, fez tal tentativa, mostra que ele é um
herege, um racionalista.
Isso, me parece, é todo o argumento dos reclamantes.
E isso é algo que, para minha mente, a palavra impressionante é
inadequada para descrever. Mas o que dizer sobre a acusação de
racionalismo? É realmente racionalismo fazer a tentativa de trazer a
Escritura em harmonia consigo mesma? Os reclamantes mantém que sim:
O Dr. Clark considera a Escritura a partir do
ponto de vista de um sistema no qual ela deve ser harmoniosa para a
mente do homem em todas as suas partes. O resultado inevitável é
racionalismo na interpretação da Escritura. E isso também é
racionalismo.
A linguagem dos reclamantes é de certa forma
ambígua aqui, quer a ambigüidade seja intencional ou acidental. As
palavras podem transmitir a impressão de que o Dr. Clark começa com um
sistema de pensamento, não derivado das Escrituras, e que agora ele
procede para explicar a Escritura de uma forma que suporte esse sistema
filosófico pré-concebido. E isso seria, de fato, racionalismo. A
Escritura então seria distorcida para se ajustar ao sistema do Dr.
Clark. Mas os reclamantes não o acusam abertamente disso. As palavras
podem significar também que, de acordo com a visão do Dr. Clark, há
na revelação da própria Palavra de Deus um sistema de verdade
harmonioso, o qual, por exegese cuidadosa, comparando Escritura com
Escritura, o teólogo tenta desenvolver e formular. E isso parece ser a
verdade. No mínimo, A Resposta tenta interpretar a tentativa
do Dr. Clark de harmonizar a soberania divina e a responsabilidade
humana dessa forma. Citamos: "É pertinente observar que o Dr.
Clark, ao invés de se aproximar desses problemas sobre uma base
racionalista, alcança sua conclusão a partir de uma exegese da
Escritura" (37). E novamente:
Depois, a tentativa de encontrar por um estudo
mais profundo da Escritura a solução de paradoxos—um uso de
exegese que os reclamantes chamam de racionalismo—é, aos olhos
dos reclamantes, incompatível com a sujeição da razão humana à
Palavra divina... Em outras palavras, um homem que tenta entender o
que Deus lhe revelou não pode ser submisso à revelação, e quanto
mais ele entenda, menos ele é submisso; provavelmente quanto menos
ele entenda, mais submisso ele é; de forma que o homem realmente
obediente e devoto deve ser completamente ignorante. Por qual
direito os reclamantes implicam que a tentativa de entender a
Escritura é inconsistente com a crença na Escritura? [37].
Podemos entender, portanto, que a tentativa de
harmonizar a Escritura com ela mesma, segundo os reclamantes, é
estigmatizada como racionalismo.
Isso nós negamos absolutamente.
Que os reclamantes provem a alegação deles. Eles
não fazem isso. Eles nem mesmo fazem uma tentativa de provar essa
acusação de racionalismo. A Resposta reduz a alegação dos
reclamantes, de certa forma ironicamente, ao absurdo, mostrando que no
final das contas ela leva à conclusão de que "o homem realmente
obediente e devoto deve ser completamente ignorante".
Mas se a alegação dos reclamantes é verdadeira,
segue-se certamente que toda teologia, e especialmente toda dogmática,
é racionalista, pois ela procede a partir da suposição que a verdade
revelada na Bíblia pode ser formulada num sistema lógico.
Nenhum teólogo jamais procedeu a partir da
suposição dos reclamantes. Dogmática é um sistema de verdade
extraído a partir da Escritura. E a exegese sempre aplica a regra da regula
Scripturae, que significa que durante toda a Bíblia corre uma
linha consistente de pensamento à luz da qual as passagens mais
obscuras e difíceis devem ser interpretadas. Os reclamantes negam
virtualmente isso, pelo menos, e que, também, antes do que
arbitrariamente, com relação ao problema da soberania de Deus e
responsabilidade do homem.
Quem não sabe que teólogos reformados sempre têm
interpretado aquelas passagens da Escritura—que à primeira vista
parecem estar em favor da visão arminiana—à luz do ensino corrente
da Sagrada Escritura de que a salvação é do Senhor, que a graça é
soberana, que a expiação é particular, e que o homem não é livre
para fazer o bem? De acordo com a alegação dos reclamantes, isso é
racionalismo.
