O Levantar de Faraó por Deus
Rev. Herman Hoeksema
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1
"Porque diz a Escritura a Faraó: Para
isto mesmo te levantei, para em ti mostrar o meu poder e para
que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois,
compadece-se de quem quer e endurece a quem quer" (Romanos
9:17-18; RC).
Essa passagem é a segunda parte da resposta à
questão [no v. 14]: "Que diremos, pois? Há injustiça da parte de
Deus?" Se a questão é resolvida da forma como o apóstolo
escreveu no contexto precedente—de forma que a salvação não depende
de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus mostrar misericórdia; e de
forma que Deus ama um e odeia outro— diremos, então, que há
injustiça da parte de Deus?
A essa questão o apóstolo respondeu: "De
maneira nenhuma!" Por implicação, a resposta é que diremos que
não existe nenhuma injustiça da parte de Deus. Sem dúvida, não
chamaremos a Deus diante do nosso tribunal para determinar se existe
injustiça nele. Pelo contrário, levaremos a questão ao próprio Deus;
isto é, nos voltaremos para a Escritura e deixaremos Deus dizer se ele
tem o direito soberano de ter misericórdia de quem ele quer. Assim, o
apóstolo se volta para Êxodo 33:19, onde o próprio Deus declara que
ele tem o direito soberano de ter misericórdia de quem quer. Deus disse
a Moisés: "Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me
compadecerei de quem me compadecer."
Mas isso é somente metade da questão, a parte
concernente ao amor de Deus e a salvação dos homens e mulheres eleitos.
Agora, a outra metade da mesma questão vem à tona. Há injustiça da
parte de Deus quando ele odeia alguns e quando ele não
salva alguns? Há injustiça da parte de Deus quando ele fabrica alguns
como vasos de ira preparados para a destruição? A essa segunda metade
da questão, temos a resposta no texto. Novamente, o apóstolo se volta
para a Escritura onde Deus disse a Faraó: "Mas deveras para isto
te mantive, para mostrar o meu poder em ti e para que o meu nome seja
anunciado em toda a terra" (Ex. 9:16).2 No texto, o
apóstolo identifica a Escritura com a própria Palavra de Deus: A
Escritura disse a Faraó, isto é, Deus disse a Faraó, "pra isto
mesmo te levantei." Então, o apóstolo traça a conclusão que se
aplica a ambos os lados da questão, a questão sobre o amor de Deus e a
questão sobre o ódio de Deus: "Logo, pois, compadece-se de quem
quer e endurece a quem quer."
É difícil para algumas pessoas crer especialmente
nessa última parte da questão, pois o homem pecador é sempre
inclinado a dizer a coisa errada sobre Deus. Se é difícil para ele
crer na doutrina da eleição soberana, é ainda mais difícil para ele
crer na doutrina da reprovação soberana. Portanto, cabe
humilharmos-nos; de outra forma, não receberemos essa Palavra de Deus.
O Significado
Para o que Deus levantou Faraó? E até onde esse
levantar se aplica a Faraó? Deus o levantou somente a partir de um
ponto de vista natural? O significado é apenas que Deus o levantou como
um homem, de forma que Deus lhe deu o seu poder, seus talentos, sua
posição, e sua honra; e que Deus o levantou como um rei, de forma que
ele lhe deu o seu trono, reino e domínio? Ou significa também que Deus
levantou Faraó em sua impiedade?
Geralmente a resposta dada a essa pergunta é que
somente o primeiro significado é o pretendido. A frase para isto
mesmo te levantei é interpretada como significando que Deus deu a
Faraó somente sua posição, sua honra, sua grandeza, seu poder, seus
talentos, e o seu reino. Mas sem dúvida, esses intérpretes dizem, ela
não significa que Deus o levantou em sua impiedade, de forma que Faraó
em sua impiedade, em sua rebelião contra Deus, tivesse sido posto ali
por Deus.
