Confissão Belga
Artigo 1:
O ÚNICO DEUS
Todos nós
cremos com o coração e confessamos com a boca que há um só Deus, um
único e simples ser espiritual. Ele é eterno, incompreensíve, invisível,
imutável, infinito, todo-poderoso; totalmente sábio, justo e bom, e
uma fonte muito abundante de todo bem.
Artigo 2:
COMO CONHECEMOS A DEUS
Nós O
conhecemos por dois meios. Primeiro: pela criação, manutenção e
governo do mundo inteiro, visto que o mundo, perante nossos olhos, é
como um livro formoso, em que todas as criaturas, grandes e pequenas,
servem de letras que nos fazem contemplar "os atributos invisíveis
de Deus", isto é, "o seu eterno poder e a sua divindade",
como diz o apóstolo Paulo (Romanos 1:20). Todos estes atributos são
suficientes para convencer os homens e torná-los indesculpáveis.
Segundo: Deus se fez conhecer, ainda mais clara e
plenamente, por sua sagrada e divina Palavra, isto é, tanto quanto nos
é necessário nesta vida, para sua glória e para a salvação dos que
Lhe pertencem.
Artigo 3:
A PALAVRA DE DEUS
Confessamos
que a palavra de Deus não foi enviada nem produzida "por vontade
humana, mas homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito
Santo", como diz o apóstolo Pedro (2 Pedro 1:21).
Depois, Deus, por seu cuidado especial para conosco e
para com a nossa salvação, mandou seus servos, os profetas e os apóstolos,
escreverem sua palavra revelada. Ele mesmo escreveu com o próprio dedo
as duas tábuas da lei.
Por isso, chamamos estas escritas: sagradas e divinas
Escrituras.
Artigo 4:
OS LIVROS CANÔNICOS
A Sagrada
Escritura consiste de dois volumes: O Antigo e o Novo Testamento, que são
canônicos e não podem ser contraditos de forma alquma.
A Igreja de Deus reconhece a lista seguinte:
Os livros do Antigo Testamento:
Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio
(os cinco livros de Moisés); Josué, Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel, 1 e 2
Reis, 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Jó, Salmos, Provérbios,
Eclesiastes, Cantares; Isaías, Jeremias (com Lamentaçoes), Ezequiel,
Daniel (os quatro profetas maiores); Oséias, Joel, Amós, Obadias,
Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias
(os doze profetas menores);
Os livros do Novo Testamento:
Mateus, Marcos, Lucas, João (os quatro evangelistas);
Atos dos Apóstolos; Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios,
Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito,
Filemom (as treze epístolas do apóstolo Paulo); Hebreus, Tiago, 1 e 2
Pedro,1, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse.
Artigo 5:
A AUTORIDADE DA SAGRADA ESCRITURA
Recebemos
todos estes livros, e somente estes, como sagrados e canônicos, para
regular, fundamentar e confirmar nossa fé. Acreditamos, sem dúvida
nenhuma, em tudo que eles contêm, não tanto porque a igreja aceita e
reconhece estes livros como canônicos, mas principalmente porque o Espírito
Santo testifica em nossos corações que eles vêm de Deus, como eles
mesmos provam. Pois até os cegos podem sentir que as coisas, preditas
neles, se cumprem.
Artigo 6:
A DIFERENÇA ENTRE OS LIVROS CANÔNICOS E APOCRIFOS
Distinguimos
estes livros sagrados dos livros apócrifos que são os seguintes: 3 e 4
Esdras, Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, os Acréscimos
ao livro de Ester e Daniel, a Oração de Manassés e 1 e 2 Macabeus.
A igreja pode, sim, ler estes livros e tirar deles
ensino, na medida em que concordem com os livros canonicos. Porém, os
apocrifos não tem tanto poder e autoridade que o testemunho deles possa
confirmar qualquer artigo da fé ou da religião cristã; e muito menos
podem eles diminuir a autoridade dos sagrados livros.
Artigo 7:
A SAGRADA ESCRITURA : PERFEITA E COMPLETA
Cremos que
esta Sagrada Escritura contém perfeitamente a vontade de Deus e
suficientemente ensina tudo o que o homem deve crer para ser salvo. Nela,
Deus descreveu, por extenso, toda a maneira de servi-Lo. por isso, não
e lícito aos homens, mesmo que fossem apóstolos "ou um anjo vindo
do céu", conforme diz o apóstolo Paulo (Gálatas 1:8), ensinarem
outra doutrina, senão aquela da Sagrada Escritura. É proibido "acrescentar
algo a Pa lavra de Deus ou tirar algo dela" (Deuteronômio 12:32;
Apocalipse 22:18,19). Assim se mostra claramente que sua doutrina é
perfeitíssima e, em todos os sentidos, completa].
Não se pode igualar escritos de homens, por mais
santos que fossem os autores, às Escrituras divinas. Nem se pode
igualar à verdade de Deus costumes, opiniões da maioria, instituições
antigas, sucessão de tempos ou de pessoas, ou concílios, decretos ou
resoluções. Pois a verdade está acima de tudo e todos os homens são
mentirosos (Salmo 116:11) e "mais leves que a vaidade" (Salmo
62:9).
Por isso, rejeitamos, de todo o coração, tudo que não
está de acordo com esta regra infalível, conforme os apóstolos nos
ensinaram: "Provai os espíritos se procedem de Deus" (l João
4:1), e: "Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não
o recebais em casa" (2 João :10).
Artigo 8:
A TRINDADE: UM SÓ DEUS, TRÊS PESSOAS
Conforme esta
verdade e esta palavra de Deus, cremos em um só Deus, que é um único
ser, em que há três Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Estas
são, realmente e desde a eternidade, distintas conforme os atributos próprios
de cada Pessoa.
O Pai é a causa, a origem e o princípio de todas as
coisas visíveis e invisíveis. O Filho é o Verbo, a sabedoria e a
imagem do Pai. O Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, é a
eterna força e o poder.
Esta distinção não significa que Deus está
dividido em três. Pois a Sagrada Escritura nos ensina que cada um
destes três, o Pai e o Filho e o Espírito Santo, tem sua própria
existência, distinta por seus atributos, de tal maneira, porém, que
estas três pessoas são um só Deus. É claro, então, que o Pai não
é o Filho e que o Filho não é o Pai; que, também, o Espírito Santo
não é o Pai ou o Filho.
Entretanto, estas Pessoas, assim distintas, não são
divididas nem confundidas entre si. Porque somente o Filho se tornou
homem, não o Pai ou o Espírito Santo. O Pai jamais existiu sem seu
Filho e sem seu Espírito Santo, pois todos os três têm igual
eternidade, no mesmo ser. Não há primeiro nem último, pois todos os
três são um só em verdade, em poder, em bondade e em misericórdia.