Os reclamantes simplesmente percorrem um recente
passatempo Cristão Reformado.
Quanto às "contradições", mantenho que
não há tais coisas na revelação de Deus na Escritura, pela simples
razão de que a Escritura nos ensina por toda a parte que Deus é Um, e
que ele não pode negar a si mesmo. Sua revelação, também, é uma, e
ela não se contradiz.
Não, os reclamantes diriam, não há contradições reais,
mas há, contudo, contradições aparentes na Bíblia, e devemos
deixá-las severamente sozinhas, sem nem mesmo fazer uma tentativa de
solução. Devemos simples e humildemente aceitá-las.
Eu nego de maneira muito positiva tudo isso.
Por contradições aparentes os reclamantes
querem dizer proposições ou verdades que para a mente humana, e de
acordo com a lógica humana, são contraditórias. Eu nego que haja tais
proposições na Bíblia. Se houvesse, elas não poderiam ser o objeto
de nossa fé. É absurdo dizer que devemos crer humildemente no que é
contraditório. Isso é simplesmente impossível. Os próprios
reclamantes não podem crer em contradições. Contradições são
proposições que se excluem mutuamente, de forma que uma nega a verdade
da outra. Os princípios das contradições são: 1. Que uma coisa não
pode ao mesmo tempo ser e não ser. 2. Que uma coisa deve ser ou não
ser. 3. Que a mesma propriedade não pode ser afirmada e negada ao mesmo
tempo do mesmo sujeito. A é A. A é Não-A. Tudo é A ou Não-A.
Eu desafio qualquer um a apontar que há
proposições na Bíblia que violem esses princípios fundamentais da
lógica. Eu desafio qualquer um a provar que é possível para o crente
aceitar tais contradições, ou que é humildade cristã reivindicar tal
fé. Talvez possa ser digno o esforço de aplicar essas declarações ao
problema da soberania de Deus e da responsabilidade do homem. Mas isso
deve esperar até o próximo assunto.
8. Soberania e Responsabilidade
A questão não é se há uma contradição real ou
aparente envolvida na verdade da soberania de Deus e a responsabilidade
do homem.
Coloquemos ambas as verdades na forma proposicional:
1. Deus é absolutamente soberano, de forma que ele
determina até mesmo os atos morais do homem, tanto bons como maus.
2. O homem é responsável diante de Deus por todos
os seus atos morais.
Agora, a questão não é se há um problema aqui.
Pode muito bem ser que não possamos responder a pergunta de como Deus
é capaz de determina os feitos do homem sem destruir a responsabilidade
do homem. Que ele é capaz de assim o fazer é claramente afirmado pelas
duas proposições acima. Mas quer possamos entender ou não, essa
operação do Deus soberano sobre o homem não está em questão. A
única questão é se as duas proposições concernentes à soberania de
Deus e à responsabilidade do homem são contraditórias. Isso negamos.
De fato, elas não podem possivelmente ser, pela simples razão de que
elas afirmam algo sobre dois sujeitos completamente diferentes.
Elas seriam contraditórias se a primeira
proposição negasse o que é afirmado na segunda. Mas isso não é
verdade. A primeira proposição afirma algo sobre Deus: Ele é
absolutamente soberano e determina os atos dos homens. A segunda
proposição predica algo sobre o homem: Ele é responsável por seus
atos morais. A primeira proposição nega que o homem seja responsável?
Se sim, você tem uma contradição aqui. Mas ela não nega. Aqueles que
descobrem uma contradição aqui—geralmente os inimigos da verdade da
soberania de Deus—tomam como certo que afirmar que Deus é soberano,
mesmo sobre os atos do homem, é o mesmo que dizer que o homem não é
responsável. Deve ser apontado, contudo, que isso não é nem expresso
nem implicado na primeira proposição. Em nenhuma das duas
proposições a responsabilidade é afirmada e negada ao mesmo tempo com
relação ao homem.
As duas proposições, certamente, também seriam
contraditórias se a segunda negasse o que é afirmado na primeira.
