A Soberania de Deus na Salvação
Rev. Steven R. Houck
Tradução: Felipe Sabino
de Araújo Neto
Prefácio
O apóstolo Paulo nos exorta, "aquele que se
gloria glorie-se no Senhor" (I Coríntios 1:31). Este é o dever
fundamental de todo homem. Devemos nos gloriar em Deus,
não em nós mesmos. O homem é pronto por natureza a se gloriar de seu
poder e capacidade, de suas obras e vontade; mas ele não deve agir
assim. Porque nós não temos nada do que se
gloriar. De nós mesmos, somos nada e até menos do que nada (Isaías
40:17). Tudo que somos é nos dado por Deus. "Ele (Deus) mesmo é
quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas … Porque
nele vivemos, e nos movemos, e existimos …" (Atos 17:25, 28). Se
for para nos gloriarmos, devemos nos gloriar na grandeza e no poder de
Deus, em auas obras e caminhos. Somos admoestados: "Cantai-lhe (a
Deus), cantai-lhe salmos; falai de todas as suas maravilhas" (Salmos
105:2).
É o nosso chamado nos gloriar especialmente na obra
maravilhosa de salvação de Deus. Com o
salmista devemos cantar: "Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não
te esqueças de nenhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as
tuas iniquidades, que sara todas as tuas enfermidades; Que redime a tua
vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia …"
(Salmos 103:2-4). Porque não contribuímos com absolutamente nada para
a salvação. Ela é totalmente a obra maravilhosa de Deus. Ele é o Soberano
Salvador. Antes da fundação do mundo Ele planejou
a salvação. Ele realmente obteve a
salvação enviando zeu Filho para morrer na cruz. Por zua graça ele
sozinho aplica a salvação ao coração e vida
de seu povo. Assim, do princípio ao fim a "salvação é do Senhor"
(Jonas 2:9). Toda glória é de Deus.
É a nossa oração que o Senhor Deus se agrade em
usar este panfleto como um testemunho de sua soberana graça, para o
avanço da causa de sua Verdade, e para a glória do seu grande nome.
"Sê exaltado, ó Deus, sobre os céus; seja a tua glória sobre
toda a terra" (Salmos 57:5).
Rev. Steven R. Houck
O Deus Soberano
As Escrituras nos ensinam que Deus é absolutamente
soberano. Como o Deus Todo-poderoso, ele governa o mundo. Ele
é o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, o Altíssimo Deus. A ele
pertence todo poder e toda autoridade para fazer o que lhe agrade em
cima nos céus e embaixo na terra. O mundo e tudo que nele há é o seu
mundo. Toda criatura é controlada por sua soberana vontade e
poder. Isso foi reconhecido pelo Rei Davi quando ele louvou ao
Senhor com as palavras: "Tua é, SENHOR, a magnificência, e o
poder, e a honra, e a vitória, e a majestade; porque teu é tudo quanto
há nos céus e na terra; teu é, SENHOR, o reino, e tu te exaltaste por
cabeça sobre todos" (I Crônicas 29:11).
Deveras o Senhor é o "cabeça sobre todos."
Não há criatura, seja ela besta fera, homem ou anjo, que possa
frustrar o soberano domínio de Deus. Nabucodonosor estava absolutamente
certo quando confessou: "Eu bendisse o Altíssimo, e louvei e
glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é um domínio
sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. E todos os
moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua
vontade ele opera com o exército do céu e os moradores
da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e
lhe diga: Que fazes?" (Daniel 4:34-35). Não há ninguém que possa
estorvar a mão de Deus de fazer o que ele quer; nem entre o exército
do céu e nem entre os moradores da terra. Embora muitos levantem o
punho em desafio a Deus, embora muitos desprezem seus estatutos e
mandamentos, e embora eles se rebelem contra ele com toda a impiedade de
seus corações; todavia, nisto tudo Deus reina supremo. "Porque o
reino é do SENHOR, e ele domina entre as nações" (Salmos 22:28).
Como poderia ser de outra forma? Porque se Deus é DEUS,
então, ele deve ser soberano sobre tudo. Se ele é Todo-poderoso,
então, não pode haver ninguém com poder em si mesmo para frustrar o
poder e o domínio de Deus. Ele é Deus e ele somente é Deus. Assim
Moisés instruiu o povo de Israel, "só o Senhor é Deus,
em cima no céu e em baixo na terra; nenhum outro há" (Deuteronômio
4:39). Porque todos somos "reputados como nada." "Todas
as nações são como nada perante ele; ele as considera menos do que
nada e como uma coisa vã " (Isaías 40:17). Somos tão
insignificantes em comparação com o Deus Infinito que não somos nada.
Somos menos do que nada.
Certamente, então, não podemos dizer a Deus, "que
fazes?" Certamente não podemos nem questionar algo que ele diz ou
faz. Ele é o Soberano Deus e nós somos suas criaturas finitas. Ele é
o Oleiro e nós somos o barro. Assim lemos: "Ai daquele que
contende com o seu Criador! o caco entre outros cacos de barro!
Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? ou a tua obra: Não
tens mãos?" (Isaías 45:9). Deus tem o direito de fazer conosco
seja o que for que lhe agrade e não podemos nunca reclamar ou
questionar. Devemos nos curvar diante dele em humilde submissão sempre.
"Porque assim diz o Alto e o Sublime,
que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar
habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para
vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o
coração dos contritos" (Isaías 57:15).
A Vontade Soberana De Deus
Porque Deus é o soberano Deus, o Senhor e Dominador
do céu e terra, deve ser também verdade que a vontade
de Deus é soberana. Se Deus é o Rei de toda criação, então, seu
decreto e propósito devem permanecer inamovíveis. Porque é
impossível conceber um Deus soberano cuja vontade e propósito possam
ser frustrados por aqueles sobre quem ele governa. Se a vontade do
governado pode de alguma forma mudar ou demover a vontade do regulador,
então, o regulador não é soberano. O Deus soberano deve também ter
uma vontade soberana. Isso é exatamente o que a Bíblia nos ensina. O
grande Deus do céu e da terra desejará o que lhe agrada e então
realizará tudo o que desejou. Porque o próprio Deus declara através
do profeta Isaías: "… Eu sou Deus, e não há outro Deus, não
há outro semelhante a mim. Que anuncio o fim desde o princípio, e
desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O
meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade" (Isaías
46:9-10).
Realmente, não há ninguém que seja como Deus.
Porque quem pode nos dizer o fim de uma coisa em seu início, mesmo
antes dela começar a seguir o seu curso? Quem é capaz de declarar as
coisas que ainda não aconteceram, mesmo antes delas se tornarem
história? Certamente somente Deus pode fazer isso. Porque é a própria
vontade e propósito de Deus que determinam a existência e o curso de
todas as coisas. Sua vontade é tão soberana que ele determinou de uma
forma precisa exatamente o que acontecerá neste mundo. Deus determinou
e apontou absolutamente todas as coisas. Mesmos os mínimos detalhes
foram englobados em sua vontade e propósito. Dessa forma o apóstolo se
refere a ele como o Deus "que opera todas as coisas segundo
o conselho de sua vontade" (Efésios 1:11). Todas as coisas são o
que são e fazem o que fazem porque Deus assim operou nelas. E ele opera
nelas em perfeita harmonia com o que desejou em seu conselho. Não há
nada que esteja fora do determinado conselho de Deus.
O que é mais maravilhoso é que essa determinação
aconteceu na eternidade. A vontade e o conselho de Deus não estão
presos ao tempo, nem à qualquer coisa no tempo. Eles estão acima do
tempo e da história. São eternos como o próprio Deus o é, assim como
o apóstolo diz, "segundo o eterno propósito que
fez em Cristo Jesus nosso Senhor" (Efésios 3:11). Muito antes que
houvesse mundo, o curso da história foi fixado e determinado pelo
propósito de Deus em Cristo Jesus. E assim também o seu propósito
continua inquebrável e imutável para sempre e sempre. Devemos cantar
sobre isso com o Salmista, "o conselho do SENHOR permanece para
sempre; os intentos do seu coração de geração em geração " (Salmos
33:11).
Pode haver alguma dúvida de que a vontade do
soberano Deus é sempre feita? Visto que o seu conselho permanece para
sempre, de geração em geração, certamente ninguém pode jamais
frustrar a vontade de Deus. Esse é exatamente o testemunho do próprio
Deus. Lemos, "o SENHOR dos Exércitos jurou, dizendo: Como pensei,
assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará … Porque o
SENHOR dos Exércitos o determinou; quem o invalidará? E a sua mão
está estendida; quem pois a fará voltar atrás?" (Isaías 14:24,
27). A vontade de Deus é soberana.