Artigo 9:
O TESTEMUNHO DA ESCRITURA SOBRE A TRINDADE
Tudo isto
sabemos tanto pelo testemunho da Sagrada Escritura, como pelas obras das
três Pessoas, principalmente por aquelas que percebemos em nós. Os
testemunhos das Sagradas Escrituras, que nos ensinam a crer nesta
Trindade, se acham em muitos lugares do Antigo Testamento. Não é
preciso alistá-los, somente escolhê-los cuidadosamente. Em Gênesis
1:26 e 27, Deus
diz: "Façamos o homem a nossa imagem, conforme
a nossa semelhança" etc. "Criou Deus, pois, o homem a sua
imagem; homem e mulher os criou".
Assim também em Gênesis 3:22: "Eis que o homem
se tornou como um de nós". Com isto se mostra que há mais de uma
pessoa em Deus, porque Ele
diz: "Façamos o homem a nossa imagem"; e,
em seguida, Ele indica que há um só Deus, quando diz: "Deus criou".
É verdade que Ele não diz quantas pessoas há, mas o que é um tanto
obscuro, para nós, no Antigo Testamento, é bem claro no Novo. Pois
quando nosso Senhor foi batizado no rio Jordão, ouviu-se a voz do Pai,
que falou: "Este é o meu filho amado" (Mateus 3:17); enquanto
o Filho foi visto na água e o Espírito Santo se manifestou em forma de
pomba.
A ém disto, Cristo instituiu, para o batismo de
todos os fiéis, esta forma: Batizai todas as nações "em nome do
Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mateus 28:19). No evangelho
segundo Lucas, o anjo Gabriel diz a Maria, mãe do Senhor: "Descerá
sobre ti o Espírito Santo e o poder do Altíssimo te envolverá com a
sua sombra; por isso também o ente santo que há de nascer, será
chamado Filho de Deus" (Lucas 1:35). Do mesmo modo: "A graça
do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito
Santo sejam com todos vós" (2 Coríntios 13:13). Em todos
estes lugares, nos é ensinado que há três Pessoas em um só ser
divino. E embora esta doutrina ultrapasse o entendimento humano, cremos
nela, baseados na Palavra, e esperamos gozar de seu pleno conhecimento e
fruto no céu.
Devemos considerar, também, a obra própria que cada
uma destas três Pessoas efetua em nós: o Pai é chamado nosso Criador,
por seu poder; o Filho é nosso Salvador e Redentor, por seu sangue; o
Espírito Santo é nosso Santificador, porque habita em nosso coração.
A verdadeira igreja sempre tem mantido esta doutrina
da Trindade, desde os dies dos apóstolos até hoje, contra os judeus,
os muçulmanos e falsos cristãos e hereges como Marcião, Mani, Práxeas,
Sabélio, Paulo de Samósata, Ário e outros. A igreja antiga os
condenou, com toda a razão. por isso, nesta matéria, aceitamos, de boa
vontade, os três Credos ecumênicos, a saber: o Apostólico, o Niceno e
o Atanasiano; e também o que a igreja antiga determinou em conformidade
com estes credos.
Artigo 10:
JESUS CRISTO É DEUS
Cremos que
Jesus Cristo, segundo sua natureza divina, é o único Filho de Deus,
gerado desde a eternidade. Ele não foi feito, nem criado - pois, assim,
Ele seria uma criatura, - mas é de igual substância do pai, co-eterno,
"o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser" (Hebreus
1:3), igual a Ele em tudo.
Ele é o Filho de Deus, não somente desde que
assumiu nossa natureza, mas desde a eternidade, como os seguintes
testemunhos nos ensinam, ao serem comparados uns aos outros:
Moisés diz que Deus criou o mundo, e o apóstolo João
diz que todas as coisas foram feitas por intermédio do Verbo que ele
chama Deus. O apóstolo diz que Deus fez o universo por seu Filho e,
também, que Deus criou todas as coisas por meio de Jesus Cristo.
Segue-se necessariamente que aquele que é chamado Deus, o Verbo, o
Filho e Jesus Cristo, já existia, quando todas as coisas foram criadas
por Ele. O profeta Miquéias, portanto, diz: "Suas origens são
desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade" (Miquéias
5:2); e a carta aos Hebreus testemunha: "Ele não teve princípio
de dias, nem fim de existência" (Hebreus 7:3).
Assim, Ele é o verdadeiro, eterno Deus, o
Todo-poderoso, a quem invocamos, adoramos e servimos.
Artigo 11:
O ESPÍRITO SANTO É DEUS
Cremos e
confessamos, também, que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho,
desde a eternidade. Ele não foi feito, nem criado, nem gerado; mas
procede de ambos.
Na ordem, Ele é a terceira pessoa da Trindade, de
igual substância, majestade e glória do Pai e do Filho, verdadeiro e
eterno Deus, como nos ensinam as Sagradas Escrituras.
Artigo 12:
A CRIACAO DO MUNDO; OS ANJOS
Cremos que o
Pai, por seu Verbo - quer dizer: por seu Filho -, criou, do nada, o céu,
a terra e todas as criaturas, quando bem Lhe aprouvel. A cada criatura
Ele deu sua própria natureza e forma e sua própria função para
servir ao seu Criador. Também, Ele ainda hoje sustenta todas essas
criaturas e as governa segundo sua eterna providencia e por seu infinito
poder, para elas servirem ao homem, a fim de que o homem sirva a seu
Deus.
Ele também criou bons os anjos para serem seus
mensageiros e servirem aos eleitos. Alguns deles caíram na eterna perdição,
da posição excelente em que Deus os tinha criado, mas os outros, pela
graça de Deus, perseveraram e continuaram em sua primeira posição. Os
demonios e os espíritos malignos são tão corrompidos que são
inimigos de Deus e de todo o bem. Como assassinos, com toda a sua força,
estão a espreita da igreja e de cada um de seus membros, para demolir e
destruir tudo com sua astúcia. Por isso, por causa de sua própria malícia,
estão condenados a maldição eterna e aguardam, a cada dia, seus
tormentos terríveis.
Neste ponto, rejeitamos e detestamos o erro dos
saduceus que negam a existência de espíritos e de anjos; também o
erro dos maniqueus que dizem que os demónios têm sua origem em si
mesmos e são maus por natureza; eles negam que os demónios se
corromperam.
Artigo 13:
A PROVIDÊNCIA DE DEUS
Cremos que o
bom Deus, depots de ter criado todas as coisas, não as abandonou, nem
as entregou ao acaso ou a sorte, mas que as dirige e governa conforme
sua santa vontade, de tal maneira que neste mundo nada acontece sem sua
determinação. Contudo, Deus não é o autor, nem tem culpa do pecado
que se comete. Pois seu poder e bondade são tão grandes e incompreensíveis,
que Ele ordena e faz sua obra muito bem e com justiça, mesmo que os demónios
e os ímpios ajam injustamente. E as obras dEle que ultrapassam o
entendimento humano, não queremos investigá-las curiosamente, além da
nossa capacidade de entender. Mas, adoramos humilde e piedosamente a
Deus em seus justos julgamentos, que nos estão escondidos.
