O Pacto com Adão: Uma Breve Análise Histórica
Rev. Angus Stewart
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1
As igrejas Reformadas ensinam uma relação pactual
entre o Adão pré-queda e o Deus Triúno. Neste artigo, analisaremos as
visões de vários teólogos, especialmente João Calvino, culminando na
obra de Herman Hoeksema, que identificou o pacto, incluindo o pacto com
Adão, como comunhão entre o Deus vivo e seu filho [Adão], a quem criou
à sua própria imagem.
1. Existe um pacto com Adão?
A igreja cristã tem falado da relação entre Deus e
Adão antes da queda em termos do pacto no mínimo desde Agostinho
(354-430).2 A teologia Reformada desenvolveu essa verdade.
Estudiosos têm debatido, contudo, se Calvino (1509-1564) sustentou um
pacto pré-queda com Adão.
Lutero (1483-1546) e muitos teólogos Reformados
viram corretamente uma referência ao pacto de Deus com Adão em Oséias
6:7.3 Do seu comentário sobre Oséias 6:7, é claro que
Calvino estava ciente que alguns em seus dias entendiam esses
versículos dessa forma: "Outros explicam as palavras assim: ‘Eles
transgrediram o pacto como Adão.’" Contudo, Calvino chama
essa interpretação de "sem imaginação," "fraca"
e "insípida;" e assim, "não paro para refutar esse
comentário."
Estudiosos de Calvino têm encontrado somente uma
passagem na qual Calvino fala explicitamente do pacto de Deus com o
Adão pré-queda. Em suas Institutas da Religião Cristã, ele
escreve dos "pactos" (plural) com Adão e Noé, e seus
respectivos sacramentos ou sinais:
Do primeiro gênero são exemplos, como quando a
Adão e Eva ele deu a árvore da vida por penhor da imortalidade,
para que confiadamente a propusessem a si, por quanto tempo comessem
de seu fruto [Gn 2.9; 3.22]. E quando estabeleceu, a Noé e a sua
posteridade, o arco celeste por testemunho de que depois disso não
haveria de destruir a terra com um dilúvio [Gn 9.13-16]. Adão e
Noé tiveram esses elementos por sacramentos. Não que a árvore
lhes provesse a imortalidade, que por si só não podia dar, nem o
arco-íris, que é apenas a reverberação da radiação solar nas
nuvens opostas, seria eficaz em conter as águas, mas porque tinham
a marca esculpida pela Palavra de Deus a fim de que fossem provas e
selos de seus pactos. (Institutas 4.14.18).4
Calvino não chama esse pacto pré-queda de "pacto
de obras," "pacto da criação" ou "pacto da
natureza," termos usados por Zacharias Ursinus (1534-1583).5
A frase "pacto com Adão" se encaixaria muito bem com a
citação acima do reformador de Genebra.
2. O Adão caído poderia obter vida eterna
e celestial?
Calvino cria que "o primeiro homem teria passado
para uma vida melhor se permanecesse reto" (Com. sobre Gn. 3:19).
Por uma vida "melhor," ele quer dizer, mais
especificamente, "vida eterna" (Institutas
2.1.4) e "vida celestial," pois "ele teria passado
para o céu sem a morte" (Com. sobre Gn. 2:16-17).
Calvino opina: "Nesta integridade, o homem
usufruía de livre-arbítrio, mercê do qual, caso quisesse, poderia
alcançar a vida eterna." Umas poucas linhas antes escreve: "Portanto,
Adão podia manter-se, se o quisesse, visto que não caiu senão de sua
própria vontade" (Institutas 1.15.8). Não temos querela
com a declaração que Adão teria se mantido no caminho da obediência.
Mas Calvino não provou, nem qualquer outra pessoa, que a Escritura
ensina que Adão teria recebido "vida eterna e celestial."
Comentando sobre "e o homem foi feito alma
vivente," Calvino escreve:
Paulo faz uma antítese entre esta alma vivente e
o espírito vivificante que Cristo confere aos fiéis (I Co. 15:45),
por nenhum outro propósito que não nos ensinar que o estado do
homem não foi aperfeiçoado na pessoa de Adão; mas é um
benefício peculiar conferido por Cristo, que podemos ser renovados
para uma vida que é celestial, enquanto antes da queda de
Adão, a vida do homem era apenas terrena, visto que ela não
tinha nenhuma constância firme e estabelecida (Com. sobre Gn. 2:7).
O mínimo que se pode dizer é que I Coríntios 15:45
(e as observações acima de Calvino sobre a passagem) não se encaixa
fácil com a noção que o Adão pré-queda poderia ter alcançado a
vida eterna e celestial mediante o caminho da obediência, tanto para
ele como para, por implicação, os seus descendentes.
I Coríntios 15:45-49 traça um contraste entre o
primeiro Adão e o "último" ou "segundo" Adão,
Jesus Cristo. Primeiro, Cristo é "o Senhor … do céu,"
enquanto Adão é meramente "da terra … terreno" (I Co.