Ninguém pode anular o que Deus propôs—nem mesmo o ímpio que
ativamente procura fazer com que termine em nada o bom propósito do
Senhor, pela sua desobediência e rebelião. Os homens podem inventar
todos os tipos de esquemas para destronar o Altíssimo; mas Deus é tão
soberano, que ele realiza sua vontade mesmo em e através de todas as
suas invenções. "Muitos propósitos há no coração do homem,
porém o conselho do SENHOR permanecerá" (Provérbios
19:21). Seu conselho permanecerá e ele fará toda a sua vontade. O
Senhor Deus falou; ele também fará acontecer (cf. Isaías 46:11). Deus
é soberano e isso deve significar que sua vontade também
é soberana.
Predestinação
Soberana
Visto que Deus é o soberano Deus, de quem o conselho
permanece para sempre, cuja vontade não pode ser frustrada e cujo
propósito não é anulado, devemos concluir que sua vontade e
determinação são soberanamente particulares na salvação.
Não pode ser que o homem seja aquele que determina, por sua própria
vontade, se ele será ou não salvo. Certamente o homem deve vir a Deus
pela fé para ser salvo. Certamente ele deve buscar a Deus, amá-lo e
servi-lo, como resultado de um coração desejoso.
Porque ele é o infinito Criador que tem o direito e o poder de fazer
com suas criaturas finitas exatamente o que lhe agrade—mesmo com
respeito ao nosso destino eterno. Assim o apóstolo Paulo diz, "ou
não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso
para honra e outro para desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar
a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência
os vasos da ira, preparados para a perdição; para que também desse a
conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para
glória já dantes preparou?" (Romanos 9:21-23). Deus é o soberano
Oleiro e nós, suas criaturas, somos o barro. Exatamente como um oleiro
terreno tem poder soberano sobre o barro, para fazer dele o que lhe
agrade, assim Deus soberanamente faz de nós o que lhe agrada.
Ele faz alguns para serem "vasos de
misericórdia" que ele "de antemão preparou para glória".
Este é o povo eleito de Deus, aqueles escolhidos por ele para
salvação em Cristo. Deste povo o apóstolo diz, "mas devemos
sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do SENHOR, por vos
ter Deus elegido desde o
princípio para a salvação …" (II Tessalonicenses 2:13). Antes
de o mundo ter sido criado, Deus em seu eterno decreto e conselho
selecionou certos indivíduos para serem seu povo especial. O salmista
diz: "Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o SENHOR, e o povo
ao qual escolheu para sua herança" (Salmos
33:12). Para este povo escolhido Deus, em sua misericórdia, concede fé
e arrependimento, e todas as bênçãos de salvação, de forma que eles
são chamados "vasos de misericórdia." Assim lemos: "Bendito
o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas
as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em
Cristo; como também nos elegeu nele antes da
fundação do mundo …" (Efésios 1:3-4). Oh! deveras escolhemos a
Deus, mas somente depois dele nos ter escolhido e nos concedido o poder
de escolhê-ço. Jesus disse: "Não me escolhestes vós a mim, mas
eu vos escolhi a vós …" (João 15:16).
O apóstolo Paulo também se refere aos "vasos
de ira preparados para destruição." Porque, visto que Deus é
soberano, sua vontade deve não somente ser o fator determinante na
salvação, mas também na destruição eterna. Deus não somente
seleciona alguns para serem salvos e glorificados, mas também destina
outros para "destruição." Judas se refere a estas pessoas
quando fala de "certos homens que se introduziram, que já antes
estavam ordenados para esta condenação …"
(Judas 4). O apóstolo Pedro se refere a eles como "sendo
desobedientes; para o que também foram destinados"
(I Pedro 2:7-8). Para este povo Deus não concede fé e arrependimento,
de forma que eles continuam em seu pecado e impiedade. Ele olha para
eles, não em amor, mas em sua ira. Assim eles são mencionados como
"os vasos de ira."
Não é de estranhar que as Escrituras declarem:
"Assim, pois, isto não depende do que quer, nem
do que corre, mas de Deus, que se compadece" (Romanos
9:16). A salvação nunca pode ser baseada sobre nossas obras ou vontade.
Se confiamos em Cristo como nosso Salvador e temos a esperança de
glória dentro de nós, isto é por causa de uma única coisa—a
vontade soberana e o bom propósito de Deus que nos destinou para
glória. Porque o nosso Deus é o Deus "que nos salvou, e chamou
com uma santa vocação; não segundo as nossas obras,
mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos
foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos" (II
Timóteo 1:9). "Seu propósito e graça" não é nada menos do
que seu gracioso decreto de eleição, que é a fonte de todo bem
salvífico.
Presciência
Visto que Deus soberanamente predestinou
a vida de cada homem (alguns para glória e outros para destruição),
não pode ser que a predestinação de Deus seja baseada sobre a escolha
do homem—sua fé e arrependimento. Não pode ser que
Deus, em sua presciência, simplesmente olhou para a história e viu
todos aqueles que iriam crer e, então, baseado sobre essa presciência,
os escolheu para salvação e glória. Porque isso faz a escolha do
homem soberana e não a escolha de Deus. Isso faz a predestinação de
Deus dependente da vontade do homem. As Escrituras, contudo, ensinam que
a eleição não tem nada a ver com as obras do homem. Em conexão com a
eleição de Jacó e a reprovação de Esaú, lemos em Romanos 9:11:
"Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal
(para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não
por causa das obras, mas por aquele que chama)."
Predestinação, visto que é baseada sobre o propósito de Deus, não
pode ser baseada sobre as obras do homem—nem suas boas nem suas más,
nem sua fé nem sua incredulidade. Tanto a eleição como a reprovação
são incondicionais. A predestinação é a soberana e
livre escolha de Deus somente.
De fato, a presciência de Deus não é uma
pré-visão dos eventos futuros. Não tem nada a ver com um olhar para a
história do homem e ver o que ele fará ou não fará. Romanos 8.29-30
diz isto muito claro. Lemos: "Porque os que dantes conheceu
também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho… e
aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes
também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou."
Observe que nestes versículos há uma cadeia inquebrável de eventos
que Deus realiza. Ele pré-conheceu certas pessoas, e estas mesmas
pessoas ele também predestinou, chamou, justificou e glorificou. Os que
ele pré-conheceu são os que ele salva e traz à glória eterna.
Presciência, então, não pode se referir a um certo conhecimento
intelectual de todos os homens. Porque nem todos os
homens são salvos e glorificados. Antes, presciência se refere ao
conhecimento de Deus de seu povo escolhido que, somente eles, são
salvos e glorificados.
Mas essa presciência do povo escolhido de Deus não
é um mero conhecimento intelectual também. As
Escrituras nos ensinam que ela é um conhecimento muito íntimo de amor.
Quando Deus pré-conhece o seu povo escolhido, então, ele os ama. Ele
os amou antes deles terem nascido. Assim lemos em Amós 3:2: "De
todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido …"
Certamente, como Onisciente, Deus conhece intelectualmente todas as
famílias da terra. Mas ele conhece somente seu povo escolhido (a
família de Deus) em amor. Cristo expressou exatamente o mesmo quando
disse: "Eu sou o bom Pastor, e conheço as
minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido … Eu dou a minha vida pelas
ovelhas" (João 10:14-15). Embora o mercenário conheça
intelectualmente as ovelhas, ele não as ama. Portanto, quando os lobos
chegam, ele foge. Mas Cristo, que conhece seu povo eleito em
amor, dá a sua vida pelas ovelhas. A presciência de Deus,
então, é o seu eterno amor pelo seu povo escolhido.
É esse conhecimento eterno de amor que é a base da
eleição. Deus não escolhe ninguém para a salvação e glória porque
ele viu de antemão que eles creriam e se arrependeriam de seus pecados.
Ele soberanamente os escolheu porque soberanamente os amou em Cristo
Jesus. Se voltarmos para aquela cadeia inquebrável em Romanos 8:29-30,
então veremos que "conheceu de antemão" é primeiro do que
"predestinou." O povo de Deus é salvo e glorificado porque
eles foram predestinados para este fim por Deus, e foram predestinados
para este fim porque foram amados de Deus desde toda a eternidade. Assim,
lemos: "O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu,
porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos,
pois vós éreis menos em número do que todos os povos; mas,
porque o SENHOR vos amava … o SENHOR vos tirou com mão forte
e vos resgatou da casa da servidão …" (Deuteronômio 7:7-8). É
a eleição incondicional que está por detrás da salvação. É o
soberano e eterno amor (presciência) de Deus que está por detrás da
eleição.