Contentamo-nos em ser discípulos de Cristo, a fim de que aprendamos
somente o que Ele nos ensina na sua Palavra, sem ultrapassar estes
limites.
Este ensino nos traz um inexprimível consolo, quando
aprendemos dele, que nada nos acontece por acaso, mas pela determinação
de nosso bondoso Pai celestial. Ele nos protege com um cuidado paternal,
dominando todas as criaturas de tal modo que nenhum cabelo - pois estes
estão todos contados- e nenhum pardal cairão em terra sem o
consentimento de nosso Pai (Mateus 10:29,30). Confiamos nisto, pois
sabemos que Ele reprime os demônios e todos os nossos inimigos, e que
eles, sem sua permissão, não nos podem prejudicar. Por isso,
rejeitamos o detestável erro dos epicureus, que dizem que Deus não se
importa com nada e entrega tudo ao acaso.
Artigo 14:
A CRIAÇÃO DO HOMEM. SUA QUEDA E SUA INCAPACIDADE DE FAZER O BEM
Cremos que
Deus criou o homem do pó da terra, e o fez e formou conforme sua imagem
e semelhança: bom, justo e santo, capaz de concordar, em tudo, com a
vontade de Deus. Mas, quando o homem estava naquela posição excelente,
ele não a valorizou e não a reconheceu. Dando ouvidos às palavras do
diabo, submeteu-se por livre vontade ao pecado e assim à morte e à
maldição. Pois transgrediu o mandamento da vida, que tinha recebido e,
pelo pecado, separou-se de Deus, que era sua verdadeira vida. Assim ele
corrompeu toda a sua natureza e mereceu a morte corporal e espiritual.
Tornando-se ímpio, perverso e corrupto em todas as
suas práticas, ele perdeu todos os dons excelentes, que tinha recebido
de Deus. Nada lhe sobrou destes dons, senão pequenos traços, que são
suficientes para deixar o homem sem desculpa. Pois toda a luz em nós se
tornou em trevas como nos ensina a Escritura: "A luz resplandece
nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela" (João 1:5).
Aqui o apóstolo João chama os homens "trevas". Por isso,
rejeitamos todo o ensino contrário, sobre o livre arbítrio do homem,
porque o homem somente é escravo do pecado e "não pode receber
coisa alguma se do céu não lhe for dada" (João 3:27). Pois quem
se gloriará de fazer alguma coisa boa pela própria força, se Cristo
diz: "Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer"
(João 6:44)? Quem falará sobre sua própria vontade sabendo que "o
pendor da came e inimizade contra Deus" (Romanos 8:7)? Quem ousará
vangloriar-se sobre seu próprio conhecimento, reconhecendo que "o
homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus" (1 Coríntios
2:14)? Em resumo: quem apresentará um pensamento sequer, admitindo que
não somos "capazes de pensar alguma coisa como se partisse de nós",
mas que "a nossa suficiencia vem de Deus" (2 Coríntios 3:5)?
Por isso, devemos insistir nesta palavra do apóstolo:
"Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar,
segundo a sua vontade" (Filipenses 2:13). Pois, somente o
entendimento ou a vontade que Cristo opera no homem, está em
conformidade com o entendimento e vontade de Deus, como Ele ensina:
"Sem mim nada podeis fuzer" (João 15:5).
Artigo 15:
O PECADO ORIGINAL
Cremos que,
pela desobediência de Adão, o pecado original se estendeu por todo o gênero
humanol. Este pecado é uma depravação de toda a natureza humana e um
mal hereditário, com que até as crianças no ventre de suas mães estão
contaminadas. É a raiz que produz no homem todo tipo de pecado. por
isso, é tão repugnante e abominável diante de Deus que é suficiente
para condenar o gênero humano.
Nem pelo batismo o pecado original é totalmente
anulado ou destruído, porque o pecado sempre jorra desta depravação
como água corrente de uma fonte contaminada. 0 pecado original, porém,
não é atribuído aos filhos de Deus para condená-los, mas é perdoado
pela graça e misericórdia de Deus. Isto não quer dizer que eles podem
continuar descuidadamente numa vida pecaminosa. Pelo contrário, os fiéis,
conscientes desta depravação, devem aspirar a livrar-se do corpo
dominado pela morte (Romanos 7:24).
Neste ponto rejeitamos o erro do pelagianismo, que
diz que o pecado é somente uma questão de imitação.
Artigo 16:
ELEIÇÃO ETERNA POR DEUS
Cremos que
Deus, quando o pecado do primeiro homem lançou Adão e toda a sua
descendência na perdiçãol mostrou-se como Ele é, a saber:
misericordioso e justo. Misericordioso, porque Ele livra e salva da
perdição aqueles que Ele em seu eterno e imutável conselho, somente
pela bondade, elegeu em Jesus Cristo nosso Senhor, sem levar em
consideração obra alguma deles. Justo, porque Ele deixa os demais na
queda e perdição, em que eles mesmos se lançaram.
Artigo 17:
O SALVADOR, PROMETIDO POR DEUS
Cremos que
nosso bom Deus, vendo que o homem havia se lançado assim na morte
corporal e espiritual e se havia feito totalmente miserável, foi
pessoalmente em busca do homem, quando este, tremendo, fugia de sua
presençal. Assim Deus mostrou sua maravilhosa sabedoria e bondade. Ele
confortou o homem com a promessa de lhe dar seu Filho, que nasceria de
uma mulher (Gálatas 4:4) a fim de esmagar a cabeca da serpente (Gênesis
3:15) e de tornar feliz o homem.
Artigo 18:
A ENCARNAÇÃO DO FILHO DE DEUS
Confessamos,
então, que Deus cumpriu a promessa, feita aos pais antigos pela boca
dos seus santos profetasl, quando enviou ao mundo seu próprio, único e
eterno Filho, no tempo determinado por Ele. Este assumiu a forma de
servo e tornou-se semelhante aos homens (Filipenses 2:7), tomando
realmente a verdadeira natureza humana com todas as suas fraquezas, mas
sem o pecado. Foi concebido no ventre da bemaventurada virgem Maria,
pelo poder do Espírito Santo, sem intervenção do homem. E não
somente tomou a natureza humana quanto ao corpo, mas também a
verdadeira alma humana, para que fosse um verdadeiro homem. Pois,
estando perdidos tanto a alma como o corpo, Ele devia tomar ambos para
salvá-los.
