A Teoria da Graça Comum
Herman Hoeksema
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1
É bem conhecido que a teoria da graça comum nega
que o homem tenha morrido quando comeu do fruto proibido. De acordo com
essa teoria, o pecado e a morte foram imediatamente contidos após a
queda, e a morte não foi infligida no mesmo dia em que Adão caiu e
comeu do fruto proibido. A palavra do Senhor, "no dia em que dela
comeres, certamente morrerás," não deve ser entendida como uma
ameaça de punição que o próprio Senhor executaria, mas antes como
uma predição que inevitavelmente teria se seguido se o homem comesse
da árvore proibida e caísse da presença do Deus vivo. Quem quer que
peque se aparta do Deus vivo, e, portanto, não pode viver. Ele deve
morrer, a menos que a graça maravilhosa de Deus intervenha e corte a
conexão causal entre pecado e morte, eternamente ou por um tempo.
De acordo com a teoria da graça comum, a maravilha
da graça de Deus interveio. Deus predisse que o homem morreria no dia
em que comesse da árvore proibida. Nessa predição o Senhor falou a
verdade, pois existe uma conexão inseparável, de acordo com a própria
ordenança de Deus, entre pecado e morte. Quem tomar veneno deve morrer,
e quem se opor ao Deus vivo deve também necessariamente perder sua vida.
Embora o Senhor nesse sentido tenha falado a verdade absoluta quando
disse que o homem morreria no dia em que comesse do fruto da árvore do
conhecimento do bem e do mal, todavia, em sua grande misericórdia o
Senhor interveio para que o homem não morresse no dia em que caiu. Essa
intervenção, pela qual o homem não sofreu a punição do pecado no
momento em que comeu o fruto proibido e caiu da presença de Deus, é a
operação da graça comum, da qual todos os homens participam.2
Essa é uma noção equivocada, e é uma
interpretação errônea de Gênesis 2:17. Devemos entender que a morte
não é uma conseqüência necessária, um resultado natural do pecado,
mas que a morte é muito definitivamente apresentada em Gênesis 2:17 e
por toda a Escritura como a punição de Deus, a manifestação de sua
ira. Deus mata o homem! De acordo com Kuyper, a morte deve ser um certo
poder que opera por si só; em Gênesis 2:17 Deus simplesmente advertiu
ao homem contra esse resultado necessário do pecado. Kuyper usa a
ilustração de um homem tomando um veneno chamado Paris green.3
Quando está na iminência de tomar, você pode adverti-lo que se seguir
em frente, ele certamente morrer. Se, todavia, toma, e você lhe dá um
antídoto, e ele vomita o veneno para fora, você ainda pode salvar sua
vida. De acordo com Kuyper, isso é exatamente o que aconteceu. Quando
Deus disse, "no dia em que dela comeres, certamente morrerás,"
ele simplesmente predisse, profetizou, o que aconteceria se o
homem caísse da sua presença. Todavia, o resultado inevitável do
pecado foi impedido pela administração da graça comum de Deus ao
homem.
Isso não é a verdade. A morte não opera por si só,
mas por meio da ira de Deus. Ela é a punição do pecado. Certamente é
verdade que o pecado é inevitavelmente seguido pela morte, mas somente
porque o próprio Deus, que é santo e justo, mantém seu pacto contra o
pecador rebelde e inflige sobre ele a punição de morte. E mais, nem
mesmo é verdade que o homem não morreu no mesmo dia em que comeu o
fruto. Isso não é verdade nem fisicamente. Embora o homem tenha
existido por muitos anos após a queda e continuou a existir na terra
organicamente na linha de gerações, todavia, ele não vive. Ele está
sob o poder da morte fisicamente também. A morte reina sobre ele e o
leva inevitavelmente ao fim. No berço está a sepultura, pronta para
tragá-lo. Além disso, o homem está espiritualmente morto em delitos e
pecados (Ef. 2:1, 5).
Essa morte o homem experimentou no paraíso. Ele
está tão morto que, a menos que nasça de novo, nasça pela segunda
vez, não pode nunca viver. "Aquele que crê no Filho tem a vida
eterna, mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira
de Deus sobre ele permanece" (João 3:36). "Em verdade, em
verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a
voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão" (João 5:25). É
claro que "os mortos" nesse versículo refere-se àqueles que
estão espiritualmente mortos, mesmo que já tenham vivido muitos anos
no mundo. "Porque a inclinação da carne é morte; mas a
inclinação do Espírito é vida e paz" (Romanos 8:6).
Dessas e muitas outras passagens fica evidente que,
de acordo com a Escritura, o homem não vive por nascimento natural, mas
reside no meio da morte, embora seja verdade que a morte temporal é
prolongada por setenta ou oitenta anos. Essa morte, tanto no sentido
físico como espiritual, data desde o primeiro pecado de Adão e Eva no
paraíso: "pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e
pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens,
por isso que todos pecaram" (Romanos 5:12). Portanto, a idéia que
as palavras de Gênesis 2:17 referem-se simplesmente a uma predição de
Deus, e não à inflição da punição do pecado, é uma noção
equivocada. No paraíso o homem morreu espiritual e fisicamente.
O Pelagianismo nega a verdade da Escritura que o
homem morreu espiritual e fisicamente. De acordo com essa teoria, a
natureza do homem não foi corrompida pelo pecado. O homem não morreu a
morte espiritual. A vontade do homem ainda permanece livre, não foi
totalmente depravada, e sua mente não foi obscurecida para que não
seja capaz de discernir e escolher o que é verdadeiramente bom. Pelo
contrário, a vontade permaneceu sadia e reteve seu poder de escolher
entre o bem e o mal, e a mente permaneceu suficientemente iluminada para
escolher o bem. A mente e a vontade foram de fato enfraquecidas com o
primeiro ato de pecado, mas a liberdade da vontade não foi perdida.
Contra o Pelagianismo, os teólogos Reformados têm sempre mantido que o
homem é totalmente depravado, que ele está morto no pecado, e que é
totalmente incapaz de fazer algum bem e inclinado a todo o mal. Sem
dúvida esse é o ensino de toda a Escritura.
Fonte: Reformed Dogmatics, Herman
Hoeksema, Reformed Free Publishing Association, vol. 1, pp. 378-381.
1E-mail para contato: felipe@monergismo.com.
Traduzido em fevereiro/2007.
2Abraham
Kuyper, De Gemeene Gratie (Common Grace) (Amsterdam: Höveker
& Wormser, 1902), vol. 1, pp. 208-209.
3Ibid.,
209. Na edição original da Reformed Dogmatics, Herman Hoeksema,
por razões desconhecidas, traduziu o termo Pruisisch blauw
(Prussian blue) de Kuyper como "Paris green." Prussian blue é
um composto cianeto. Paris green é um composto arsênico. Os dois são
usados em pinturas e corantes, e são altamente tóxicos. A despeito de
qual tradução for aceita, o ponto é o mesmo: Essas substâncias são
altamente venenosas – Ed.