O Amor Soberano De Deus
Visto que Deus é soberano na predestinação e visto
que a predestinação é baseada sobre o íntimo conhecimento de amor (presciência)
de Deus, deve também ser verdade que o amor de
Deus é soberano. Seu amor está tão vitalmente conectado com a Divina
eleição, que ele dever ser tão soberano quanto o é a vontade eletiva
de Deus, tão soberano quanto o é o próprio Deus. O amor de Deus não
pode ser uma emoção impotente que gostaria de ver todos os homens
salvos, mas que não tem a força para realizar este desejo. O amor de
Deus dever ser um poder eficaz que não somente deseja
a salvação dos seus objetos (eleição), mas que realmente os salva.
Deveras, as Escrituras nos ensinam que o amor de Deus
é como um poder soberano que é sempre um amor salvífico.
É impossível para o amor de Deus não salvar os seus benditos objetos.
Lemos as palavras do próprio Deus: "Com amor eterno te amei, por
isso com benignidade te atraí" (Jeremias 31:3). O
amor de Deus não senta por perto observando seu objeto ir para o
inferno e não faz nada sobre isso. Se Deus te ama, então, ele te salva.
Seu amor eterno é um poder soberano eficaz que sempre traz seus objetos
para ele. "Por isso," ele diz. Porque ama o seu povo, ele deve
eficazmente trazê-los para fora de seus pecados e morte e para dentro
da glória de sua eterna salvação. Seu amor soberano não permitirá
que seu povo seja condenado. Não há objetos do seu amor no inferno no
tempo presente, nem jamais haverá algum ali. Quão cruel
seria o seu amor se não quisesse salvar seus objetos do inferno, e
quão fraco seria se não pudesse salvá-los do
inferno.
Tal amor cruel e fraco não é o amor de Deus. O
apóstolo Paulo diz: "Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia,
pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós
ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente
com Cristo …" (Efésios 2:4-5). Deus vivifica seu povo, os faz
espiritualmente vivos pelo poder eficaz e sua misericórdia e graça.
Mas, por quê? Por quê Deus dá vida a eles ao invés de deixá-los
apodrecer no buraco do inferno? Por apenas uma razão—ele ama o seu
povo. Seu amor não é alguma coisa fraca e impotente que chora pelos
pecadores perdidos no inferno por não pode fazer nada para ajudá-los.
O amor de Deus livra o pecador da destruição
do inferno.
O apóstolo João concorda, porque declara: "Vede
quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos
de Deus …" (I João 3:1). Olhem para o amor de Deus. Olhem para a
sua natureza. É uma maravilha soberana tal como esta que faz possível
que os eleitos sejam chamados filhos de Deus. Aqueles que por natureza
eram filhos da ira podem ser chamados os filhos de Deus porque Deus
assim os amou. O poder eficaz soberano do amor de Deus realmente os faz
seus filhos. Em seu amor ele os livra, assim como livrou o Israel
dos tempos antigos. "Quando Israel era menino, eu o amei; e
do Egito chamei a meu filho" (Oséias 11:1).
Dessa forma, não pode ser que Deus ama a todos.
Visto que o amor de Deus é soberano e, portanto, sempre um amor
salvador, somente aqueles que experimentam a salvação do Senhor podem
ser os objetos do seu amor. Deus ama o seu povo eleito, a quem escolheu
para salvação, mas o seu ódio e ira eterna permanecem sobre o
réprobo pecador. O salmista declara: "O SENHOR prova o justo;
porém ao ímpio e ao que ama a violência a sua alma odeia"
(Salmos 11:5). O Senhor odeia não somente os pecados dos ímpios, mas
os próprios ímpios. "Os loucos não pararão à tua vista; odeias
a todos os que praticam a maldade" (Salmos
5:5). Sua ira, não o seu amor, permanece sobre eles para sempre (Salmos
7:11, João 3:36). Jacó, a quem Deus escolheu em Cristo antes da
fundação do mundo, é o objeto de todo amor de Deus. Mas Esaú, a quem
Deus destinou para destruição, é eternamente o objeto de sua ira.
Deus disse: "Amei a Jacó, mas odiei a Esaú" (Malaquias
1:1-3, Romanos 9:13). Dessa forma Deus não salvou a Esaú, mas o deixou
em seu pecado, e para os tormentos do inferno eterno.
O homem que vai para o inferno, então, não vai pra
lá a despeito do amor de Deus. Ele vai para lá
sem o amor de Deus. Por outro lado, o homem que
vai para o céu vai pra lá, não por causa de sua vontade ou obras, mas
por causa do soberano amor de Deus que sempre salva. Que bendito
conforto para o filho de Deus. O amor de Deus não o deixa no inferno,
mas o levanta e livra de todos os seus pecados e da morte. Seu soberano
amor não permitirá que ele veja a condenação. Que amor maravilhoso!
O povo de Deus, portanto, deve se rejogizar em "nosso Deus e Pai,
que nos amou, e em graça nos deu uma eterna
consolação e boa esperança" (II Tessalonicenses 2:16). Eles
devem se regozijar no amor soberano de Deus.
O Amor De Deus e a Cruz
Visto que o amor de Deus não é alguma emoção
impotente, mas um poder eficaz que sempre salva seus objetos, segue-se
que a morte de Cristo sobre a cruz é também um poder soberano que
realmente efetua a salvação do povo de Deus. Isso porque o amor
soberano de Deus é manifesto na cruz de Cristo.
A morte sacrificial de Cristo é a demonstração de quanto Deus ama o
seu povo. Na cruz vemos o amor eficaz de Deus operando
soberanamente. Assim o apóstolo João escreve: "Nisto se
manifesta o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho
unigênito ao mundo, para que por ele vivamos" (I João 4:9).
Se você quiser contemplar o amor de Deus em toda a
sua maravilha, então, você deve olhar para cruz. Pense nisso! Deus
amou de tal maneira o seu povo que ele deu o seu
Filho unigênito para morrer por eles, para que pudessem viver através
dele. Ele enviou o seu próprio Filho, que está
no próprio seio do Pai, e a quem Deus ama com um amor perfeito e
infinito. Tão grande, tão infinito, tão maravilhoso é o amor de Deus
por seu povo que ele deu a si mesmo em seu Filho
sobre a cruz. Por isso o apóstolo Paulo diz que "a igreja de
Deus" é a igreja" que ele (Deus) comprou com o seu (de Deus)
próprio sangue" (Atos 20:28).
Certamente, então, devemos ver que a morte de Cristo
sobre a cruz foi uma parte do plano eterno de Deus para a salvação de
seu povo. A relação entre o amor de Deus e a cruz é tão íntima, que
é impossível que a cruz possa ser algo incidental ou acidental. A
morte de Cristo não aconteceu simplesmente. A cruz não foi forçada
sobre Deus pelos ímpios que colocaram seus corações contra o Senhor e
o seu Ungido. Não, nunca! Como a manifestação do amor infinito de
Deus pelo seu povo, a cruz é o próprio coração e
centro do propósito de Deus de salvação. A
cruz é o meio soberano de Deus para salvar o seu povo amado do inferno.
Ele deliberadamente propôs que Cristo deveria
ser crucificado e assassinado pelos seus pecados [do seu povo]. Assim
lemos: "Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que
tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os
gentios e os povos de Israel; para fazerem tudo o que a tua mão
e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer"
(Atos 4:27-28).
Oh! deveras os ímpios o pegaram e crucificaram, mas
tudo foi feito de acordo com a boa e perfeita vontade de Deus (Atos
2:23). A cruz não foi um ato não pensado previamente, nem de
contingência, mas um ato soberano do Deus
Todo-poderoso que realiza todo o seu bom propósito. A cruz foi a
perfeita execução do decreto de Deus. Assim em Apocalipse 13:8 Cristo
é mencionado como "o Cordeiro que foi morto desde a fundação do
mundo." Ele é o Cordeiro já morto no eterno conselho de Deus para
nossa salvação.