Todavia, sem dúvida todas essas coisas estão
inclusas. Isso é verdade não somente com respeito a Faraó, mas
também com respeito a todos os ímpios. Faraó é mencionado como um
tipo de todos os ímpios. De um ponto de vista natural, Deus dá a cada
ímpio sua posição, talentos, lugar e poder. Mas essa não é toda a
verdade. Sem dúvida, esse não é o significado no texto. Em primeiro
lugar, o contexto deixa isso claro. Sobre o que o apóstolo está
falando em Romanos 9? Ele está falando sobre eleição e reprovação
soberana. O apóstolo cita a Palavra a partir de Êxodo 9:16 em Romanos
9:17 e em conexão com a explicação que ele dá no versículo 18:
"Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece a quem quer."
Essa é uma conclusão dupla a partir de um exemplo duplo. O significado
necessário é que Faraó foi endurecido para este propósito.
Em segundo lugar, esse é também o significado da
Palavra em Êxodo. Repetidamente, lemos que Deus endureceu o coração
de Faraó. Eu sei que isso é geralmente interpretado como significando
que Deus endureceu o coração de Faraó após Faraó se rebelar e ter
recusado obedecer a Palavra do Senhor. Mas essa é uma interpretação
grosseira, pois já no Monte Horebe, muito antes de Moisés aparecer
diante de Faraó, Deus tinha lhe dito: "Eu lhe [de Faraó]
endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo" (Êxodo
4:21). Também, em Êxodo 9, esse endurecimento do coração de Faraó
é atribuído a Deus.
Deus endurece o coração de todos os ímpios.
Devemos saber isso. O ímpio deve saber isso, também. Se andamos nas
sendas da impiedade, não devemos imaginar que fazemos o que nos apraz.
Não é salutar dizer aos ímpios que eles podem fazer o que desejam.
Então, eles não tremerão diante de Deus. O pecador não tremerá
diante de um Deus com quem ele pode fazer o que quiser. Mas ele tremará
diante de um Deus que o tem em seu poder e que o predestinou para fazer
exatamente o que ele quer.
Além disso, o texto diz que este era o propósito de
Deus: "Eu o levantei exatamente com este propósito" (NVI). O
texto não diz que Deus levantou Faraó a partir de um ponto de vista
natural, de forma que ele lhe deu sua posição, honra e grandeza. Não,
o texto diz no original grego: "para isto mesmo eu te
levantei." Este isto mesmo era que Faraó deveria se rebelar contra
Deus. Este é o propósito. Deus disse a Faraó: "Você não deve
imaginar, quando se rebela contra mim, que não fazes nada contrário ao
meu conselho. Para este propósito eu te levantei."
Portanto, o texto não significa meramente que Deus
levantou Faraó a partir de um ponto de vista natural. Mas significa,
primeiro, que Deus predestinou Faraó em seu conselho para fazer
exatamente o que ele fez. Segundo, significa que Deus diz a Faraó:
"O fato de você permanecer aí, Faraó, em sua rebelião ímpia
contra mim não é à parte da minha obra, mas é porque eu lhe dei
poder para ficar aí. Você permanece aí somente pelo meu poder."
Se esse não é o significado, o contexto não tem nenhuma importância.
Portanto, o significado é que Deus predestinou Faraó para fazer as
próprias coisas que ele fez, e que ele colocou Faraó ali, em sua
rebelião ímpia.
É especialmente aqui que a doutrina da
predestinação tem sido designada como uma doutrina dura. Conquanto
você fale somente da eleição soberana de Deus, a oposição não é
tão forte. Mas quando você mantém também a doutrina da reprovação
soberana e diz que Deus também determinou soberanamente as obras dos
ímpios, as pessoas dizem que a predestinação é uma doutrina dura.
Devemos entender isso porque devemos ter algo a responder. A questão
não é se defenderemos a Deus. A questão não é se julgaremos que
existe injustiça da parte de Deus quando ele determina o ímpio em sua
impiedade. Pelo contrário, a questão é se Deus diz que ele tem este
direito. Então, todo o contexto ensina que Deus predestinou Faraó como
um vaso de ira preparado para a destruição e que como tal, Faraó teve
que fazer a obra de Deus.
Não diga que essa é uma doutrina dura. Se Deus diz
que esta doutrina é verdade, então devemos nos humilhar e crer nela.