Nesse caso, a soberania mesmo sobre os atos do homem seria tanto
afirmada quanto negada a Deus. Mas isso também não é nem expresso nem
implicado nas duas proposições, a menos que possa ser mostrado
conclusivamente que dizer que o homem é responsável é o mesmo que
declarar que Deus não é soberano sobre seus atos morais. E isso nunca
foi demonstrado, nem é auto-evidente.
Se elas fossem realmente contraditórias, ambas não
poderiam ser os objetos da fé cristã. Poderíamos apenas concluir que
uma ou outra não seria verdadeira.
Agora, contudo, visto que elas não envolvem nenhuma
contradição, e visto que ambas são claramente reveladas na Escritura,
aceitamos ambas, quer possamos ou não combiná-las num único conceito.
E a tentativa de assim o fazer, de resolver o problema, deve ser
considerada louvável... Enquanto a tentativa da parte do Dr. Clark para
resolver esse problema é rotulada como racionalismo, a solução
que ele oferece é caracterizada como antinomianismo. Citamos a
partir da Reclamação:
A história da doutrina nos diz que a visão sob
discussão está longe de ser inocente. A asserção de que a
soberania divina e a responsabilidade humana são logicamente
reconciliáveis tem sido sustentada por duas escolas de pensamento,
ambas reivindicando serem Reformadas, mas nenhuma delas foi
reconhecida como Reformada pelas igrejas Reformadas. Uma dessas
escolhas é o Arminianismo. Ele pretende sustentar a soberania
divina e a responsabilidade humana, especialmente a última, mas em
sua tentativa racionalista de harmonizar as duas, ele faz grande
violência à primeira. A outra escolha é o Antinomismo. Ele
pretende sustentar tanto a soberania divina como a responsabilidade
humana, especialmente a primeira, mas em sua tentativa racionalista
de harmonizar as duas, ele faz grande violência à última... Aqui
a atenção deve ser chamada para o seu [de Clark] tratamento da
responsabilidade humana no artigo "Determinismo e
Responsabilidade."1 Os teólogos reformados
geralmente são excessivamente prudentes quando discutem a relação
do decreto divino e a providência divina para com o pecado do homem.
Há uma razão excelente para o cuidado deles. Eles são zelosos em
manter a santidade de Deus bem como sua soberania, não em
detratação, como os antiomianos, da responsabilidade humana. Mas o
Dr. Clark diz ousadamente: "A visão aqui proposta faz de Deus
o Autor do pecado? Por que os teólogos eruditos que formularam os
vários credos permitem de uma maneira tão uniforme que tal
expressão metafórica obscureça o assunto é surpreendente. Essa
visão certamente faz de Deus a Causa Primeira e Última de todas as
coisas. Mas uma leve reflexão sobre a definição de
responsabilidade e sua implicação de uma autoridade superior,
mostra que Deus não é responsável pelo pecado" (22). É
significativo que o Dr. Clark não é cuidadoso em dizer, como
tantos teólogos reformados o são, que Deus não é a causa
eficiente do pecado (e.g., Berkhof, Systematic Theology, p.
108) [12].
E no final dessa parte da Reclamação, os
reclamantes concluem que o racionalismo do Dr. Clark resultou em seu
abandono da doutrina Reformada histórica da responsabilidade humana. Em
sua tentativa de reconciliar pela razão humana a soberania divina e a
responsabilidade humana, ele fez violência decidida à última [13]. O
Dr. Clark, portanto, é um racionalista antinomiano, de acordo com os
reclamantes. Sua recusa em aceitar contradições o torna um
"unilateral".
Não há nada original nessa acusação.
Tem se tornado muito habitual nos anos recentes—especialmente
desde que o Sínodo Cristão Reformado de 1924—explicar todas as
formas de heresias como tentativas racionalistas de solucionar
contradições, resultando em unilateralidade. Isso torna muito fácil
classificar alguém que procuramos expor como um herege! Você pode
selecionar quase qualquer classificação que desejar. Assim, e.g.,
o abaixo assinado tem sido rotulado de um anabatista, um antinomiano, um
arminiano, um barthiano, etc.
Os reclamantes adotam a mesma política.