Por isso, confessamos (contra a heresia dos
anabatistas que negam que Cristo tomou a natureza de sua mãe), que
Cristo participou do sangue e da carne dos filhos de Deus (Hebreus
2:14); que Ele, "segundo a carne, veio da descendência de Davi"
(Romanos 1:3); fruto do ventre de Maria (Lucas 1:42); nascido de uma
mulher (Gálatas 4:4); rebento de Davi (Jeremias 33:15; Atos 2:30);
renovo da raiz de Jessé (Isaías 11:1); brotado de Judá (Hebreus
7:14); descendente dos judeus, segundo a carne (Romanos 9:5); da descendência
de Abraão6, tornando-se semelhante aos irmãos em tudo, mas sem pecado
(Hebreus 2:16,17; 4:15).
Assim Ele é, na verdade, nosso Emanuel, isto é:
Deus conosco (Mateus 1:23).
Artigo 19:
AS DUAS NATUREZAS DE CRISTO
Cremos que,
por esta concepção, a pessoa do Filho está unida e conjugada
inseparavelmente, com a natureza humana1. Não há, então, dois filhos
de Deus, nem duas pessoas, mas duas naturezas, unidas numa só pessoa,
mantendo cada uma delas suas características distintas. A natureza
divina permaneceu não criada, sem início, nem fim de vida (Hebreus
7:3), preenchendo céu e terra. Do mesmo modo a natureza humane não
perdeu suas características, mas permaneceu criatura, tendo início,
sendo uma natureza finita e mantendo tudo o que é próprio de um
verdadeiro corpo. E ainda que, por meio da sua ressurreição, Cristo
tenha concedido imortalidade a sua natureza humana, Ele não transformou
a realidade da mesma, pois nossa salvação e ressurreição dependem
também da realidade de seu corpo.
Estas duas naturezas, porém, estão unidas numa só
pessoa de tal maneira que nem por sua morte foram separadas. Ao morrer,
Ele entregou, então, nas mãos de seu Pai um verdadeiro Espírito
humano, que saiu de seu corpo6, entretanto, a natureza divina sempre
continuou unida a humana, mesmo quando Ele jazia no sepulcro. A
divindade não cessou de estar nEle, assim como estava nEle quando era
criança, embora, por algum tempo, não se tivesse manifestado.
Por isso, confessamos que Cristo é verdadeiro Deus e
verdadeiro homem: verdadeiro Deus a fim de veneer a morte por seu poder;
verdadeiro homem a fim de morrer por nós na fraqueza de sua carne.
Artigo 20:
A JUSTIÇA E A MISERICÓRDIA DE DEUS EM CRISTO
Cremos que
Deus, perfeitamente misericordioso e justo, enviou seu Filho para
assumir a natureza humane em que foi cometida a desobediência. Nesta
natureza, Ele satisfez a Deus, carregando o castigo pelos pecados, através
de seu mui amargo sofrimento e morte. Assim Deus provou sua justiça
sobre seu Filho, quando carregou sobre Ele nossos pecados e derramou sua
bondade e misericórdia sobre nós, culpados e dignos da condenação.
Por amor perfeitíssimo, Ele entregou seu Filho a morte, por nós, e O
ressuscitou para nossa justificação4, a fim de que, por Ele, tivéssemos
a imortalidade e a vida eterna.
Artigo 21:
A SATISFAÇÃO POR CRISTO
Cremos que
Jesus Cristo é um eterno Sumo Sacerdote, segundo a ordem de
Melquisedeque, o que Deus confirmou por juramentol. Perante seu Pai e
para apaziguar-Lhe a ira, Ele se apresentou em nosso nome, por satisfação
própria, sacrificando-se a si mesmo e derramando seu precioso sangue,
para purificação dos nossos pecados, conforme os profetas predisseram.
Pois, está escrito que "o castigo que nos traz
a paz estava sobre " o Filho de Deus e que "pelas suas
pisaduras fomos sarados"; "como cordeiro foi levado ao
matadouro"; "foi contado com os transgressores" (Isaías
53: 5,7,12); e como criminoso foi condenado por Pôncio Pilatos embora
este o tivesse declarado inocente. Assim, então, restituiu o que não
tinha furtado (Salmo 69:4), e sofreu, "o justo pelos injustos"
(l Pedro 3:18), tanto no seu corpo como na sua alma, de maneira que
sentiu o terrível castigo que os nossos pecados mereceram. Assim "o
seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra "
(Lucas 22:44). Ele "clamou em alta voz: Deus meu, Deus meu, por que
me desamparaste?" (Mateus 27:46) e padeceu tudo para a remissão
dos nossos pecados.
Por isso, dizemos, com razão, junto com Paulo que não
sabemos outra coisa, "senão Jesus Cristo, e este crucificado"
(1 Corlntios 2:2). Consideramos "tudo como perda por causa da
sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus", nosso Senhor (Filipenses
3:8). Encontramos toda consolação em seus ferimentos e não precisamos
buscar ou inventar qualquer outro meio para nos reconciliarmos com Deus,
"porque com uma única oferta aperfeicoou para sempre quantos estão
sendo santificados, (Hebreus 10:14). Por isso, o anjo de Deus O chamou
Jesus, quer dizer: Salvador, porque ia salver "o seu povo dos
pecados deles " (Mateus 1:21).
Artigo 22:
A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ EM CRISTO
Cremos que,
para obtermos verdadeiro conhecimento desse grande mistério, o Espírito
Santo acende, em nosso coração, verdadeira fé. Esta fé abraça Jesus
Cristo com todos os seus méritos, apropria-se dEle e nada mais busca
fora dEle. Pois das duas, uma: ou não se ache em Jesus Cristo tudo o
que é necessário para nossa salvação, ou tudo se acha nEle, e, então,
aquele que possui Jesus Cristo pela fé, tem a salvação completa.
Dizer porém que Cristo não é suficiente, mas que, além dEle, algo
mais é necessário, significaria uma blasfêmia horrível. Pois Cristo
seria apenas um salvador incompleto.
Por isso, dizemos, com razão, junto com o apóstolo
Paulo, que somos justificados somente pela fé, ou pela fe sem as obras
(Romanos 3:28). Entretanto, não entendemos isto como se a própria fé
nos justificasse5, mas ela é somente o instrumento com que abraçamos
Cristo, nossa justiça. Mas Jesus Cristo, atribuindo-nos todos os seus méritos
e tantas obras santas, que fez por nós e em nosso ugar, é nossa justiça6.
E a fé é o instrumento que nos mantém com Ele na comunhão de todos
os seus benefícios. Estes, uma vez dados a nós, são mais que
suficientes para nos absolver dos pecados.
Artigo 23:
NOSSA JUSTIÇA PERANTE DEUS EM CRISTO
Cremos que
nossa verdadeira felicidade consiste no perdão dos pecados, por causa
de Jesus Cristo, e que isto significa para nós a justiça perante Deusl.
Assim nos ensinam Davi e Paulo, declarando: "Bem-aventurado o homem
a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras" (Romanos
4:6; Salmo 32:2). E o mesmo apóstolo diz que somos "justificados
gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo
Jesus" (Romanos 3: 24).