Vejamos se esta é uma doutrina dura, ou se a
alternativa é uma doutrina dura. Devemos escolher entre duas: ou os
ímpios praticam a sua impiedade por seu próprio poder e força, ou
Deus os coloca ali. Lembre-se: Faraó oprimiu o povo de Deus. Ele buscou
destruir a igreja. Nós podemos olhar para os réprobos meramente como
homens, e então nossa atitude deveria ser de piedade humilde. Mas eles
não aparecem meramente como homens, mas como ímpios. E então a
questão é: eles permanecem ali por seu próprio poder, ou Deus os
coloca ali? Quando Israel passou pelo Mar Vermelho, eles cantaram um
cântico. Por quê? Porque Deus tinha destruído os seus inimigos. É
uma doutrina dura dizer que todos os nossos inimigos estão na mão de
Deus?
A Realização
Deus executa seu conselho de reprovação bem como
seu conselho de eleição. Quando Deus executa seu conselho de eleição,
ele diz: "Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia."
Em outras palavras, ele diz que fará de quem quiser o objeto de sua
misericórdia. E quando Deus faz de alguém o objeto de sua
misericórdia, ele faz com que sua graça entre em seu coração. Ele
humilha e quebra esse coração e faz com que ele se volte para Cristo.
Mas a Escritura ensina que o eleito vai para o céu
porque Deus mostra-lhe misericórdia, e que o réprobo não vai para o
céu meramente porque Deus não lhe mostra misericórdia? É esse o
ensino da Escritura? Ou a Escritura dá um passo adiante e ensina que
existe sempre uma operação de Deus sobre as suas criaturas, nesse caso
suas criaturas morais?
Devemos entender a questão. As pessoas dizem que os
eleitos vão para o céu porque Deus lhes mostra misericórdia e que os
réprobos não vão para o céu porque Deus não lhes mostra
misericórdia. Em outras palavras, o réprobo vai para a destruição
por si mesmo. Alguns até mesmo dizem que Deus mostra misericórdia aos
réprobos no tempo. Essa é a teoria da graça comum. Deus mostra graça
aos réprobos, e esses caem na destruição por si mesmos.
É verdade que existe uma operação graciosa sobre
os eleitos, e que não existe uma operação de Deus sobre os réprobos?
O texto diz: "Logo, pois, compadece-se de quem quer e endurece a
quem quer."
Há uma operação e influência dupla de Deus sobre
os homens. Há uma influência salvífica de Deus sobre os homens pela
pregação do evangelho, uma influência sobre a mente e vontade deles,
mas existe outra influência também: ela está expressa nas palavras endurece
a quem quer.
Qual é essa obra de Deus através da qual ele
endurece o coração dos ímpios? Devemos observar, em primeiro lugar,
que Deus trouxe sua Palavra a Faraó. A Palavra de Deus a Faraó foi que
ele deveria deixar o povo de Deus partir. Faraó entendeu a Palavra de
Deus. Da mesma forma, a Palavra de Deus chega hoje, não somente aos
eleitos, mas também aos réprobos. Essa Palavra significa simplesmente:
"Arrependei-vos!" A Palavra de Deus a Faraó foi: "Arrependa-se!"
Segundo, Deus deu a Faraó a força para permanecer
ali. Foi uma força grande que Deus deu a Faraó. Ele lhe deu força de
vontade. Deus, mediante sua força, fortaleceu Faraó. De outra forma,
Faraó teria se acovardado. Com medo, ele poderia ter dito, sem contudo
se arrepender: "Eu deixarei o povo partir." Visto que esse
não era o propósito de Deus, ele fortaleceu Faraó. Você pode estar
dirigindo seu carro para um precipício. Você pode fazer duas coisas.
Pode dar mais gás ao seu carro (e um grande gás), de forma que apresse
sua destruição, ou pode aplicar os freios e fazer o carro parar. Se
você der mais vapor a uma locomotiva que está em direção a um trilho
quebrado, a destruição chegará mais rápido. Deus deu mais vapor a
Faraó. Ele lhe deu ainda mais poder. Com esse grande poder, Faraó
disse: "Não!"
Isso é o que Deus faz com todos os ímpios. Em
outras palavras, Deus realiza a sua reprovação soberana em harmonia
com a responsabilidade do homem. Portanto, a conclusão do apóstolo
permanece: Ele compadece-se de quem quer e endurece a quem quer.