O Arminianismo, dizem eles, é o resultado de uma
tentativa racionalista de reconciliar a soberania de Deus e a
responsabilidade humana. Assim o é também o Antinomianismo. Ambos se
tornam unilaterais em sua tentativa. Assim, o Dr. Clark tenta solucionar
o mesmo problema com o mesmo resultado da unilateralidade para o lado
antinomiano. Por conseguinte, ele é um antinomiano.
Mas isso tudo é verdade? Ou é meramente uma
tentativa—uma tentativa puramente racionalista também—da parte dos
reclamantes de encontrar um nome herético para o Dr. Clark? O
Arminianismo é realmente o resultado de uma tentativa de "sustentar
tanto a soberania divina como a responsabilidade humana," como os
reclamantes reivindicam? Ele não é desde o começo a própria
tentativa de negar e desprovar a doutrina da predestinação absoluta e
da soberania de Deus com relação à liberdade do homem? E o
Antinomianismo deve ser explicado como uma tentativa de solucionar o
problema da soberania de Deus e a responsabilidade humana? Qualquer
pessoa que está de alguma forma ciente dos fatos, sabe mais do que isso.
Ele [o Antinomianismo] está preocupado com a relação da
justificação e as boas obras e rejeita a lei moral como obrigação
para os cristãos. É verdade que muitos deles também foram fortes em
sua ênfase sobre a predestinação, mas essa ênfase era especialmente
aplicada à visão deles da justificação do eleito. Mas o
Antinomianismo não pode ser chamado de uma tentativa racionalista de
harmonizar a soberania divina e a responsabilidade humana. E o que quer
que deva ser pensado da tentativa do Dr. Clark de solucionar esse
problema, ela não pode ser chamada de antinomiana.
Além disso, a acusação de que o Dr. Clark faz
violência ou nega a responsabilidade do homem por causa de sua ênfase
unilateral na soberania de Deus é uma conclusão que os reclamantes
traçaram a partir de algumas de suas declarações. O próprio Dr.
Clark nunca admitiu a verdade da conclusão. Ele nunca negou a
responsabilidade do homem, nem ele jamais apresentou Deus como o autor
real dos atos humanos, embora insistisse que ele os determina. Ele
mantém somente que "o determinismo é consistente com a
responsabilidade," uma declaração que por si só prova que ele
não elimina a responsabilidade do homem em sua tentativa de harmonizá-la
com a soberania de Deus. É sempre perigoso traçar conclusões a partir
das declarações de alguém para então atribuir as conclusões ao
autor das declarações. Não esqueçamos que os inimigos da verdade
traçaram conclusões a partir da doutrina de Paulo, acusando-lhe de
Antinomianismo (Romanos 3:8; 6:1), fazendo de Deus o autor do pecado e
negando a responsabilidade do homem (Romanos 9:19).
Parece-me que essa parte da Reclamação falha
completamente em provar o seu ponto.
9. A Oferta Sincera do Evangelho
O último ponto da Reclamação diz respeito
à assim chamada oferta sincera de salvação da parte de Deus para
todos os homens, particularmente aos réprobos.
Aqui a Reclamação desce da estratosfera da
queixa filosófica e do debate teológico para as esferas mais baixas da
clara e até mesmo superficial argumentação, onde até mesmo os
mortais que podiam estar presentes na examinação do Dr. Clark, e no
subseqüente debate sobre as questões envolvidas, devem ter sentido que
eles eram capazes de participar na discussão.
Aqui, também, a Reclamação revela, mais
claramente do que em qualquer outro lugar, sua tendência
distintivamente Cristã Reformada, particularmente sua simpatia com os
três decretos bem conhecidos do Sínodo de Kalamazoo, de 1924.
Porque é especialmente nesse ponto que a
controvérsia do Presbitério da Filadélfia, que, como agora parece,
continuaria na Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana Ortodoxa, é
idêntica à nossa controvérsia com a Igreja Reformada Cristã em 1924,
seria supérfluo refrescar nossa memória com esse respeito, de forma
que tentaremos analisar os argumentos da Reclamação de certa
forma em detalhe.