Portanto, perseveramos neste fundamento, dando toda a
glória a Deus, humilhando-nos e reconhecendo que nós, homens, somos
maus. Não nos vangloriamos, de nenhuma maneira, de nós mesmos ou de
nossos méritos. Somente nos apoiamos e repousamos na obediência do
Cristo crucificado. Esta obediência é nossa se cremos nEle. Ela é
suficiente para cobrir todas as nossas iniqüidades. Ela liberta nossa
consciência de temor, perplexidade e espanto e, assim, nos dá ousadia
de aproximarmo-nos de Deus, sem fazermos como nosso primeiro pai Adão
que, tremendo, quis cobrir-se com folhas de figueira. E, certamente, se
tivéssemos que comparecer perante Deus, apoiando-nos, por pouco que
fosse, em nós mesmos ou em qualquer outra criatura - ai de nós -,
pereceríamos. Por isso, cada um deve dizer com Davi: "Ó Senhor, não
entres em juízo com o teu servo, porque a tua vista não há justo
nenhum vivente" (Salmo 143:2).
Artigo 24:
A SANTIFICAÇÃO
Cremos que a
verdadeira fé, tendo sido acesa no homem pelo ouvir da Palavra de Deus
e pela obra do Espírito Santol, regenera o homem e o torna um homem
novo. Esta verdadeira fé o faz viver na vida nova e o liberta da
escravidão do pecado.
Por isso, é impossível que esta fé justificadora
leve os homens a se descuidarem da vida piedosa e santa. Pelo contrário,
sem esta fé jamais farão alguma coisa por amor a Deus, mas somente por
amor a si mesmos e por medo de serem condenados. É impossível,
portanto, que esta fé permaneça no homem sem frutos. Pois, não
falamos de uma fé vã, mas da fé, de que a Escritura diz que "atua
pelo amor" (Gálatas 5:6). Ela move o homem a exercitar-se nas
obras que Deus mandou na sua Palavra. Estas obras, se procedem da boa raíz
da fé; são boas e agradáveis a Deus, porque todas elas são
santificadas por sua graça.
Entretanto, elas não são levadas em conta para nos
justificar. Porque é pela fé em Cristo que somos justificados, mesmo
antes de fazermos boas obras. De outro modo, estas obras não poderíam
ser boas, assim como o fruto da árvore não pode ser bom, se a árvore
não for boa.
Então, fazemos boas obras, mas não para merecermos
algo. Pois, que mérito poderíamos ter? Antes, somos devedores a Deus
pelas boas obras que fazemos e não Ele a nós. Pois, "Deus e quem
efetua em" nós "tanto o querer como o realizar, segundo sua
boa vontade" (Filipenses 2:13). Então, lev emos a sério o que está
escrito: "Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos
foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que
devíamos fazer" (Lucas 17:10). Contudo, não queremos negar que
Deus recompensa as boas obras; mas, por sua graça, Ele coroa seus próprios
dons.
E, em seguida, mesmo que façamos boas obras, nelas não
fundamentamos nossa salvação. Porque, por sermos pecadores, não
podemos fazer obra alguma que não esteja contaminada e não mereça ser
castigada. E, ainda que pudéssemos produzir uma só boa obra, a lembrança
de um só pecado bastaria para torná-la rejeitável perante Deusll.
Assim, sempre duvidaríamos, levados de um lado para o outro, sem
certeza alguma, e nossa pobre consciência estaria sempre aflita, a não
ser que se apoiasse no mérito do sofrimento e da morte de nosso
Salvador.
Artigo 25:
CRISTO, O CUMPRIMENTO DA LEI
Cremos que as
cerimônias e figuras da lei terminaram com a vinda de Cristo e que,
assim, todas as sombras chegaram ao fim. Por isso, os cristãos não
devem mais usá-las. Contudo, para nós, sua verdade e substância
permanecem em Cristo Jesus, em quem têm seu cumprimento.
Entretanto, ainda usamos os testemunhos da Lei e dos
Profetas para confirmarmo-nos no Evangelho e, também, para regularmos
nossa vida em toda honestidade, para a glória de Deus, conforme sua
vontade.
Artigo 26:
CRISTO, NOSSO ÚNICO ADVOGADO
Cremos que
nenhum acesso temos a Deus, senão pelo único Mediador e Advogado Jesus
Cristo, o Justo. Porque Ele se tornou homem e uniu as naturezas divina e
humana, para que nós, homens, tivéssemos acesso à majestade divina.
De outro modo, nenhum acesso teríamos. Mas este Mediador que o Pai
constituiu entre Ele e nós, não nos deve assustar por sua grandeza, a
ponto de fazer-nos procurar um outro, conforme nossa própria vontade.
Porque não há ninguém , nem no céu, nem na terra, entre as criaturas,
que nos ame mais que Jesus Cristo. "Pois ele, subsistindo em forma
de Deus ... a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se
em semelhança de homens" por nós, "em todas as coisas ...
semelhante aos irmãos" (Filipenses 2:6,7; Hebreus 2:17).
Agora, se tivéssemos que buscar outro mediador que
nos fosse favorável, quem poderíamos encontrar que mais nos amasse senão
Ele que entregou sua vida por nós, sendo nós ainda inimigos (Romanos
5:8,10)? E se tivéssemos que buscar alguém que tivesse poder e estima,
quem os teria tanto quanto Ele que está sentado a direita de seu Pai, e
que tem "toda a autoridade... no céu e na terra" (Mateus
28:18)? E quem será ouvido antes do que o próprio bem-amado Filho de
Deus?
Foi, então, somente falta de confiança que levou os
homens ao costume de desonrar os santos em vez de honrá-los. Pois fazem
o que estes santos jamais fizeram ou desejaram mas sempre rejeitaram
conforme era seu dever, como mostram seus escritos.
Aqui não se deve alegar que não somos dignos; pois
não apresentamos as orações a Deus em razão de nossa dignidade, mas
somente pela excelência e dignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, cuja
justiça é a nossa, mediante a fé. Por isso, a Escritura nos diz,
querendo tirar de nós esse tolo receio, ou antes, essa falta de confiança,
que Jesus Cristo tornou-se "em todas as coisas ... semethante aos
irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas
referentes a Deus, e para fazer propiciação pelos pecados do povo.
Pois naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para
socorrer os que são tentados" (Hebreus 2:17,18). E a Escritura diz
também, para animar-nos ainda mais a ir para Ele: "Tendo, pois, a
Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que entrou nos céus,
conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote
que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, antes foi ele tentado
em todas as coisas, a nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos,
portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos
misericordia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna" (Hebreus
4:14-16). A Escritura diz ainda: "Tendo, pois, irmãos, intrepidez
para entrar no Santo dos santos, pelo sangue de Jesus... aproximemo-nos...
em plena certeza de fé etc." (Hebreus 10:19-22). E também: Cristo
"tem o seu sacerdócio imutável. Por isso, também pode salvar
totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para
interceder por eles " (Hebreus 7:24,25).