O Propósito
Por quê? Qual é o propósito? O versículo 17 diz:
"para em ti mostrar o meu poder." Deus queria mostrar seu
poder em Faraó; isto é, Faraó devia servir ao propósito de Deus para
que o poder de Deus pudesse ser manifesto.
Que poder é esse? O que Deus quis dizer quando disse
a Faraó: "para em ti mostrar o meu poder"? Deus queria dizer
meramente, "para que eu possa mostrar que sou mais forte que você?"
Isso não mostraria o poder de Deus. Deus contra o pequeno Faraó? Isso
não revelaria o poder divino. O poder divino não é um poder mais
forte. Deus não mostra que ele é mais forte. Deus não precisa lutar.
Um deus que luta não é deus. Se essa é a nossa concepção, temos uma
concepção pequena e errônea de Deus. Deus não quer mostrar que ele
é mais forte. Talvez existisse algum homem que poderia fazer isso.
Poderia existir algum outro rei que poderia mostrar a Faraó que ele era
mais forte que Faraó.
Quando Deus diz, "para em ti mostrar o meu poder,"
ele quer dizer que ele mostrará seu poder divino. E o poder divino de
Deus é que ele é Deus, que somente ele é Deus, que não existe nenhum
poder fora dele, e que ele cumpre toda a sua boa vontade. "Eu te
levantei Faraó, e lhe mostrarei que eu sou Deus, e que somente eu sou
Deus, e que você e todos os ímpios apenas me servem." Essa é a
idéia. Esse é o propósito de Deus.
Assim, o propósito se torna que o nome de Deus pode
ser declarado por toda a terra. Esse é o propósito de Deus com
respeito a todos os poderes dos ímpios. Os ímpios não podem dizer:
"Nós também temos poder." Isso foi prometido no paraíso:
"Sereis como Deus" (Gênesis 3:5). Essa voz deve ser
silenciada. O nome de Deus ser declarado por toda a terra.
O justo deve declarar esse nome de Deus de uma dupla
forma. De um lado, devemos dizer que aos ímpios, quando se enfurecem
contra Deus: "Quero que você entenda que foi para este propósito
que Deus te levantou." Esse é o chamado prático da igreja. Lembre-se:
isso não foi dito a Faraó após a sua destruição. Isso foi
dito a ele enquanto ele permanecia em sua rebelião. Moisés teve que
dizer a Faraó, enquanto ele permanecia ali em sua rebelião contra
Deus: "Para este propósito Deus te levantou." A igreja
nunca deve dizer algo diferente para os poderes dos ímpios. É uma
vergonha ao nome de Deus que as igrejas digam aos ímpios: "Ó,
como Deus gostaria que você se achegasse a ele. Por favor, você não
quer vir?" A igreja verdadeira deve dizer aos ímpios, enquanto
eles se enfurecerem contra Deus e a sua igreja: "Para este
propósito Deus te levantou." O tempo virá quando os ímpios
farão à igreja o mesmo que Faraó fez a Israel. O que diremos então?
Devemos dizer: "Para este propósito Deus te levantou." Assim,
pela fé, teremos a vitória.
Por outro lado, o povo de Deus deve sempre confessar:
"Tu tens sido misericordioso para conosco; esse é o motivo de
termos sido salvos." Esse é o porquê essa doutrina não é
contrária ao "quem quiser." É verdade, essa é uma doutrina
dura, mas para quem? Para o ímpio que não se arrepende. Mas não é
dura para aquele que se arrepende. Contudo, quando nos arrependemos,
não devemos dizer: "Fui eu." Antes, devemos dizer: "Foi
Deus quem mostrou misericórdia. Sua é a glória e o louvor para sempre."
E então seu nome será declarado por toda a terra.
Fonte: Righteous by Faith Alone, Herman
Hoeksema, Reformed Free Publishing Association, capítulo 59.
1E-mail
para contato: felipe@monergismo.com.
Traduzido em fevereiro/2007.
2Nota
do tradutor: Na versão do autor, lemos: "Para este mesmo
propósito eu te levantei …" como lemos na passagem de Romanos.
(Para material
Reformado adicional em Português, por favor, clique aqui)