Se o ponto de vista do Dr. Clark com respeito aa
paradoxo da soberania de Deus e a responsabilidade do homem foi descrito
como mais do que impressionante, sua visão a respeito da "oferta
sincera" é caracterizada como "excessivamente estranha"
(13). Os reclamantes colocaram da seguinte forma:
No curso da examinação do Dr. Clark pelo
Presbitério, tornou-se abundantemente claro que o seu racionalismo
o impede de fazer justiça ao ensino precioso da Escritura de que no
evangelho Deus sinceramente oferece salvação em Cristo a todos os
que ouvem, réprobos bem como eleitos, e que ele não tem prazer em
que alguém rejeite essa oferta, mas, pelo contrário, deseja que
todos a aceitem e sejam salvos [13].
Tentemos definir a diferença entre os reclamantes e
o Dr. Clark tão rigorosamente como podemos.
A diferença não é que os reclamantes insistem que
o Evangelho deve ser pregado a todos os homens promiscuamente, enquanto
o Dr. Clark reivindica que ele deve ser pregado somente aos eleitos.
Isso seria totalmente impossível, visto que nenhum pregador é capaz de
assinalar o eleito e separá-lo do réprobo nesse mundo. Eles estão de
acordo que o Evangelho deve ser pregado a todos.
Nem a diferença é que os reclamantes neguem
abertamente a doutrina da reprovação, enquanto o Dr. Clark professa
crer nessa verdade. Lemos na Reclamação: "Ele crê—assim
como todos nós—na doutrina da reprovação" (13).
Novamente, a diferença não consiste em que os
reclamantes caracterizam o Evangelho como uma "oferta" de
Cristo ou como salvação, enquanto o Dr. Clark objeta a esse termo. Se
o termo "oferta" é entendido no sentido no qual ele ocorre
nas confissões, e no qual Calvino também o usou (offere, de obfero,
significando apresentar), não pode haver nenhuma objeção ao termo,
embora, para evitar mau entendimento, seria melhor empregar as palavras apresentar
e apresentação.
Novamente, embora o Dr. Clark se oponha ao uso da
palavra "sincera" no sentido no qual os reclamantes usam o
termo, com medo de deixar a impressão de que ele prega Arminianismo,
nem mesmo isso toca o ponto real da diferença entre eles. Que Deus é
sincero na pregação do Evangelho ninguém ousaria negar. Como os
reclamantes corretamente perguntam: "Não seria blasfêmia negar
isso?" (13)
Mas a diferença entre eles diz respeito ao
conteúdo do Evangelho que deve ser pregado promiscuamente a todos
os homens. Realmente não é uma pergunta a quem ele deve pregar,
ou como ele deve pregar, mas o que ele deve pregar.
De acordo com os reclamantes, o pregador é chamado a
proclamar a todos os seus ouvintes que Deus busca sinceramente a
salvação de todos eles. Se isso não é o significado deles quando
escrevem—"no evangelho Deus sinceramente oferece a salvação a
todos os que ouvem, tanto réprobos como eleitos"—então suas
palavras não têm significado algum.
De acordo com o Dr. Clark, contudo, o pregador
proclama a todos os seus ouvintes promiscuamente que Deus busca
sinceramente a salvação de todos os eleitos. O eleito pode ser
chamado de forma variada na pregação: aqueles que se arrependem,
aqueles que crêem em Cristo, aqueles que têm fome pelo pão da vida,
aqueles que têm sede pela água da vida, aqueles que buscam, batem,
pedem, que vem à Cristo, etc. etc. Mas eles são sempre os eleitos.
Podemos definir o assunto ainda mais rigidamente, e
limitá-lo à intenção e atitude de Deus na pregação do Evangelho com
respeito aos réprobos.
Pois é mais especialmente sobre os réprobos e a
salvação deles que os reclamantes estão preocupados. Estranho como
possa parecer, paradoxal como possa soar, eles queriam deixar um lugar
na pregação para a salvação dos réprobos. Em favor da clareza,
portanto, podemos deixar os eleitos de fora da nossa discussão. Que
Deus busca sinceramente a salvação deles não é uma questão de
controvérsia. Trazê-los para dentro da discussão da questão
simplesmente confunde as coisas. A questão realmente envolvida é a
atitude de Deus com respeito aos réprobos. Podemos limitar a
controvérsia à pergunta: O que o pregador do Evangelho diz sobre a
intenção de Deus com respeito aos réprobos? E esses, também, podemos
ser chamados por diferentes nomes, tais como os impenitentes, os ímpios,
os incrédulos, etc.