Então, do que precisamos mais, visto que o próprio
Cristo declara: "Eu sou o camninho, e a verdade, e a vida; ninguém
vem ao Pai senão por mim" (João 14:6)? Por que buscaríamos outro
advogado visto que agradou a Deus nos dar seu Filho como Advogado? Não
O abandonemos para buscar outro que nunca encontraremos. Pois quando
Deus O deu a nós, bem sabia que éramos pecadores.
Por isso, conforme o mandamento de Cristo, invocamos
o Pai celestial mediante Cristo, nosso únicoMediador, como nos foi
ensinado na oração do Senhor. E temos a certeza de que o Pai nos
concederá tudo o que Lhe pedirmos em nome de Cristol4 (João 16:23).
Artigo
27:A IGREJA CATÓLICA OU UNIVERSAL
Cremos e
confessamos uma só igreja católica ou universal. Ela é uma santa
congregação e assembléia dos verdadeiros crentes em Cristo, que
esperam toda a sua salvação de Jesus Cristo3, lavados pelo sangue dEle,
santificados e selados pelo Espírito Santo.
Esta igreja existe desde o princípio do mundo e
existirá até o fim. Pois, Cristo é um Rei eterno, que não pode estar
sem súditos. Esta santa igreja é mantida por Deus contra o furor do
mundo inteiro, mesmo que ela, às vezes, por algum tempo, seja muito
pequena e na opinião dos homens, quase desaparecida. Assim, Deus
guardou para si, na perigosa época de Acabe, sete mil homens, que não
tinham dobrado os joelhos a Baal.
Esta santa igreja também não está situada, fixada
ou limitada em certo lugar, ou ligada a certas pessoas, mas ela está
espalhada e dispersa pelo mundo inteiro. Contudo, está integrada e
unida, de coração e vontade, no mesmo Espírito, pelo poder da fé.
Artigo 28:
O DEVER DE JUNTAR-SE À IGREJA
Esta santa
assembléia é a congregação daqueles que são salvos, e fora dela não
há salvação. Cremos, então, que ninguém, qualquer que seja a posição
ou qualidade, deve viver afastado dela e contentar-se com sua própria
pessoa. Mas cada um deve se juntar e se reunir a ela, mantendo a unidade
da igreja, submetendo-se a sua instrução e disciplina, curvando-se
diante do jugo de Jesus Cristo e servindo para a edificação dos irmãos,
conforme os dons que Deus concedeu a todos, como membros do mesmo corpo.
Para observar melhor tudo isto, o dever de todos os
fiéis é, conforme a Palavra de Deus, separar-se daqueles que não
pertencem a igreja, e juntar-se a esta assembléia em todo lugar onde
Deus a tenha estabelecido. Este dever deve ser cumprido, mesmo que os
governos e as leis das autoridades o contrariem e mesmo que a morte ou a
pena corporal sejam a consequência disto.
Por isso, todos os que se separam desta igreja ou não
se juntam a ela, contrariam a ordem de Deus.
Artigo 29:
AS MARCAS DA VERDADEIRA IGREJA, DE SEUS MEMBROS E DA FALSA IGREJA
Cremos que se
deve discernir diligentemente e com muito cuidado, pela Palavra de Deus,
qual é a verdadeira igreja, visto que todas as seitas, que atualmente
existem no mundo, se chamam igreja, mas sem razão. Não falamos aqui
dos hipócritas que, na igreja, se acham entre os sinceros fiéis;
contudo, não pertencem à igreja, embora sejam membros dela. Mas
queremos dizer que se deve distinguir o corpo e a comunhão da
verdadeira igreja, de todas as seitas que se dizem igreja.
As marcas para conhecer a verdadeira igreja são
estas: ela mantém a pura pregação do Evangelho, a pura administração
dos sacramentos como Cristo os instituiu, e o exercício da disciplina
eclesiástica para castigar os pecados. Em resumo: ela se orienta
segundo a pura Palavra de Deus, rejeitando todo o contrário a esta
Palavra e reconhecendo Jesus Cristo como o único Cabeça. Assim, com
certeza, se pode conhecer a verdadeira igreja; e a ninguém convém
separar-se dela.
Aqueles que pertencem à igreja podem ser conhecidos
pelas marcas dos cristãos, a saber: pela fé e pelo fato de que eles,
tendo aceitado Jesus Cristo como único Salvador, fogem do pecado e
seguem a justiça, amando Deus e seu próximo, não se desviando para a
direita nem para a esquerda e crucificando a carne, com as obras dela.
Isto não quer dizer, por ém , que eles não têm ainda grande fraqueza,
mas, pelo Espírito, a combatem, em todos os dias de sua vida , e sempre
recorr em ao sangue, à morte, ao sofrimento e à obediência do Senhor
Jesus. NEle eles têm a remissão dos pecados, pela fé.
Quanto à falsa igreja, ela atribui mais poder e
autoridade a si mesma e a seus regulamentos do que à Palavra de Deus e
não quer submeter-se ao jugo de Cristo. Ela não administra os
sacramentos como Cristo ordenou em sua Palavra, mas acrescenta ou
elimina o que lhe convém. Ela se baseia mais nos homens que em Cristo.
Ela persegue aqueles que vivem de maneira santa, conforme a Palavra de
Deus, e que lhe repreendem os pecados, a avareza e a idolatria.
É fácil conhecer estas duas igrejas e distingui-las
uma da outra.
Artigo 30:
O GOVERNO DA IGREJA
Cremos que
esta verdadeira igreja deve ser governada conforme a ordem espiritual,
que nosso Senhor nos ensinou na sua Palavra. Deve haver ministros ou
pastores para pregarem a Palavra de Deus e administrarem os sacramentos;
deve haver também presbíteros e diaconos para formarem, com os
pastores, o conselho da igreja. Assim, eles devem manter a verdadeira
religião e fazer com que a verdadeira doutrina seja propagada, que os
transgressores sejam castigados e contidos, de forma espiritual, e que
os pobres e os aflitos recebam ajuda e consolação, conforme necessitam.
Desta maneira, tudo procederá, na igreja, em boa
ordem, quando forem eleitas pessoas fiéis, conforme a regra do apóstolo
Paulo na carta a Timóteo.
Artigo 31:
OS OFÍCIOS NA IGREJA
Cremos que os
ministros da palavra de Deus, os presbíteros e os diáconos devem ser
escolhidos para seus ofícios.mediante eleição legítima pela igreja,
sob invocação do nome de Deus e em boa ordem, conforme a palavra de
Deus ensina.
Por isso, cada membro deve cuidar para não se
apoderar do ofício por meios ilícitos, mas deve esperar a hora em que
é chamado por Deus, a fim de ter, assim, a certeza de que sua vocação
vem do Senhor.