15:47), um "boneco de barro," como Calvino coloca (Com. sobre
Gn. 2:7). Segundo, Adão é "natural;" Cristo é "espiritual"
(I Co. 15:46). Terceiro, enquanto "Adão foi feito uma alma vivente;
o último Adão [foi feito] em espírito vivificante" (I Co.
15:45). O último aconteceu através da encarnação, morte,
ressurreição e ascensão de Cristo. Assim, se foi exigido a
encarnação, crucifixão e ascensão do "Senhor dos céus"
"espiritual"—"um espírito vivificante!"—para
transmitir vida eterna e celestial ao eleito, como poderia o Adão
"terreno" e "natural," que era meramente "uma
alma vivente," alguma vez ganhar vida eterna e celestial, e
comunicá-la à sua posteridade?
Embora muitos Presbiterianos e Reformados reconheçam
que Adão poderia ter adquirido a vida eterna, os Símbolos de Westminster
não especificam isso na verdade: "O primeiro pacto feito com o
homem era um pacto de obras; nesse pacto foi a vida prometida a
Adão e nele à sua posteridade, sob a condição de perfeita
obediência pessoal" (Confissão de Westminster 7.2).
Thomas Goodwin (1600-1680), um Puritano inglês e
proeminente delegado da Assembléia de Westminster, faz um ataque
prolongado sobre a idéia de Adão ganhando vida eterna e celestial por
sua perseverança, na parte 2 do seu livro Of the Creatures, and the
Condition of their State by Creation. Ele apela a I Coríntios 15:45
e seu contexto muitas vezes.6 Em suas obra, Of Christ the
Mediator, Goodwin escreve:
Adão não poderia conseguir uma condição mais
nobre, nem alguma posição maior do que aquela na qual foi criado
poderia ser trazida por suas obras, nem mesmo por todas elas. Fazê-lo
estava ultra suam sphaerum, acima de sua esfera; ele nunca
conseguiria isso. Como, por exemplo, não poderia ter alcançado
aquele estado no céu que os anjos desfrutam. O que Cristo diz?
"Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado,
dizei: Somos servos inúteis" (Lucas 17:10). Isso ele não
poderia fazer, não mais que outras criaturas guardando aquelas suas
ordenanças podem merecer ser "transladadas para a liberdade
gloriosa" que aguardam, e que haverá no último dia. A lua,
embora mantenha todos os seus movimentos estabelecidos por Deus tão
regularmente, todavia, não pode por causa disso alcançar a luz do
sol como nova recompensa. E assim, tampouco pode alguma criatura de
si mesma, por toda a sua retidão, obter em justiça uma condição
maior para si. E, portanto, os anjos, por toda a sua graça, não
merecem hoje uma condição melhor do que aquela na qual foram
criados.7
Nem é a idéia que o Adão não-caído poderia ter
ganhado vida eterna distintamente Reformada, pois, como Goodwin aponta,
os Católicos Romanos também sustentam isso.8
Embora Calvino (erroneamente) sustente que Adão
poderia ter obtido o céu, ele (corretamente) rejeita toda noção de
Adão merecendo isso diante de Deus. Peter Lillback escreve: "A
teologia de Calvino não permite nenhum mérito no contexto pré-queda."9
Ele explica,
A rejeição do mérito por Calvino no contexto
pré-queda, é particularmente motivada por um desejo de refutar a
conexão de mérito e justificação do pecador, feita pelos
teólogos Católicos Romanos. Mas sua antipatia ao mérito é mais
profunda que isso. Para Calvino, nenhuma criatura de Deus [incluindo
o Adão pré-queda e os anjos eleitos], embora perfeita, pode
merecer algo de Deus o Criador.10
Lillback cita o comentário de Calvino sobre Romanos
11:35:
Paulo não somente conclui que Deus não nos deve
nada, por causa de nossa natureza corrompida e pecaminosa; mas ele
nega que se o homem fosse perfeito, poderia trazer algo diante de
Deus, pelo qual ganharia seu favor; pois tão longo começa a
existir, ele já está tão endividado para com seu Criador pelo
direito de criação, que não possui nada para apresentar.
O ódio mortal de Lutero pelo mérito da criatura em
todas as suas formas é bem conhecido. Outros teólogos Reformados, tais
como Thomas Goodwin e o suiço Daniel Wyttenbach
(1706-1779), também rejeitaram a idéia de Adão merecendo algo de
Deus, mesmo se fosse ex pacto (procedente do pacto).11
3. O pacto com Adão era um contrato ou um laço?
Peter Mastricht (1630-1706) fala por muitos teólogos
Reformados e Presbiterianos: "toda a essência do pacto de obras
está contida na primeira publicação dele [em Gênesis 2:17]."12
Esse pacto de obras inclui uma "condição" (não comer da
árvore do conhecimento do bem e do mal), uma "penalidade" por
comer (morte) e uma "promessa" (vida eterna e celestial). Em
seu comentário sobre Gênesis 2:16-17 e em suas Institutas
(2.1.4), Calvino usa palavras tais como "teste," "ameaça"
e "promessa," embora não apresente a teologia esquematizada
de muitos teólogos posteriores.