A resposta à essa pergunta define a diferença entre
o Dr. Clark e os reclamantes de uma maneira rígida e precisa.
Os reclamantes respondem: O pregador deve dizer que
Deus busca sinceramente a salvação dos réprobos através da
pregação do Evangelho.
O Dr. Clark responde: Que isso não é verdade; o
pregador nunca pode dizer isso em nome de Deus. E, à luz da Escritura,
ele deveria dizer: Deus busca sua própria glória e justificação ao
preparar os réprobos para a justa condenação deles, mesmo através da
pregação do Evangelho.
Que, ao formular a diferença dessa forma, eu não
estou fazendo injustiça aos reclamantes é muito claro a partir das
próprias palavras deles. Eles dizem que na pregação do Evangelho Deus
oferece sinceramente salvação em Cristo aos réprobos, que ele não
tem prazer na rejeição deles da oferta, que ele deseja que eles, os
réprobos, aceitem o Evangelho, e sejam salvos. Além disso, é nesse
sentido que eles interpretam Ezequiel 33:11: Deus não tem prazer
na morte do réprobos, mas deseja que eles vivam; e 2 Pedro 3:9:
Deus não quer que o réprobo pereça, mas que todos eles cheguem ao
arrependimento; e Mateus 23:37: Cristo desejava reunir os
réprobos debaixo de suas asas; e 1 Timóteo 2:3-4: Deus nosso
Salvador deseja que todos os réprobos sejam salvos e cheguem ao
conhecimento da verdade (13-14). E é com a doutrina da salvação
universal em mente que eles escrevem: "A suprema importância para
o evangelismo de manter a doutrina reformada do Evangelho como uma
oferta universal e sincera é auto-evidente" (14).
Agora, você poderia objetar, como também o Dr.
Clark o fez, que isso envolve uma contradição direta: Deus busca
sinceramente a salvação daqueles a quem ele desde a eternidade
determinou não salvar. Ou: Deus deseja que aquele pecador a quem ele
não vivifica viva. Ou: Deus quer que o pecador, a quem ele não dá fé,
aceite o evangelho. Ou: Deus quer que o pecador a quem ele não traz a
Cristo, e que não pode vir, venha a Cristo.
Você poderia objetar que isso não é racional.
Mas essa objeção não seria de nenhuma valia para
persuadir os reclamantes do erro deles. Eles admitem que isso é
irracional. Mas eles não querem ser racionais nesse ponto. De fato, se
você insistisse em ser racional nesse aspecto, eles lhe chamariam de
"racionalista," e avançariam imediatamente para buscar a sua
expulsão da igreja como um herege perigoso. Toda a Reclamação
contra o Dr. Clark está realmente concentrada e baseada nesse seu
alegado erro: Ele reivindica que a Palavra de Deus e a fé cristã não
são irracionais. De acordo com os reclamantes, ser racional é ser um
racionalista. Eles escrevem que o problema com o Dr. Clark é que
seu racionalismo não permite que as duas
permaneçam não-reconciliadas lado a lado. Ao invés disso, ele
modifica o evangelho no interesse da reprovação. [Isso, entenda,
é uma observação caluniosa. – H.H.] Expresso de outra forma,
ele comete o mesmo erro que o arminiano, embora ele se mova na
direção oposta. O arminiano não pode harmonizar a reprovação
divina com a oferta divina sincera de salvação a todos os que
ouvem, portanto, ele rejeita a primeira. Nem o Dr. Clark pode
harmonizar as duas, e assim, ele rejeita a última. O racionalismo
é o responsável por ambos os erros [13].
Acusar os reclamantes de irracionalismo é, portanto,
de nenhuma valia quanto a eles. Eles admitem abertamente—eles até
mesmo se orgulham disso—a posição irracional deles. Ser irracional
é, segundo eles, a glória de uma fé humilde e cristã.
Teremos que provar para eles, então, que na
reivindicação deles de que Deus busca sinceramente a salvação dos
réprobos na pregação do Evangelho, eles não somente se contradizem,
mas contradizem diretamente a Escritura.