Quanto aos ministros da Palavra, eles têm, onde quer
que estejam, igual poder e autoridade, porque todos são servos de Jesus
Cristo, o único Bispo universal e o único Cabeça da igreja.
Além disto, a santa ordem de Deus não pode ser
violada ou desprezada. Dizemos, portanto, que cada um deve ter respeito
especial pelos ministros da Palavra e presbíteros da igreja, em razão
do trabalho que realizam. Cada um deve viver em paz com eles, tanto
quanto possível, sem murmuração, contenda ou discórdia.
Artigo 32:
A ORDEM E A DISCIPLINA DA IGREJA
Cremos que os
que governam a igreja devem cuidar para não se desviarem do que Cristo,
nosso único Mestre, nos ordenou; embora seja útil e bom que, entre
eles, se estabeleça e conserve determinada ordem para manter o corpo da
igreja.
Por isso, rejeitamos todas as invenções humanas e
todas as leis que se queiram introduzir para servir a Deus, mas que
venham, de qualquer maneira, comprometer e constranger a consciência.
Aceitamos, então, somente o que serve para promover e guardar a concórdia
e a unidade e para manter tudo na obediência a Deus.
Esta ordem (caso desobedecida exige a excomunhão),
feita conforme a Palavra de Deus, com todas as suas conseqüências.
Artigo 33:
OS SACRAMENTOS
Cremos que
nosso bom Deus, atento à nossa ignorância e fraqueza, instituiu os
sacramentos, a fim de nos selar suas promessas e nos conceder penhores
de sua benevolência e graça para conosco e, também, alimentar e
sustentar nossa fé1. Ele acrescentou os sacramentos à palavra do
Evangelho para melhor apresentar aos nossos sentidos tanto o que Ele nos
declara por sua Palavra, como o que Ele opera em nossos coraçoes.
Assim, Ele confirma a salvação de que nos fez
participar. Pois os sacramentos são visíveis sinais e selos de uma
realidade interna e invisível. Através deles, Deus opera em nós, pelo
poder do Espírito Santo. Por isso, os sinais não são vãos nem vazios
para nos enganar, porque Jesus Cristo é a verdade deles e, sem Ele,
nada seriam.
Além disto, nos contentamos com o número dos
sacramentos que Cristo, nosso Mestre, instituiu e que não são mais de
dois: o sacramento do batismo4 e o da santa ceia de Jesus Cristo.
Artigo 34:
O SANTO BATISMO
Cremos e
confessamos que Jesus Cristo, o qual é "o fim da lei" (Romanos
10:4), derramando seu sangue, acabou com qualquer outro derramamento de
sangue, que se possa ou queira realizar para reconciliação dos pecados.
Tendo abolido a circuncisão, que se praticava com sangue, Ele instituiu,
em lugar dela, o sacramento do batismo.
Pelo batismo somos recebidos na igreja de Deus e
separados de todos os outros povos e outras religiões para pertencermos
totalmente a Ele, tendo sua marca e estandarte. O batismo nos serve para
testemunhar que Ele eternamente será nosso Deus e misericordioso Pai.
Por isso, Cristo mandou batizar todos os seus "em
nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mateus 28:19),
somente com água. Desta forma Ele nos dá a entender que assim como a
água tira a impureza do corpo, quando derramada em nós, e também
assim como a água é vista no corpo de quem recebe o batismo, assim o
sangue de Cristo, através do Espírito Santo, lava a alma, purificando-a
dos pecados, e faz com que nós, filhos da ira nasçamos de novo para
sermos filhos de Deus.
Porém, não somos purificados de nossos pecados pela
água do batismo, mas pela aspersão com o precioso sangue do Filho de
Deus. Ele é nosso Mar Vermelho, que devemos atravessar para escapar da
tirania de Faraó - que é o diabo - e para entrar na Canaã espiritual.
Os ministros, por sua parte, nos administram somente
o sacramento, que é visível, mas nosso Senhor nos concede o que o
sacramento significa, a saber: os dons invisíveis da graça. Ele lava
nossa alma, purificando-a e limpando-a de todas as impurezas e iniqüidades.
Ele renova nosso coração, enchendo-o de toda a consolação, e nos dá
a verdadeira certeza de sua bondade paternal. Ele nos reveste do novo
homem, despindo-nos do velho com todas as suas obras .
Por isso, cremos que quem quer entrar na vida eterna,
deve ser batizado só uma vez. O batismo não pode ser repetido, porque
também não podemos nascer duas vezes e porque este batismo tem
utilidade não somente no momento de recebê-lo, mas durante a vida
inteira.
Rejeitamos, portanto, o erro dos anabatistas, que não
se contentam com o batismo que uma vez receberam e que, além disto,
condenam o batismo dos filhos pequenos dos crentes. Nós cremos, porém,
que eles devem ser batizados e, com o sinal da aliança, devem ser
selados, assim como as crianças em Israel eram circuncidadas com base
nas mesmas promessas que foram feitas a nossos filhos. Cristo, de fato,
derramou seu sangue para lavar, igualmente, as crianças dos fiéis e os
adultos. Por isso, elas devem receber o sinal e o sacramento da obra que
Cristo fez para elas, como o Senhor, outrora, na lei, determinava que as
crianças p.articipassem, pouco depois do seu nascimento, do sacramento
do sofrimento e da morte de Cristo, através da oferta de um cordeiro,
que era um sacramento de Jesus Cristo.
Além disto, o batismo tem, para nossos filhos, o
mesmo efeito que a circuncisão tinha para o povo judeu. É por esta razão
que o apóstolo Paulo chama ao batismo: "a circuncisão de Cristo"
(Colossenses 2:11).
Artigo 35:
A SANTA CEIA
Cremos e
confessamos que nosso Salvador Jesus Cristo ordenou e instituiu o
sacramento da santa ceia, a fim de alimentar e sustentar aqueles que Ele
já fez nascer de novo e incorporou à sua família, que é a sua igreja.
Agora, aqueles que nasceram de novo têm duas vidas
diferentes. Uma é corporal e temporária: eles a trouxeram de seu
primeiro nascimento e todos os homens a tem. A outra é espiritual e
celestial: ela lhes é dada no segundo nascimentp que se realiza pela
palavra do Evangelho, na comunhão com o corpo de Cristo. Esta vida
apenas os eleitos de Deus possuem. Assim Deus ordenou para a manutenção
da vida corporal e terrestre, pão comum, terrestre, que todos recebem
como recebem a vida.
Porém, a fim de manter a vida espiritual e
celestial, que os crentes possuem, Ele lhes enviou um "pão vivo,
que desceu do céu" (João 6:51) , isto é, Jesus Cristo. Ele
alimenta e mantém a vida espiritual dos crentes quando é comido, quer
dizer: aceito espiritualmente e recebido pela fé.