Isto significa que a cruz é um poder em si mesma—o
poder soberano de Deus. Visto que Deus, como
resultado de seu grande amor, enviou Cristo para morrer por seu povo
para que através de sua morte pudéssemos ter vida, essa morte deve
salvar e dar vida a todos os
objetos do amor de Deus. A cruz não torna a salvação possível
para todos, de forma qualquer um possa tê-la, se tão somente
desejar tomá-la. A morte de Cristo realmente salva o
povo eleito de Deus. "Porque o Filho do homem veio buscar e salvar
o que se havia perdido" (Lucas 19:10). Em sua morte sobre a
cruz Cristo não fez meramente uma provisão para a salvação. Ele realmente
obteve salvação. Dessa forma, lemos: "Nem por
sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez
no santuário, havendo efetuado uma eterna
redenção" (Hebreus 8:12). A cruz é o próprio poder que salva. O
apóstolo ensina isso quando diz: "Mas nós pregamos a Cristo
crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos.
Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos
a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus"
(I Coríntios 1:23-24). Deveras "Cristo crucificado" é o
"poder de Deus"—o poder eficaz soberano de Deus que
realmente salva o seu povo de todo pecado. Deus ama o seu povo, Cristo
morreu por elas, certamente então, todos eles serão salvos.
Redenção Particular
Visto que o soberano amor de Deus é particular (somente
para os eleitos), e visto que a cruz (o poder real de Deus que assegura
a salvação) é o soberano resultado daquele amor, necessariamente a
expiação da cruz deve ser limitada ao amado povo escolhido de
Deus. A redenção que Cristo mereceu na cruz é para um grupo
de pessoas particular e definido. É limitada àqueles que Deus amou e
que ele escolheu para salvação desde antes da fundação do mundo.
Cristo não morreu por todos. Ele morreu pelos
eleitos de Deus e por eles somente. Visto que a escolha de Deus é
soberana e visto que o seu amor é soberano, isso deve ser verdade. Deus
não proveu salvação para todos e agora espera que o homem faça uma
escolha. Se isso fosse verdade, então, ele não seria soberano. A
expiação ilimitada é inconsistente com a soberania de Deus. Ela faz
do homem soberano, e não Deus. Mas Deus é soberano. Ele está
soberanamente executando o seu plano de salvação. Portanto, ele enviou
Cristo para morrer, não por todos, mas somente por aqueles que ele intentou
salvar.
Isso é exatamente o que o próprio Jesus nos ensina.
Ele diz: "Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das
minhas sou conhecido. Assim como o Pai me conhece a mim, também eu
conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas"
(João 10:14-15). Cristo é o Bom Pastor e seu povo (que ele conhece e
que o conhece) são suas ovelhas. Ele deu sua vida pelas ovelhas. Ele
não morreu por todos, porque deixa mui claro que muitos não são suas
ovelhas. No versículo 26 do mesmo capítulo ele diz: "Mas vós
não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho
dito." Os ímpios que não conhecem a Cristo nunca creem nele
porque não são suas ovelhas (povo eleito). Por eles, Cristo não
morreu. Ele morreu pelas ovelhas somente.
Segundo o apóstolo Paulo, as ovelhas constituem a
igreja de Cristo. Ele exorta os presbíteros da igreja: "Olhai,
pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos
constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele
resgatou com seu próprio sangue" (Atos 20:28). Deus em
Cristo comprou a Igreja com o seu precioso sangue. Ele não comprou toda
a humanidade, os eleitos e os réprobos. Ele
derramou seu sangue para adquirir a redenção para sua Igreja somente.
Isso é mui belamente declarado em Efésios 5. Lemos: "Vós,
maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja,
e a si mesmo se entregou por ela" (Efésios 5:25). Cristo
amou sua Igreja desde antes da fundação do mundo e, portanto, deu a si
mesmo, deu sua vida sobre a cruz, por ela. Note que temos o amor de
Cristo e a cruz de Cristo associados nesta passagem. Assim como o amor
de Cristo é particular (somente pelos eleitos), assim sua morte
expiatória é particular.
O alvo limitado da expiação é confirmado por
Romanos 8, onde nos é informado, não em termos incertos, que Cristo
morreu pelos eleitos. O apóstolo diz: "Aquele que
nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós,
como nos não dará também com ele todas as coisas? " E quem são
este povo por quem Cristo se entregou? Quem são os "todos nós"?
Encontramos a resposta nos versículos 33 e 34: "Quem intentará
acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem
os justifica. Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes
quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e
também intercede por nós". Eles são os eleitos de Deus. O povo
eleito de Deus nunca temerá a condenação—nem da parte de Cristo e
nem da parte de Deus. Porque Cristo morreu por eles e por esta morte
Deus os justifica. Este é o poder da cruz. O ímpio que não conhece
esta justificação e que são condenados ao inferno para sempre, não
pode de forma alguma estar incluído na obra expiatória de Cristo sobre
a cruz. Se estivessem, então, não haveria nenhuma razão para a
condenação deles. Porque eles seriam condenados por causa de seus
pecados, se Cristo pagou por esses pecados sobre a cruz? Não, Cristo
não morreu por eles. Cristo morreu pelos eleitos de Deus. Além do mais,
a obra da cruz é tão soberana que nada jamais será capaz de condenar
o povo de Deus. Nada jamais será capaz de separá-los do amor de Deus
manifestado em Cristo sobre a cruz (Romanos 8:35-39). Assim o nosso
Senhor diz: "E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de
perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão" (João
10:28). Deveras, "ele (Cristo) verá o seu fruto
(os eleitos) … Ele verá o fruto do trabalho de sua alma, e
ficará satisfeito" (Isaías 53:10-11).
Regeneração
Deus é soberano. Ele é soberano em todo o seu ser.
Isso significa que sua vontade é soberana. Ela é tão soberana que ele
somente determina, por eleição e reprovação, o destino de cada homem.
O fator decisivo na salvação é a vontade de Deus e não a vontade do
homem. Além do mais, porque a vontade de Deus é soberana, assim
também é o seu amor, o qual é a origem da soberana eleição. Ele é
tão soberano que aqueles que são os objetos deste bendito amor
certamente serão salvos. A morte de Cristo, como a eficaz operação e
manifestação deste amor, realmente assegura a salvação de seu povo
escolhido.
Ora, visto que tudo isso é verdade, segue-se que a aplicação
desta salvação é também uma obra soberana de Deus.
Visto que Deus determina quem será salvo, visto que ele ama aquele povo
escolhido e envia Cristo para morrer para assegurar a salvação deles,
ele deve também soberanamente desenvolver essa salvação nos
corações e vidas deles. É inconcebível que
Deus tenha soberanamente planejado nossa salvação, objetivamente
obtido essa salvação através da morte pré-ordenada de seu Filho
primogênito e, então, deixar ao homem o apropria-se desta salvação
em si e por si mesmo. Não, visto que Deus a planejou, ele
somente realiza esse plano. Ele soberanamente aplica a
salvação ao pecador eleito.
Vemos isso ser verdadeiro já no primeiro ato de
salvação que Deus realiza dentro do pecador, escolhido e amado por ele.
Regeneração, o novo nascimento, não é uma obra do
homem, mas a soberana obra do Todo-poderoso. Regeneração é a obra
poderosa do Deus soberano pela qual ele, à parte de qualquer vontade ou
obra do homem, dá vida ao escolhido, mas espiritualmente morto pecador.
Assim, lemos em Efésios 2:4-6: "Mas Deus, que é riquíssimo em
misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda
mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente
com Cristo (pela graça sois salvos). E nos ressuscitou juntamente com
ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus".
Por natureza somos espiritualmente mortos, mas na regeneração Deus nos
faz vivos. A regeneração é uma ressurreição espiritual
de uma morte espiritual. Deus dá vida àqueles que antes estavam
absolutamente destituídos de vida—"mortos em pecados."
Assim como a ressurreição do corpo é um ato poderoso de Deus, assim
também a regeneração, como uma ressurreição espiritual, pode
acontecer somente pela maravilhosa e poderosa operação da graça
soberana de Deus. Um cadáver apodrecendo no túmulo não pode se
levantar por si mesmo, porque não há vida nele. É impossível para um
homem morto fisicamente fazer algo. Nem pode o morto espiritualmente
fazer algo para contribuir com sua regeneração.
Isso é demonstrado ainda mais pelo fato que a
regeneração não é nada menos do que a implantação de um
novo coração. Na profecia de Ezequiel lemos: "E
dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo;
e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração
de carne" (Ezequiel 36:26). Por natureza, o pecador morto tem um
coração que é duro como uma pedra. Ele não é receptivo à Palavra
de Deus. Ele não ama a Deus e nem procura andar nos mandamentos de
Deus. Mas na regeneração Deus soberanamente tira o coração de pedra
e dá, no lugar dele, um coração de carne, um coração que é terno e
receptivo. Como o Grande Médico, ele implanta dentro do pecador eleito,
pelo seu Espírito, um coração que o ama e procura ser obediente aos
seus estatutos. À parte deste novo coração é impossível para o
pecador se voltar de seus pecados e, por fé, buscar o Deus vivo e
verdadeiro.