E isso esperamos fazer, não porque o Dr. Clark
precisa da nossa defesa, mas porque estamos interessados na verdade
Reformada pura, e não podemos permitir que ela seja camuflada e
corrompida por alguns irracionalistas assumidos.
Mas antes de continuarmos, devemos provar duas coisas:
1. Que a posição dos reclamantes não é irracional como eles
reivindicam, mas envolve um conceito arminiano de reprovação. 2. Que a
argumentação deles sobre esse ponto na Reclamação é muito
superficial, e caracterizada por muitos erros.
Nessa edição, teremos espaço para elucidar apenas
o ponto 1.
No final, mesmo que os próprios reclamantes insistam
em ser irracionais, teremos que tratá-los de acordo com as regras da
lógica. Se eles recusam serem tratados racionalmente, eles realmente
perderam o direito de apresentar uma reclamação a qualquer assembléia
de cristãos normais. E tratando-os como seres humanos racionais,
devemos insistir que não aceitamos e não podemos aceitar a
proposição: Deus busca sinceramente a salvação daqueles a quem ele
soberanamente, desde a eternidade, determinou condenar.
Em outras palavras: eu sei que eles reivindicam crer
nisso, mas eu nego a reivindicação deles; eu não a aceito.
Por conseguinte, devo tentar racionalizar a posição
deles para eles. Como pode algum homem, com um pouco de racionalidade,
insistir que Deus busca sinceramente a salvação dos réprobos? Somente
quando eles definem reprovação como aquele ato eterno de Deus
segundo o qual ele determinou condenar todos aqueles que ele eternamente
previu como rejeitando o Evangelho.
15. Um Evangelho Arminiano
Se eu devesse me referir a todas as passagens da
Sagrada Escritura que provam que os querelantes contradizem a Escritura,
quando eles insistem que Deus busca sinceramente a salvação do
réprobo através da pregação do Evangelho, essa discussão se
tornaria praticamente interminável. E eu pretendo concluí-la nesse
artigo. Por conseguinte, farei apenas umas poucas seleções, para que
possa se tornar abundantemente evidente que minha posição não é
baseada na razão humana, mas na revelação de Deus nas Escrituras
Sagradas. Nos ocupemos de Mateus 11:25-27, o contexto da bem conhecida
passagem: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e
sobrecarregados, e eu vos aliviarei." Nós lemos ali:
Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou,
ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos
sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai,
porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai.
Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai,
senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
Observemos brevemente, em conexão com essa passagem,
os seguintes pontos de importância:
1. Que Jesus aqui respondeu. Respondeu a quem?
Evidentemente, ao Pai. Mas ao que suas palavras e ações de graça aqui
contém uma resposta? Para algo que o Pai fez, e que, também, através
da pregação e labores do nosso Salvador. Isso é evidente a partir do
contexto. Enquanto o Senhor pregou o Evangelho do reino e realizou suas
obras poderosas, um efeito duplo se tornou evidente.
Havia os poderosos, que sempre tomavam o reino de
Deus por força, quer fosse João ou Jesus quem pregasse seu Evangelho;
e havia os miseráveis homens daquela geração, a quem Jesus compara
com as crianças nas praças, chamando seus companheiros: "Tocamo-vos
flauta, e não dançastes; cantamos lamentações, e não pranteastes."
Eles nunca tinham entrado no reino dos Céus. João pregou, mas eles
disseram que ele tinha um demônio, pois ele veio sem comer e sem beber;
Jesus veio comendo e bebendo, e eles o chamaram de glutão e beberrão.
Tocariam para João, e ele não dançaria; por conseguinte, eles não
têm nada do seu Evangelho. Diante de Jesus eles lamentariam, e ele não
lamentaria; e, portanto, eles rejeitaram o seu Evangelho. E em conexão
com esse último efeito de sua pregação, o Senhor repreendeu cidades
"onde se operara a maior parte dos seus milagres, pois elas não
tinham se arrependido" (20). Um efeito duplo, portanto, se tornaria
manifesto sob a mesma pregação.
2. Que Jesus atribui esse efeito duplo à obra do Pai.
Ele é o Senhor dos Céus e da Terra, soberano também com respeito à
obra da salvação. A pregação do Evangelho se torna eficaz somente
através do seu poder e operação. E essa operação é dupla: Ele
oculta as coisas do reino de Deus, e as revela.
