A Doutrina do Pecado e Culpa Original
Rev. Herman Hoeksema
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1
Essa doutrina da universalidade do pecado por meio de
Adão levanta outras questões muito sérias. Pode parecer como se os
descendentes do homem Adão fossem as vítimas inocentes de sua
transgressão. Ele pecou, e todos eles sofrem e vêm ao mundo com uma
natureza corrompida e sem os preciosos dons de conhecimento, justiça e
santidade com os quais a natureza humana foi originalmente dotada. Não
é isso uma injustiça? Devem os filhos sofrer pelos pecados de seus
pais? Não se deve ter piedade dos homens por seu estado deplorável, ao
invés de serem condenados por causa de sua impiedade?
Ainda mais, como pode o homem ser considerado
responsável por seus pecados e transgressões atuais, se ele nasce com
uma natureza que é incapaz de guardar a lei de Deus e que é inclinada
a toda impiedade? Eu nasço com uma natureza corrompida, morto em
delitos e pecados, e isso certamente não posso reverter. Eu nunca tive
uma oportunidade de fazer o bem. Por conseguinte, concluo que não sou
responsável pelos meus crimes; não posso ser considerado responsável
pela forma como nasci. Eu sou uma vítima de circunstâncias pelas quais
mereço receber piedade, ao invés de ser um objeto de ira e
condenação. Deus não pode demandar de mim o que não posso e nunca
serei capaz de realizar.
Em resposta, devemos lembrar que Deus criou a raça
humana não somente como um organismo, com Adão como a raiz e o
primeiro pai, mas também como uma corporação legal com Adão como o
cabeça representativo. Mesmo de um ponto de vista legal, a raça humana
não é um mero agregado de indivíduos no qual cada um permanece de pé
e cai como seu próprio mestre, sem ser de forma alguma responsável
pelo todo. Pelo contrário, existe responsabilidade comunal, e existe
culpa e sofrimento comunal na vida humana. Isso é evidente na vida toda:
o individualismo é condenado em todo lugar.
Isso é claramente ilustrado na vida de uma nação
em relação ao seu governo. No instante concreto em que os Estados
Unidos vai à guerra contra uma nação estrangeira, certamente não é
todo cidadão americano que declara guerra contra essa nação. Sem
dúvida, por esse ato de declaração oficial de guerra, o governo é
responsável diante de Deus. Ao governo é confiada a espada. Ele é o
único poder ordenado por Deus que tem a autoridade de manusear a espada,
bem como de declarar e travar uma guerra. O soldado que é chamado pelo
governo e vai para a batalha não comete assassinato e não é culpado
do sangue derramado se mata o inimigo no campo de batalha. Ele meramente
manuseia a espada do governo e faz assim em nome do governo. Contudo,
isso significa que não existe responsabilidade e sofrimento comunal?
Que cidadão em são juízo diria que quando o governo declara guerra, o
próprio governo teria lutado melhor suas próprias batalhas? Quando o
governo declara guerra, todos os seus cidadãos estão num estado de
guerra, e terão que sofrer todas as conseqüências implicadas. Mesmo
diante de Deus, uma nação não é um agregado de indivíduos, mas um
corpo legal; o governo representa todos os seus cidadãos. Se o governo,
para suprir as despesas de uma guerra, acumula um débito de muitos
bilhões de dólares, todos os seus cidadãos são responsáveis pelo
pagamento do débito; mesmo seus filhos e os filhos dos seus filhos
terão que suportar o peso dessa responsabilidade.
Assim acontece em todo departamento da vida. É
verdade que existe responsabilidade individual e pecado e culpa
individual. É também verdade que nesse sentido os filhos não podem
ser considerados responsáveis pelos pecados dos pais. É também
verdade, contudo, que existe uma responsabilidade e culpa comunal que
percorre as gerações. Deus visita "a iniqüidade dos pais nos
filhos até à terceira e quarta geração daqueles que [o] aborrecem"
(Ex. 20:5). Deus criou toda a raça humana em Adão como uma
corporação legal representada por nosso primeiro pai. Portanto,
ninguém pode dizer que não é responsável pela transgressão de Adão,
pois todos pecaram nele e seu pecado é imputado a todos eles.
Essa é a solução apresentada pela Escritura aos
problemas do pecado e da morte e de sua universalidade e relações
entre si. Todos os homens nascem no pecado porque toda a natureza humana
foi corrompida pelo pecado do homem Adão. Através de um homem o pecado
entrou no mundo e a morte pelo pecado (Rm. 5:12); assim, todos os homens
nascem mortos no sentido pleno. Eles nascem com o poder da morte física
tragando-os para a sepultura e com a corrupção da morte espiritual em
seus corações, de forma que estão mortos em delitos e pecados quando
entram no mundo (Ef. 2:1). A morte é punição: é a execução da
sentença justa do juiz supremo do céu e da terra sobre todos.
Se a morte é punição, e se essa punição é
infligida sobre toda a raça humana, sobre cada indivíduo antes dele
ser capaz de cometer qualquer pecado real, então a razão deve ser que
aos olhos de Deus toda a raça humana é culpada com uma culpa comunal,
no homem Adão. É assim que as Escrituras nos instruí em Romanos
5:12-14, onde o texto está tratando com o problema da morte universal:
Portanto, assim como por um só homem entrou o
pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte
passou a todos os homens, porque todos pecaram. Porque até ao
regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em
conta quando não há lei. Entretanto, reinou a morte desde Adão
até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da
transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir.
É verdade que o texto também fala da universalidade
do pecado por meio do pecado de um homem. Mas isso é assim somente em
conexão com o problema sério da universalidade da morte: a morte
passou a todos.
A morte reina suprema. Ela reinava antes que houvesse
qualquer lei. Ela reinou de Adão a Moisés, e reinou mesmo sobre
aqueles que "não pecaram à semelhança da transgressão de Adão"
(v. 14). Eles nunca tiveram um mandamento especial para guardar ou
violar. Nunca tiveram o poder, como Adão, de determinar se guardariam
ou não a lei de Deus. Todavia, a morte reinou sobre eles. Reinou mesmo
sobre os pequeninos no berço que não podiam discernir entre a sua mão
direita e esquerda.
Como esse reinado universal da morte é explicado? É
explicado nas palavras "porque todos pecaram" (v. 12). Quando,
onde e como todos pecaram: Todos os homens pecaram no princípio, no
primeiro paraíso, e por meio do primeiro Adão, que era o representante
da raça diante de Deus: "por uma só ofensa, veio o juízo sobre
todos os homens para condenação" (v. 18).
É claro a partir da Escritura que a universalidade
do pecado e morte na raça humana deve ser explicada, primeiro, a partir
do fato que a raça foi criada no homem Adão como um organismo. Ele
carregava nossa natureza, e essa natureza foi corrompida; de uma semente
corrompida brota uma descendência corrompida. Segundo, a Escritura
ensina que até onde diz respeito a culpa do pecado, sua universalidade
é devido ao fato que toda a raça foi criada em Adão como seu cabeça
e, portanto, que toda a raça humana é responsável pelo pecado que
Adão cometeu no primeiro paraíso.
Fonte: Reformed Dogmatics, Herman
Hoeksema, Reformed Free Publishing Association, vol. 1, pp. 392-395.
1E-mail para contato: felipe@monergismo.com.
Traduzido em fevereiro/2007.
(Para
material adicional de Herman Hoeksema's Reformed Dogmatics em
Português, por favor, clique aqui)