A regeneração, não pode de forma alguma ser
condicionada sobre a vontade ou obra do homem. Não pode
ser que a fé e o arrependimento precedam a
regeneração e, portanto, sejam as condições
que devem ser satisfeitas antes que Deus possa nos regenerar. Tanto
a fé como o arrependimento são impossíveis à parte do novo
nascimento. Se um homem tem fé é porque Deus já o regenerou. A fé é
o fruto da regeneração e não a sua causa. O apóstolo João descreve
os crentes nascidos de novo como aqueles "os quais não nasceram do
sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem,
mas de Deus" (João 1:13). Pode um recém-nascido ter ajudado, de
si mesmo, sua mãe a produzir o nascimento? Pode de alguma forma ter
contribuído para sua própria concepção? Certamente não. Nem pode o
homem contribuir para o novo nascimento que Deus dá. Paulo nos instrui:
"Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito,
mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela
lavagem da regeneração e da
renovação do Espírito Santo" (Tito 3:5). Um homem nasce na
família de Deus por um ato soberano de Deus somente.
A nova vida da regeneração não tem sua origem no
sangue (descendência física), nem tem sua origem na vontade da carne (o
desejo natural do corpo). De fato, essa vida não pode ser atribuída à
vontade do homem de forma alguma. Ela tem
sua origem em Deus somente. A regeneração nunca é resultado da
escolha do homem. Deveras é verdade que, "aquele que não nascer
de novo, não pode ver o reino de Deus " (João 3:3). Mas, como um
homem nasce de novo? O apóstolo Pedro diz que é "Deus"
quem "nos gerou de novo para uma viva esperança, pela
ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos" (I Pedro 1:3). O
povo de Deus é regenerado pela poderosa e viva palavra de Deus. "Sendo
de novo gerados, não de semente corruptível, mas da
incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que
permanece para sempre" (I Pedro 1:23). Regeneração é a obra
soberana de Deus. Somente ele pode dar vida eterna ao morto pela sua
palavra viva.
A Depravação do Homem
A necessidade da soberania de Deus na regeneração
(e em tudo da salvação) é especialmente demonstrada pela absoluta
depravação do homem. O homem é absolutamente incapaz
de salvar a si mesmo. Ele não tem nem a vontade nem
o poder de mudar o seu coração mau. Assim o
profeta pergunta: "Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o
leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo
ensinados a fazer o mal" (Jeremias 13:23). Da mesma foram como o
etíope não pode de forma alguma mudar a cor de sua pele escura e o
leopardo não pode remover a negridão de suas manchas, assim também, o
homem não pode de forma alguma mudar o mau caráter de seu coração,
vontade e mente. O homem nasce neste mundo com um
coração mau e uma natureza corrupta. Sem a obra soberana de Deus, este
coração e natureza nunca serão feitos brancos e bons, limpos e puros,
justos aos olhos de Deus.
Além do mais, a depravação da natureza do homem é
total. Ela não somente se estende a todo o seu ser,
mas o faz completamente incapaz de qualquer bem. Assim,
o apóstolo escreve: "Como está escrito: Não há um
justo, nem um sequer. Não há ninguém que
entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos
se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há
quem faça o bem, não há nem um só" (Romanos
3:10-12). Muitas vezes pode nos parecer que o homem natural realiza
algum bem. Mas o julgamento de Deus é claro: "Não há quem faça
o bem, não há nem um só." É absolutamente impossível para um
homem natural fazer algum bem. O homem natural não pode
e não busca a Deus.
Antes, ele é um rebelde que se opõe a Deus e ao
reino de Deus. Ele é um escravo do pecado que
não pode fazer nada, senão pecar. Ele está cego em seu entendimento e
pervertido em seus julgamentos. Em todos os seus caminhos ele imita o
seu pai espiritual, o diabo. Até mesmo sua vontade é
escravizada à vontade de Satanás. Isso Jesus nos ensina quando ele diz:
"Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de
vosso pai (literalmente—‘vós quereis fazer')" (João 8:44).
Dessa forma, o homem natural realmente odeia a Deus e ao seu Filho
ungido. Ele está tão longe de desejar e buscar a salvação no único
Deus verdadeiro que ele ama as trevas mais do que a luz. "E a
condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens
amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras
eram más. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para
a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas" (João
3:19-20). Realmente, como as Escrituras nos ensinam, o homem natural
está "morto nos seus pecados e nas
incircuncisão de sua carne" (Colossenses 2:13).
Essa corrupção de nossa natureza nós herdamos
dos nossos pais. Como resultado de seu pecado, a natureza de Adão
se tornou má, e esta maldade é passada de uma geração à outra. Nós
nascemos pecadores. Somos corruptos na natureza, mesmo antes de
cometermos quaisquer pecados pessoais. Devemos todos dizer com Davi:
"Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha
mãe" (Salmos 51:5). De fato, mesmo à parte de nossas naturezas
corruptas, somos pecadores culpados porque Deus nos contou
como culpados do primeiro pecado de Adão no paraíso. Dessa forma,
o apóstolo Paulo diz: "Portanto, como por um homem
entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a
morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram"
(Romanos 5:12). O pecado de nosso pai Adão é imputado
a nós. Somos culpados de comer o fruto proibido, assim como ele é.
Esta é a nossa condição e estado por natureza.
Portanto, como é possível para o homem contribuir
para sua regeneração, seja por sua vontade ou por suas obras? À parte
da graça soberana de Deus, somos culpados, pecadores corruptos que não
podem e não querem mudar os nossos corações. À parte de Deus, nossa
vontade e obras podem contribuir somente para mais dívida. À parte de
Deus, somos filhos do diabo que merecem serem condenados juntamente com
ele e os seus anjos maus. À parte de Deus, não podemos fazer nada que
seja agradável aos seus olhos. À parte de Deus, a salvação é
impossível. Somos como ossos secos no meio de um vale—ossos que não
fazem nada e que não podem viver, ossos sem nenhuma carne sobre eles,
ossos sem o fôlego de vida. Todavia, todos do povo de Deus vivem
porque Deus, em sua graça regeneradora, soberanamente lhes
dá esta vida. Ele lhes diz: "Ossos secos, ouvi a palavra
do SENHOR. Assim diz o Senhor DEUS a estes ossos: Eis que farei entrar
em vós o espírito, e vivereis. E porei nervos sobre vós e farei
crescer carne sobre vós, e sobre vós estenderei pele, e porei em vós
o espírito, e vivereis, e sabereis que eu sou o SENHOR" (Ezequiel
37:4-6). O que os pecadores não podem fazer, Deus faz.
O Chamado Salvífico
Quando Deus imparte a sua graça regeneradora num
homem, este homem é soberanamente transformado no profundo de seu ser.
Aquele que uma vez esteve espiritualmente morto é levantado dentre os
mortos. Ele é nascido de novo de cima. Àquele que uma vez não podia
nem mesmo "ver o reino de Deus" (João
3:3) é dado olhos para ver, ouvidos para ouvir, e um coração para
entender as coisas de Deus e do seu reino. Na regeneração Deus imparte
o poder espiritual que capacita o homem a buscar,
conhecer e abraçar Cristo e todos os seus benefícios.
Isso não significa, contudo, que o homem está nas
suas próprias mãos, e que não necessita mais de Deus. A salvação
está tão totalmente nas mãos de Deus que, mesmo após a regeneração
o homem não chega ao arrependimento e fé sem uma obra adicional de
Deus. Se o eleito, o pecador regenerado, há de chegar à conversão
e à consciência de sua salvação, Deus
deve soberanamente e salvificamente chamá-lo para
tal atividade espiritual para que seus olhos vejam, seus ouvidos ouçam
e seu coração entenda as coisas de Deus.
O apóstolo nos ensina que o chamado salvífico de
Deus é um elo essencial na cadeia inquebrável da salvação. Ele diz:
"E aos que predestinou a estes também chamou; e
aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes
também glorificou" (Romanos 8:30). Tão certo quanto um homem deve
ser predestinado para ser salvo, ele deve também ser chamado. Pois o
povo de Deus são aqueles que "anunciam as virtudes daquele que os chamou
das trevas para a sua maravilhosa luz" (I Pedro 2:9). Todo
verdadeiro filho de Deus foi chamado das trevas do pecado e da morte
para a gloriosa luz da salvação de Deus.