3. Que tudo isso está em total harmonia com a
verdade de que ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e que ninguém
pode conhecer o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser
revelar.
4. Que a razão e causa última dessa operação do
Pai, de acordo com a qual, mesmo sob a pregação do Evangelho, ele
oculta e revela, é o bom prazer de Deus: "Sim, ó Pai, porque
assim foi do teu agrado."
Agora, que os reclamantes deixem claro que eles não
estão contradizendo plenamente essas palavras de Jesus quando eles
insistem que Deus busca sinceramente a salvação dos réprobos através
da pregação do Evangelho.
Eu posso, adicionalmente, apenas lembra os
reclamantes da passagem em Romanos 9:1-18? E que seja suficiente
apontar a linha principal do argumento do apóstolo. Ele explica o fato
de que muitos israelitas não obtiveram a salvação, enquanto o
remanescente obteve, a partir do propósito soberano de Deus com
respeito à eleição e reprovação. A Palavra de Deus não é de
nenhum efeito, mesmo que muitos israelitas não sejam salvos, pois
somente os filhos das promessas são contados como semente. E há o
eleito em distinção do réprobo, Jacó em distinção de Esaú. Até
mesmo na relação de Israel como uma nação, Deus permanece soberano
para salvar quem ele quer: "Terei misericórdia de quem me aprouver
ter misericórdia , e terei compaixão de quem me aprouver ter
compaixão" (15). E, após se referir aos tratamentos soberanos de
Deus com Faraó, ele conclui essa seção com as palavras: "Portanto,
tem misericórdia de quem quer, e a quem quer endurece."
Eu gostaria muito que os reclamantes explicassem essa
passagem de uma tal forma que se tornasse claro que eles não
contradizem abertamente a Escritura quando eles sustentam que Deus busca
sinceramente a salvação dos réprobos.
Mais uma passagem, 2 Coríntios 2:14-16:
Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre
nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a
fragrância do seu conhecimento. Porque nós somos para com Deus o
bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se
perdem. Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles,
aroma de vida para vida. Quem, porém, é suficiente para estas
coisas?
O ponto aqui é: 1. Que os apóstolos, em sua
pregação do Evangelho, são tanto sabor de morte para morte como sabor
de vida para vida. E 2. Que em ambos os casos eles são o bom perfume de
Cristo para Deus. E o pregador do Evangelho que não está disposto a
ser um bom perfume para Deus naqueles que estão sendo salvos e naqueles
que perecem, simplesmente não podem ser um ministro da Palavra de Deus.
O que se torna a alegação dos reclamantes de que
Deus busca sinceramente a salvação de todos os homens, os réprobos
incluídos, através da pregação do Evangelho?
E o que pensar da declaração final deles: "A
suprema importância para o evangelismo de manter a doutrina reformada
do Evangelho como uma oferta universal e sincera é auto-evidente"?
Eles, nessa declaração, não revelam a real
intenção deles? Eles primeiro reivindicam que a doutrina Reformada do
Evangelho honra o paradoxo, a contradição: Deus deseja salvar todos os
homens; ele deseja salvar somente os eleitos. Não deveriam eles,
portanto, pregar esse paradoxo, se eles hão de proclamar o pleno
Evangelho, de acordo com a própria alegação deles? Não deveriam eles
fazer justiça a esse Evangelho, e não ocultar nada dele, quer na obra
"evangelística", que no ministério da Palavra na Igreja?
Mas não; aqui eles tacitamente admitem que, para
propósitos evangelísticow, o Evangelho paradoxal não é apropriado. E
assim, eles propõem esquecer um lado desse paradoxo, e apresentar o
Evangelho somente como uma "oferta universal e sincera de
salvação." E isso significa que eles pretendem se limitar à
proclamação de que Deus busca sinceramente a salvação de todos os
homens.
Na prática, eles pretendem pregar um evangelho
arminiano.
1Veja The Trinity Review, January
1991.
Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto – felipe@monergismo.com
Cuiabá-MT, 11 de novembro de 2005.
Para material
Reformado adicional em Português, por favor, clique aqui