Tomando o Reino por Violência
Prof. Herman Hanko
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1
"E desde os dias de João, o Batista,
até agora, o reino dos céus é tomado a força, e os violentos o
tomam de assalto" (Mt. 11:12, ARA).2
Sobre que tipo de violência e força lemos aqui?
Isso significa que um crente deveria fazer algum esforço para entrar no
reino de Deus? E como isso se ajusta com a salvação pela fé somente,
através da graça somente?
A figura que Jesus usa no texto citado acima é muito
poderosa. Ele está falando nesse discurso de João o Batista, seu
precursor. João ocupou um lugar único na nobre companhia dos profetas.
Ele foi o último dos profetas do Antigo Testamento e situou-se nos dois
testamentos. Ele estava, por assim dizer, com um pé na antiga
dispensação e outro na nova. Esse lugar único de João é a razão do
Senhor dizer que João foi o maior de todos os profetas, sendo todavia o
menor no reino dos céus maior do que ele (v. 11). Essa declaração lhe
dará certa idéia da vasta diferença que aconteceu entre os dois
testamentos quando o Espírito do Cristo assunto [ao céu] foi derramado
em Pentecoste.
A despeito do fato de João situar-se nas duas
dispensações, ele morreu na antiga dispensação e não viu o
amanhecer do novo dia começar em Pentecoste. Assim, seu status na
revelação histórica do propósito de Deus é inferior àquele do
"menor no reino dos céus".
Talvez para entender este lugar único que João
ocupou, possamos usar a figura do reino dos céus como um palácio
magnificente. Na antiga dispensação os santos podiam ver a porta para
o palácio, mas não podiam passar por ela. Ela estava fechada porque
Cristo, que é a "porta" (João 10:9), não tinha vindo ainda.
Contudo, nessa porta havia muitas figuras belas do
reino. Essas figuras eram os tipos da antiga dispensação: os
sacrifícios, o dilúvio, a libertação do Egito, a herança de Canaã,
etc. Elas eram belas figuras, e os santos do Antigo Testamento podiam
aprender um pouco sobre o outro lado da porta olhando para as figuras.
Mas não podiam entrar!
Agora pense em João como aquele que está na frente
da porta. Ao realizar o seu ministério quando apontou para Cristo como
"o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1:29,
36), João, por assim dizer, abriu a fenda da porta. Isso capacitou os
santos no que ainda era o Antigo Testamento a ver um pouco do que estava
por detrás da porta. Quando viram o que estava detrás da porta, eles
ficaram tão impressionados, tão estimulados, tão excitados, que,
podemos dizer, atacaram a porta em sua ansiedade para entrar. Eles não
podiam esperar. Tomaram o reino por violência e força. Eles não
voltariam atrás.
Essa, repito, é uma figura poderosa da atração que
o reino dos céus tem para os crentes. Considere que o grande fardo dos
santos do Antigo Testamento era o seu pecado (cf. Mt. 11:28). Aqueles
cansados e sobrecarregados são os que tinham tentado encontrar perdão
do pecado e salvação nas obras da lei, mas que encontraram somente
futilidade em todo o seu labor, e para quem a lei se tornou um fardo
impossível de suportar. Quão pungente então as palavras do nosso
Senhor: "Vinde a mim…" (v. 28). No reino havia
completo perdão e o esplendor e glória da salvação. Após todos
esses anos de sofrimento duro e ansioso, João abriu a fenda da porta
quando apontou Cristo como a porta. Os santos não podiam ser detidos.
Eles atacaram a porta. Ainda o fazem. Você e eu. Não podemos mais
suportar o fardo do pecado. Corremos para Cristo. Ninguém pode nos
manter longe. O desejo de todo o nosso coração é ser encontrado nele!
Observe, contudo, que usei consistentemente a palavra
"santos" para descrever aqueles que atacam a porta do reino.
Essa palavra específica é a chave para a resposta à nossa segunda
pergunta: "Isso significa que um crente deveria fazer algum
esforço para entrar no reino?".
Tomada ao pé da letra, a resposta a essa pergunta é:
"Sim! Sim, sem dúvida". Jesus diz isso em muitos lugares.
Devemos entrar pela porta estreita. Isso é algo que fazemos. Devemos
negar a nós mesmos e tomar a nossa cruz se quisermos ser discípulos de
Jesus. Nós fazemos isso. Devemos nos tornar como crianças para entrar
no reino. Esse é o nosso chamado e obrigação. Os santos não são e
não podem ser antinomianos, que alegam que não precisam nada senão
sentar com os braços cruzados em suas cadeiras de balanço, e deixar
Deus fazer tudo. Tornamo-nos um povo negligente e profano porque cremos
que a salvação é pela graça somente? Não! Que tipo de santo é esse
(Rm. 6:1ss.)? Que ninguém diga que a fé Reformada ensina tal coisa!
Somente os santos viram através da fenda na
porta e somente eles capturaram um vislumbre das riquezas do outro lado.
Somente os santos atacaram (e ainda atacam) a porta. E, não se
esqueça, os santos são aqueles que já estão no reino: pelo poder da
promessa de Deus na antiga dispensação e pelo Espírito de Cristo na
nova dispensação. Porque são santos, eles foram lavados no sangue de
Cristo, o governador soberano desse reino, que imputa a todos os seus a
justiça que adquiriu na cruz.
Mas eles são santos que pecam, ou pecadores
santificados. E assim, eles (eu e você) devem correr diariamente para
Cristo como um refúgio para o fardo e cansaço dos nossos pecados.
Corremos para Cristo, a porta; vemos a bem-aventurança gloriosa do
reino dos céus; atacamos a porta (com petições ansiosas por perdão
no sangue de Cristo e para obter a bem-aventurança que é encontrada
nesse reino). Tomamos o reino por força.
Até mesmo o ataque do reino pelos santos é mediante
o poder de estar nesse reino, pois é Deus quem opera em nós tanto o
querer como o realizar a sua boa vontade (Fp. 2:12-13). As atividades
nas quais o crente se engaja, capacitado pela graça, são suas ações,
ações pelas quais ele é até mesmo recompensado. Que ninguém diga
que não precisa fazer algo. O mandamento do evangelho ao povo de Deus
é: "Sejam o que Deus fez de vocês!". Ataquem a porta e tomem
o reino por violência! E atravessem a porta, que é Cristo!
Fonte: Covenant
Reformed News, November
2007, Volume XI, Issue 19.
1E-mail
para contato: felipe@monergismo.com.
Traduzido em dezembro/2007.
2"E,
desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino
dos céus, e pela força se apoderam dele". (Mt. 11:12, ACF)
(Para
material Reformado adicional em Português, por favor, clique aqui)