Sem este chamado salvífico de Deus seria
absolutamente impossível para alguém ser chamado por ele para
salvação. Porque não é a invocação a Deus por parte
do homem que vem primeiro na salvação, mas o chamado
de Deus ao homem. O apóstolo diz: "Porque todo aquele que
invocar o nome do SENHOR será salvo" (Romanos 10:13). O apóstolo,
contudo, continua a perguntar: "Como, pois, invocarão aquele
em quem não creram? e como crerãonaquele de quem (literalmente)
não ouviram? e como ouvirão, se não há quem
pregue?" (Romanos 10:14). Se o pecador eleito há de ser
salvo, ele deve invocar a Deus. Ele faz isso, contudo, somente pela fé
em Jesus Cristo. Ele deve crer primeiro. Sem fé é impossível invocar
a Deus. Mas essa fé em Cristo vem somente através do ouvir
o chamado de Cristo. O eleito, o pecador
regenerado, deve ouvir a voz de Cristo lhe chamando das trevas para a
sua maravilhosa luz. Cristo, como o Bom Pastor das suas ovelhas, chama o
seu povo para si mesmo. Ele diz que "ele chama pelo
nome às suas ovelhas, e as traz para fora" (João 10:3). O
próprio Cristo fala ao seu povo e faz com que o arrependimento e a fé
aconteçam a partir de seus corações regenerados.
Esse chamado de Deus em Cristo ao seu povo eleito é
um chamado poderoso, eficaz, que não pode ser
resistido. É um chamado interno que é
direcionado ao coração regenerado e que sempre produz
fruto. Deus diz: "Assim será a minha palavra, que sair da minha
boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e
prosperará naquilo para que a enviei" (Isaías 55:11). Quando
Cristo chama as ovelhas elas ouvem sua voz, e como resultado da poderosa
obra desta Divina Palavra, em fé eles seguem o seu Pastor. Jesus diz:
"As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu
conheço-as, e elas me seguem" (João 10:27).
O chamado irresistível de Deus, além do mais, vem
através da pregação externa do
evangelho. A questão conclusiva de Romanos 10:14 é: "como
ouvirão, se não há quem pregue?" O pecador regenerado não ouve
a voz de Cristo, exceto através da pregação do evangelho. A resposta
de fé, arrependimento, obediência e amor do pecador regenerado é
sempre uma resposta ao chamado do evangelho. Dessa
forma, o apóstolo pôde exclamar: "Mas devemos sempre dar graças
a Deus por vós, irmãos amados do SENHOR, por vos ter Deus elegido
desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e
fé da verdade; para o que pelo nosso evangelho vos chamou,
para alcançardes a glória de nosso SENHOR Jesus Cristo" (II
Tessalonicenses 2:13-14).
Isso, contudo, não significa que esxe chamado é de
alguma forma uma obra do homem. O pregador traz a Palavra de Deus, a
qual assim toca o coração regenerado de forma que acontece a
produção de arrependimento e fé e, mesmo assim, essa não é uma obra
do pregador nem do pecador regenerado. É totalmente uma obra de
Deus. É o chamado soberano de Deus. Porque Deus é o Deus
"que nos salvou, e chamou com uma santa
vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu
próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo
Jesus antes dos tempos dos séculos" (II Timóteo 1:9). O homem
não invoca primeiro a Deus, mas Deus chama o homem. Não por causa de
alguma coisa que o homem seja ou faça, mas em perfeita harmonia com seu
propósito predestinador e abundante graça. Ele, através da pregação,
soberanamente chama o seu povo eleito: "Vinde a mim, todos os que
estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei" (Mateus 11:28).
Então, por sua graça, ouvem naquelas palavras a voz de seu Salvador e
vindo para ele, eles seguem a Cristo. Porque "fiel é Deus, pelo
qual fostes chamados para a comunhão de seu
Filho Jesus Cristo nosso Senhor" (I Coríntios 1:9). O Deus que
promete salvar o seu povo faz com que os seus corações produzam fé,
que lhes une a Cristo para o gozo de sua comunhão para sempre.
Fé Salvadora
Quando Deus soberanamente regenera o pecador eleito e
salvificamente o chama por sua Palavra e Espírito, ests pecador sempre
chega a uma fé verdadeira e salvadora. Visto que na
regeneração Deus lhe dá vida espiritual e pelo chamado salvífico
Deus o chama irresistivelmente à fé, ele deve crer.
É impossível para ele não crer. Um coração regenerado que ouve o
chamado de Cristo sempre crê em Cristo. Assim, a fé é uma parte
essencial da salvação. Ninguém pode ser salvo sem fé. Lemos: "Aquele
que crê no Filho tem a vida eterna;
mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus
sobre ele permanece " (João 3:36). Se você crê, tem a vida
eterna. Se você não crê, não tem nada da vida eterna. Jesus pregava
dessa forma: "… Arrependei-vos, e crede no
evangelho" (Marcos 1:15). Da mesma forma, Paulo e Silas pregaram:
"Crê no Senhor Jesus Cristo e serás
salvo, tu e a tua casa" (Atos 16:31). Não há salvação sem fé
salvadora.
Porque as Escrituras deixam claro que é o dever de
todos os homens crer em Cristo, muitas pessoas assumem que a fé é a
parte do homem na salvação. Muitos evangelistas modernos proclamam que
a fé é uma condição de salvação que o
homem deve cumprir antes que Deus o salve. Eles nos dizem que Deus
deseja nos salvar, mas ele não pode até que primeiro creiamos. Deus
tem feito tudo o que é necessário para nossa salvação. Ele está
pronto para nos regenerar, pronto para nos dar sua graça, pronto para
perdoar nossos pecados; mas tudo isso é dependente de nossa fé. Ó sim,
Deus fez tudo na salvação. Somos salvos por sua graça somente. Mas
uma coisa é deixada ao homem. Nós devemos
primeiro crer. Deus não pode e não fará isso por nós. Toda a graça
salvadora de Deus depende do ato de fé do homem.
Tudo isso, contudo, é contrário ao ensino da
Sagrada Escritura. A fé é uma obra soberana de
Deus da mesma forma como o é todo o resto da salvação. Isso pode ser
visto a partir do fato que o não regenerado não pode de forma alguma
crer em Cristo. Como pode um homem que está "morto em delitos e
pecados" (Efésios 2:1) ter fé em Cristo? O espiritualmente morto
não tem vida espiritual, nem poder espiritual para crer. Jesus diz:
"Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o
não trouxer …" (João 6:44). Ninguém, de
si mesmo, tem a capacidade de vir a Cristo em fé. Isso é absolutamente
impossível. Somente quando Deus nos traz soberanamente por sua
irresistível graça, temos verdadeira fé e buscamos a Cristo.
Dessa forma, a fé não é uma obra do homem, mas uma
obra de Deus. As Escrituras nos ensinam que o povo de
Deus "crêem, segundo a operação da força do seu (de Deus) poder"
(Efésios 1:19). A fé, então, não é um dom do homem a Deus, mas um dom
de Deus ao homem. O homem naturalmente não tem fé. Se
Deus não lhe dá, ele não tem nenhuma. O apóstolo Paulo declara:
"Porque pela graça sois salvos, por meio da fé;
e isto não vem de vós, é dom
de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie" (Efésios
2:8-9). A fé não é de nós mesmos. Não é uma obra do coração e
vontade não regenerados. A fé é o dom de Deus que ele concede ao seu
povo escolhido como resultado de sua graça. Isso é confirmado pelas
palavras do apóstolo aos crentes filipenses. Ele diz: "Porque a
vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não
somente crer nele, como também padecer por ele"
(Filipenses 1:29).
A fé está tão longe das mãos do homem que as
Escrituras atribuem-na a ninguém mais do que ao próprio Jesus Cristo.
Lemos em Hebreus 12:12: "Olhando para Jesus, autor
e consumador da nossa fé …"
O homem não é o autor de sua própria fé. Jesus Cristo o é. Ele é a
fonte de toda fé porque somente ele mereceu fé para todo o seu povo
por sua morte sobre a cruz. Assim, ele é o único que inicia
a fé operando-a nos corações do seu povo. Ele é o único que faz
com que esta fé cresça e se desenvolva até que ele a traga à sua consumação,
sua perfeição na glória. Não é de estranhar que possa ser dito de
Cristo: "E o Senhor adicionava à igreja
aqueles que se haviam de salvar" (Atos 2:47). É Cristo que reúne
seus eleitos para fora do mundo operando fé em seus corações e, assim,
adicionando-lhes à sua Igreja.