Contudo, não somente não existe nenhuma promessa de
vida eterna em Gênesis 2:17, mas esse sistema também apresenta o pacto
pré-queda como meramente um meio para um fim. Mas a Bíblia ensina que
o pacto é eterno e o fim dos tratamentos de Deus com o seu povo (Ap.
21:3), e não meramente um meio. Além do mais, se "toda a
essência do pacto de obras" está contida em Gênesis 2:17, então
houve um tempo, após a criação de Adão e antes de Deus proferir o
mandamento proibitório, no qual ele não estava em pacto com Deus! Uma
existência "sem pacto" para o Adão pré-queda, mesmo
por um curto período de tempo, é impensável!
O pacto com Adão foi um laço de comunhão entre o
Deus Triúno e Todo-poderoso e Adão, seu amigo-servo pactual, a quem
criou à sua própria imagem. Assim, como Calvino observa: "Na
própria ordem da criação, a eterna solicitude de Deus para com o
homem é evidente, pois ele forneceu ao mundo todas as coisas
necessárias" para o homem (Com. sobre Gn. 1:26). Deus deu a Adão
um "lar" no "Paraíso", que Calvino mais tarde
descreve como "um lugar que ele tinha especialmente embelezado com
cada variedade de deleites, com frutos abundantes, e com todos os outros
dons mais excelentes … do qual gozo podemos inferir a
benevolência paternal de Deus" (Com. sobre Gn. 2:8). Assim, Adão
era "em cada aspecto, feliz", pois vivia como um recipiente da
"liberalidade" divina (Com. sobre Gn. 2:16). Em sua bondade,
Deus deu a Adão uma esposa com a quem viveu na "mais doce harmonia"
e com quem desfrutou "uma relação santa, bem como amiga e
pacífica" como a "ajudadora inseparável de sua vida"
(Com. sobre Gn. 2:18).
Herman Hoeksema desenvolveu a verdade da relação
pactual entre o Deus criador e sua criação, o homem. Ele trabalhou com
os dados bíblicos do pacto como andando, habitando e tendo amizade com
Deus, e construiu sobre idéias encontradas na tradição Reformada,
especialmente em seu tratamento da bendita comunhão que Adão
desfrutava com Deus no Jardim do Éden. Hoeksema escreve:
Desde o primeiro momento de sua existência … e
em virtude de ser criado à imagem de Deus, Adão permaneceu numa
relação pactual com Deus e estava consciente dessa comunhão e
amizade viva … Ele conhecia a Deus e O amava, e estava ciente do
amor de Deus por ele. Ele desfrutava do favor de Deus. Recebia a
Palavra de Deus, andava com Deus e falava com Ele; e habitou na casa
de Deus no primeiro paraíso.13
A formulação de Hoeksema do pacto (tanto antes como
depois da queda) como um laço gracioso de amizade explica o registro
bíblico, exclui todo mérito humano e preserva a soberania absoluta de
Deus.
Fonte: The Covenant with Adam—A Brief
Historical Analysis
1E-mail
para contato: felipe@monergismo.com.
Traduzido em outubro/2007.
2Peter
A. Lillback cita a Cidade de Deus 16.27 e Dos bens do
Matrimônio 2.11.24 de Agostinho (The Binding of God: Calvin’s
Role in the Development of Covenant Theology [Baker: Grand Rapids,
2001], pp. 41-45).
3Cf.
B. B. Warfield, "Hosea VI.7: Adam or Man?" in Selected
Shorter Writings (USA: P & R, 1970), vol. 1, pp. 116-129.
4"O
termo ‘sacramento,’" nesse contexto, explica Calvino, "abraça,
de modo geral, a todos os sinais que Deus, em todos os tempos, outorgou
aos homens, para que mais certos e seguros os tornasse quanto à
veracidade de suas promessas". Nessa categoria ampla, Calvino
inclui a lã de Gideão e o retroceder em dez linhas a sombra do
relógio de Ezequias. Assim, Calvino não está se referindo à arvore
da vida como se ela fosse equivalente ao batismo ou Ceia do Senhor.
5
O
Catecismo Maior de Westminster Q. & A. 20 também fala de um
"pacto da vida" com Adão.
6Thomas
Goodwin, The Works of Thomas Goodwin (USA: Tanski Publications,
1996), vol. 7, pp. 36, 37, 48, 49-50, 62, 70, 73, 76-91 etc.
7Goodwin,
Works, vol. 5, pp. 82-83.
8Goodwin,
Works, vol. 7, p. 57.
9
Lillback,
Op. cit., p. 299.
10
Ibid.,
p. 298.
11
Citado
em Heinrich Heppe, Reformed Dogmatics (Grand Rapids: Baker,
1978), p. 296; Goodwin, Works, vol. 7, pp. 23, 29, 49.
12
Citado
em Heppe, Op. cit., p. 290.
13Herman
Hoeksema, Reformed Dogmatics (Grand Rapids: RFPA, 1966), p. 222.
Para material Reformado
adicional em Português, por favor, clique aqui.