A fim de nos figurar este pão espiritual e
celestial, Cristo ordenou um pão terrestre e visível como sacramento
de seu corpo e o vinho como sacramento de seu sangue. Com eles nos
assegura: tão certo como recebemos o sacramento e o temos em nossas mãos
e o comemos e bebemos com nossa boca, para manter nossa vida, tão certo
recebemos em nossa alma pela fé - que é a mão e a boca da nossa alma
-, o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo, nosso único
Salvador, para manter nossa vida espiritual.
Agora, há certeza absoluta de que Jesus Cristo não
nos ordenou seus sacramentos a toa. Então, Ele realiza em nós tudo o
que nos apresenta por estes santos sinais, embora de maneira além da
nossa compreensão, como também a ação do Espírito Santo é oculta e
incompreensível.
Entretanto, não nos enganamos, dizendo que, o que
comemos e bebemos, é o próprio corpo natural e o próprio sangue de
Cristo. Porém, a forma pela qual os tomamos não é pela boca, mas,
espiritual, pela fé. Desta maneira, Jesus Cristo permanece sentado a
direita de Deus, seu Pai, no céu e, contudo, Ele se comunica a nós
pela fé. Nesta ceia festiva e espiritual, Cristo nos faz participar de
si mesmo com todas as suas riquezas e dons e deixa-nos usufruir tanto de
si mesmo como dos méritos de seu sofrimento e morte. Ele alimenta,
fortalece e consola nossa pobre alma desolada pelo comer de seu corpo, e
a reanima e renova pelo beber de seu sangue.
Depois, embora os sacramentos estejam unidos com a
realidade da qual são um sinal, nem todos recebem ambos. O ímpio
recebe, sim, o sacramento, para sua condenação, mas não a verdade do
sacramento, como Judas e Simão, o Mago: ambos receberam o sacramento,
mas não a Cristo que por este é figurado. Porque somente os crentes
participam dEle.
Finalmente, recebemos na congregação do povo de
Deus este santo sacramento com humildade e reverência. Assim
comemoramos juntos, com ações de graça, a morte de Cristo, nosso
Salvador, e fazemos confissão da nossa fé e da religião cristã. Por
isto, ninguém deve participar da ceia antes de ter-se examinado a si
mesmo, da maneira certa, para, enquanto comer e beber, não comer e
beber juízo para si (lCoríntios 11:28,29). Em resumo, somos movidos,
pelo uso deste santo sacramento, a um ardente amor para com Deus e nosso
próximo.
Por esta razão rejeitamos como profanação dos
sacramentos todos os acréscimos e abomináveis invenções que o homem
introduziu neles e misturou com eles. E declaramos que se deve contentar
com a ordenação que Cristo e seus apóstolos nos ensinaram e falar
sobre os sacramentos conforme eles falaram.
Artigo 36:
O OFÍCIO DAS AUTORIDADES CIVIS
Cremos que
nosso bom Deus, por causa da per versidade do gênero humano, constituiu
reis, governos e autoridades. Ele quer que o mundo seja governado por
leis e códigos, para que a indisciplina dos homens seja contida e tudo
ocorra entre eles em boa ordem. Para este fim Ele forneceu às
autoridades a espada para castigar os maus e proteger os bons (Romanos
13:4).
Seu ofício não é apenas cuidar da ordem pública e
zelar por ela, mas também proteger o santo ministério da igreja a fim
de * promover o reino de Jesus Cristo e a pregação da Palavra do
Evangelho em todo lugar, para que Deus seja honrado e servido por todos,
como Ele ordena na sua Palavra.
Depois, cada um, em qualquer posição que esteja,
tem a obrigação de submeter-se às autoridades, pagar impostos,
render-lhes honra e respeito, obedecer-lhes em tudo o que não contraria
a Palavra de Deus, e orar em favor delas para que Deus as guie em todos
os seus caminhos, "para que vivamos vida tranqüila e mansa com
toda piedade e respeito" (lTimóteo 2:2).
Neste assunto rejeitamos os anabatistas e outros
revolucionários e em geral todos os que se opõem às autoridades e aos
magistrados, e querem derrubar a ordem judicial, introduzindo a comunhão
de bens, e que abalam os bons costumes que Deus estabeleceu entre as
pessoas.
Artigo 37:
O JUÍZO FINAL
Finalmente,
cremos conforme a palavra de Deus que, quando chegar o momento
determinado pelo Senhor - o qual todas as criaturas desconhecem -, e o número
dos eleitos estiver completo, nosso Senhor Jesus Cristo virá do céu,
corporal e visívelmente, assim como subiu ao céu (Atos 1:11), com
grande glória e majestade. Ele se manifestará Juiz sobre vivos e
mortos, enquanto porá em fogo e chamas este velho mundo para purificá-lo.
Naquele momento comparecerão perante este grande
Juiz, pessoalmente, todas as pessoas que viveram neste mundo: homens,
mulheres e crianças, citados pela voz do arcanjo e pelo som da trombeta
divina (1Tessalonicenses 4:16). Porque todos os mortos ressuscitarão da
terra e as almas serão reunidas aos seus próprios corpos em que
viveram. E a respeito daqueles que ainda estiverem vivos: eles não
morrerão como os outros, mas serão transformados num só momento. De
corruptíveis se tornarão incorruptíveis.
Então, se abrirão os livros e os mortos serão
julgados (Apocalipse 20:12), segundo o que tiverem feito neste mundo,
seja o bem ou o mal (2Coríntios 5:10). Sim, "de toda palavra frívola
que proferirem os homens, dela darão conta" (Mateus 12:36), mesmo
que o mundo a considere apenas brincadeira e passatempo. Assim será
trazido à luz diante de todos o que os homens praticaram às escondidas,
inclusive sua hipocrisia.
Portanto, pensar neste juízo e realmente horrível e
pavoroso para os homens maus e ímpios, mas muito desejável e
consolador para os justos e eleitos. A salvação destes será
totalmente completada e eles receberão os frutos de seu penoso labor.
Sua inocência será reconhecida por todos e eles presenciarão a vingança
terrível de Deus contra os ímpios, que os tiranizaram, oprimiram e
atormentaram neste mundo. Os ímpios serão levados a reconhecer sua
culpa pelo testemunho da própria consciência. Eles se tornarão
imortais, mas somente para serem atormentados no "fogo eterno,
preparado para o diabo e seus anjos " (Mateus 25:41).
Os crentes e eleitos, porém, serão coroados com glória
e honra. O Filho de Deus confessará seus nomes diante de Deus, seu Pai
(Mateus 10:32), e seus anjos eleitos e Deus "lhes enxugará dos
olhos toda lagrima" (Apocalipse 21:4). Assim ficará manifesto que
a causa deles, que agora por muitos juízes e autoridades está sendo
condenada como herética e ímpia, é a causa do Filho de Deus. E, como
recompensa gratuita, o Senhor os fará possuir a glória que jamais
poderia surgir no coração de um homem.
(Para material
Reformado adicional em Português, por favor, clique aqui)