Que fé é uma obra soberana de Deus é demonstrado,
acima de qualquer dúvida, pelo fato de que a Divina eleição
é a fonte primária e fundamental da fé. À parte da eleição
ninguém pode crer. Embora os ímpios recusem crer por causa de seus
próprios corações maus, a soberana causa da
incredulidade é a reprovação. Jesus nos ensina isso
quando diz: "Mas vós não credes porque não sois das minhas
ovelhas …" (João 10:26). Essas pessoas a quem Jesus falou não
creram porque não eram das ovelhas de Cristo—seu
povo escolhido. Por outro lado, quando uma pessoa crê, isso é somente
porque ele é um dos do povo escolhido de Deus. Lemos em Atos 13:48:
"… e creram todos quantos estavam ordenados
para a vida eterna." Visto que a fé é um dom de Deus,
obviamente ele a dá somente àqueles a quem escolheu para salvação.
Aos eleitos é dada a fé de forma que são de fato salvos como Deus
planejou. Assim, todos os que crêem no Senhor Jesus Cristo devem
reconhecer que eles "creram pela graça" (Atos 18:27) somente—a
graça soberana de Deus.
Conversão
Quando Deus soberanamente opera fé no coração do
pecador regenerado, o resultado é que o pecador é convertido.
A fé salvadora é de uma natureza tal que a conversa é sempre seu
fruto. A conversão é a fé em operação. É impossível ter fé sem
também se voltar dos pecados para Deus. Conversão é um voltar-se ético
e espiritual. Dessa forma, isso pôde ser dito dos crentes
tessalonicenses que foram convertidos da idolatria: "… como se voltaram
dos ídolos para Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro" (I
Tessalonicenses 1:9). Conversão é um voltar-se de Satanás para Deus.
É um voltar-se do reino das trevas para a luz do reino de Jesus Cristo.
É um voltar-se da impiedade e do pecado para uma vida de justiça. Na
conversão o crente se arrepende de seus pecados.
Ele muda sua mente concernente aos seus pecados e, portanto, sua vida
também. Ele vê que é um pecador, é cheio de tristeza piedosa por
causa de seus pecados, para que finalmente abandone os seus pecados.
Embora o crente nesta vida seja sempre um pecador, ele está diariamente
se voltando dos seus pecados para Deus.
A conversão, assim como a fé, é uma parte
essencial da salvação. Jesus disse: "Em verdade vos digo que, se
não vos converterdes e não vos
fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus"
(Mateus 18:3). Assim, tanto no Antigo como no Novo Testamento o
mandamento para se converter é apresentado como uma parte essencial da
pregação do evangelho. Deus, através do profeta Ezequiel, demanda:
"Tornai-vos, e convertei-vos de
todas as vossas transgressões, e a iniquidade não vos servirá de
tropeço" (Ezequiel 18:30). O apóstolo Pedro pregou no Dia de
Pentecoste: "Arrependei-vos, pois, e convertei-vos,
para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos do
refrigério pela presença do SENHOR" (Atos 3:19). Ninguém entra
no reino de Deus sem observar o mandamento de se arrepender e converter.
Mas esse mandamento não significa que o homem, de si
mesmo, tem a capacidade de se converter. A conversão não é uma obra
do homem. Assim como é impossível para o homem, à parte da graça,
crer, assim é impossível para ele se arrepender e se voltar dos seus
pecados. A conversão é a obra da graça de Deus somente. Essa é a
experiência de todo verdadeiro filho de Deus. Assim, ouvimos o povo de
Deus clamar a Deus: "Converte-me, e converter-me-ei,
porque tu és o SENHOR meu Deus" (Jeremias 31:18). Se o Senhor Deus
não fizer com que um homem se volte dos seus pecados, não há
conversão. Se, contudo, Deus o volta, ele deveras se voltará. O
salmista coloca isso dessa forma: "Faze-nos voltar,
SENHOR Deus dos Exércitos; faze resplandecer o teu rosto, e seremos
salvos" (Salmos 80:19). Nós somos salvos somente quando Deus volta
sua face resplandecente de amor e graça sobre nós, e por este amor e
graça realmente nos volta de nossos pecados
para si mesmo.
Que a conversão é uma obra soberana de Deus é
demonstrado ainda mais pelo fato que, se Deus retém
a sua graça e endurece uma pessoa, não
pode haver nenhuma conversão. O apóstolo João citando o profeta
Isaías diz de Deus: "Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes
o coração, a fim de que não vejam com os olhos, e compreendam no
coração, e se convertam, e eu os cure" (João
12:40). Deus, em sua santidade e justiça, cega os olhos e endurece os
corações dos réprobos, para que eles não queiram e não possam ser
convertidos. Lemos de Deus: "Logo, pois, compadece-se de quem quer,
e endurece a quem quer" (Romanos 9:18). A conversão no final das
contas depende da escolha soberana de Deus. Ele tanto endurece como
mostra misericórdia.
A mesma coisa é verdade do arrependimento. Ninguém
pode de forma alguma se arrepender de seus pecados sem a obra poderosa
da graça. Quando os judeus ouviram que Deus havia salvado os gentios
também, eles disseram: "E, ouvindo estas coisas, apaziguaram-se, e
glorificaram a Deus, dizendo: Na verdade até aos gentios deu
Deus o arrependimento para a vida" (Atos 11:18).
Como a fé, "o arrependimento para a vida" é algo que Deus
deve conceder ao homem, se ele há de tê-lo. Ele não pode se
arrepender por sua própria força. Paulo exortou a Timóteo: "E ao
servo do Senhor não convém contender, mas sim, ser manso para com
todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que
resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento
para conhecerem a verdade" (II Timóteo 2:24-25). O
arrependimento é tanto uma obra de Deus, que o apóstolo Pedro pôde
pregar: "Deus com a sua destra o elevou a Príncipe e Salvador, para
dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados
" (Atos 5:31). Israel (os eleitos de Deus) se arrepende e é
perdoado somente porque Deus dá arrependimento através do Salvador
exaltado. As Escrituras são claras. Ninguém é convertido dos seus
pecados a Deus, senão pela graça soberana.
Justificação
A justificação pela fé é uma das maiores
bênçãos da salvação que o crente desfruta. Ser justificado
significa que alguém é declarado ser justo diante
do tribunal de Deus. Embora ele seja um pecador que diariamente quebra a
santa lei de Deus, seu estado legal é
um de perfeita justiça. Na justificação um homem é contado como
sendo livre de toda culpa e condenação. De fato, Deus o considera
sendo tão justo como se nunca tivesse pecado e como se tivesse sempre
guardado os seus mandamentos perfeitamente.
Deve ser evidente que esta bênção da salvação
não tem absolutamente nada a ver com a vontade e as obras do homem. As
Escrituras nos ensinam que é Deus quem
justifica, e que ele assim o faz pela sua graça soberana. O profeta
Isaías escreve: "De mim se dirá: Deveras no SENHOR há
justiça e força … no SENHOR será justificada,
e se gloriará toda a descendência de Israel" (Isaías 45:24-25).
Toda a nossa justiça está "no SENHOR". Não justificamos a
nós mesmos. Isso é o que o apóstolo Paulo ensinou aos cristãos da
Galácia, quando disse: "Sabendo que o homem não é justificado
pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em
Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas
obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será
justificada" (Gálatas 2:16). Justificação é uma obra totalmente
do Deus Todo-poderoso. Se Deus não nos justificar, então, nada que
pensemos, digamos ou façamos poderá nos fazer justos diante da
perfeição de sua justiça.
A própria natureza da justificação, por si mesma,
nos ensina que é absolutamente impossível que esta bênção seja uma
obra do homem. Isso porque justificação significa o meio que o pecador
é declarado ser justo. Quando Deus nos justifica, ele justifica um
povo que são, em si mesmos, um povo injusto. O
apóstolo Paulo nos diz que Deus "justifica o ímpio"
(Romanos 4:5). Quando Deus justifica o pecador, ele perdoa o seu pecado
– pecado que lhe faz digno de condenação. O homem é injusto, não
justo; mas Deus não leva em conta seu pecado contra ele. Essa é a
maravilha da justificação. Davi coloca isto dessa forma: "Bem-aventurado
aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto.
Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não imputa maldade,
e em cujo espírito não há engano" (Salmos 32:1-2). Na
justificação Deus pode dizer ao seu povo: "Ainda que os vossos
pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve;
ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca
lã" (Isaías 1:18).
Além do mais, não é o caso que Deus simplesmente faz
vistas grossas para o pecado. Ó não! A causa
divina da justificação não é em nenhum outro lugar
vista tão claramente como no fato de que Deus enviou o seu próprio
Filho para justificar o seu povo através de sua morte sobre a cruz.
Alguém deve pagar pelos pecados dos eleitos. Este Alguém é o próprio
Deus através de Jesus Cristo, nosso Senhor. O fundamento e a base da
justificação é o sangue de Cristo. Os pecados do
povo de Deus são apagados no sangue do Cordeiro. Portanto, Deus pode
dizer concernente a Cristo: "Ele verá o fruto do trabalho da sua
alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo,
justificará a muitos; porque as iniqüidades
deles levará sobre si" (Isaías 53:11). Realmente o homem
é "justificado pelo seu sangue" (Romanos 5:9). Embora o
crente mereça ser condenado para sempre, Cristo sofreu esta
condenação para que ele [o crente] possa ser livre de toda
condenação. Ele tomou os pecados de seu povo e lhes deu, no lugar
deles, sua própria justiça. No momento em que Cristo morreu sobre a
cruz, seu povo foi objetivamente justificado.
Porque a única base da justificação é a morte de
Cristo, não podemos nem mesmo atribuí-la à fé.
Realmente somos justificados pela fé. "Creu Abraão em Deus, e
isso lhe foi imputado como justiça" (Romanos 4:3). Mas isso não
significa que nossa fé seja nossa justiça.
Isso não pode ser, pois nossa fé é fraca e imperfeita. Nossa justiça
é Jesus Cristo. O apóstolo diz: "Mas vós sois dele, em Jesus
Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça
…" (I Coríntios 1:30). Fé é o meio pré-ordenado
e dado por Deus de justificação, mas não é a sua base.
Pela fé somos unidos a Cristo e feitos participantes de sua morte e
ressurreição, sua justiça e vida. Pela fé subjetivamente
experimentamos a benção da justificação. Mas esta fé não pode ser
o fundamento da justificação. Tão longe está a justificação
removida de nossas vontades e obras que ela já foi consumada no conselho
eterno de Deus. Assim como Cristo foi "morto desde
a fundação do mundo" (Apocalipse 13:8), assim também o povo
escolhido de Deus foi eternamente justificado no
decreto e na vontade de Deus. Ele sempre contemplou os eleitos em Cristo
como justos. Assim, Balaão foi compelido a declarar: "Ele (Deus)
não viu iniquidade em Israel, nem contemplou maldade em Jacó …"
(Números 23:21). Embora o povo de Deus sejam grandes pecadores, ele
sempre os viu como aqueles lavados no sangue. Não é de estranhar,
portanto, que o apóstolo possa perguntar: "Quem intentará
acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os
justifica. Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou
antes quem ressuscitou dentre os mortos …" (Romanos 8:33-34). A
justificação do povo de Deus é certa porque ela é a obra soberana de
Deus somente. Ele imputa ao seu povo a justiça de Jesus Cristo o Senhor.
Nada pode ser adicionado a essa justiça.
Santificação
Assim como Deus soberanamente justifica o seu povo
através do sangue de Cristo, assim também é Deus quem soberanamente
os santifica pela poderosa obra do Espírito de
Cristo. Enquanto a justificação tem a ver com nosso estado legal
diante de Deus, a santificação tem a ver com nossa condição
atual. Somos libertos da culpa do
pecado pela justificação, mas ainda somos pecadores. O pecado ainda
habita dentro dos filhos de Deus, de forma que o melhor de suas boas
obras é manchado por ele. Na santificação, contudo, o povo de Deus é
livrado do poder e do domínio
do pecado. O Espírito de Deus dá graça para que sejamos "despidos
do velho homem" e "vestidos do novo, que se renova para o
conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou" (Colossenses
3:9-10). O apóstolo Paulo fala disso em II Coríntios 3:18. Ele diz:
"Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a
glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma
imagem, como pelo Espírito do Senhor." Embora o crente nunca será
perfeito nesta vida, na santificação ele é mais e mais transformado
à imagem de Cristo.
Não pode ser negado, portanto, que o pecador
justificado deva realizar boas obras. Não é
verdade que você pode viver como o diabo porque já foi justificado.
Embora na justificação o crente seja liberto da culpa de todo pecado,
sua justificação não é um fundamento para
uma vida ímpia. Essa é a mentira do diabo. Nós que cremos na
soberania da graça de Deus, cremos que Deus opera de tal forma nos
corações do seu povo que Ele faz com que eles
mais e mais fujam do pecado e procurem o que é bom e reto. As boas
obras são uma parte essencial da vida cristã. O apóstolo Pedro nos
exorta: "Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede
vós também santos em toda a vossa maneira de
viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo"
(I Pedro 1:15-16). Jesus nos diz que manifestamos o fato de que somos
seguidores dele pela produção de muito fruto. Ele diz: "Nisto é
glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim
sereis meus discípulos" (João 15:8). Aqueles que são os objetos
da graça de Deus, glorificam a Deus mostrando ao mundo as boas obras
que a graça produz neles. "Assim resplandeça a vossa luz diante
dos homens, para que vejam as vossas boas obras e
glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus" (Mateus 5:16).
De fato, se um homem diz que é um crente e, todavia,
vive uma vida ímpia de contínuo pecado e promiscuidade, ele mostra que
ele não é um objeto da graça de Deus. A fé
que é dada pela graça de Deus é uma fé que busca a Deus e a justiça
do reino de Deus. Tiago nos ensina isso quando diz: "Meus irmãos,
que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras?
Porventura a fé pode salvá-lo? … Assim também a fé, se não tiver
as obras, é morta em si mesma" (Tiago 2:14, 17). A verdadeira fé
sempre se manifesta nas boas obras. Deveras, o crente está longe de ser
perfeito. Todavia, sua santificação implica que ele busca o que é bom
e agradável a Deus.
Mas, são estas boas obras o produto da própria
força dos crentes? Elas contribuem com algo para a salvação? Podem
ser consideradas como a parte do homem na salvação? Não, nunca! Isso
é impossível, porque todas boas obras que qualquer crente realize são
somente o produto da graça de Deus. À parte da obra
de santificação de Deus, o seu povo não pode fazer nada. Lemos em
Filipenses 2:13: "Porque Deus é
o que opera em vós tanto o querercomo o efetuar,
segundo a sua boa vontade." O crente faz o que é agradável a Deus
somente porque Deus soberanamente opera essa boa obra nele. Ele faz com
que o crente deseje o que é reto e faz com que ele faça isso também.
De fato, todas as boas obras que o seu povo realiza foram determinadas
por Deus desde antes da fundação do mundo. "Porque
somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as
quais Deus ordenou antes para que andássemos nelas"
(Efésios 2:10). A vida de santificação do cristão está tanto nas
mãos de Deus que os crentes fazem todas as boas obras que Deus ordenou
para cada um fazer.
Assim a santificação, como a justificação, é
totalmente uma obra de Deus. Assim com Cristo é dito ser nossa
justificação, assim também ele é dito ser nossa santificação.
"Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito
por Deus sabedoria, e justiça, e santificação
…" (I Coríntios 1:30). Santificação é o resultado da
obra soberana do Espírito de Cristo baseada sobre o sangue de Cristo.
É somente no poder do sangue de Cristo que o crente pode vencer o
pecado e fazer o que é bom. O Espírito Santo nos ensina isso em
Hebreus 10:10: "Na qual vontade temos sido santificados pela
oblação do corpo de Jesus Cristo, de uma vez por todas."
Realmente, Cristo Jesus nosso Senhor, que morreu pelo seu povo, é tudo
da salvação. Do princípio ao fim a salvação é baseada sobre o seu
precioso sangue.
Preservação e Perseverança
Visto que Deus soberanamente elege o pecador para
vida eterna, o regenera pelo Espírito de Cristo, o chama e lhe dá fé
e arrependimento pela sua irresistível graça, o justifica e até o
santifica pela força do seu poder, deve ser também verdade que o
pecador convertido é feito perseverar na fé pela
graça preservadora de Deus. O crente verdadeiro
que é salvo pela graça soberana de Deus não pode perder essa
salvação. Deus, pelo seu poder soberano, guarda o crente para que não
ele não possa cair total e absolutamente do estado de graça. O
apóstolo Pedro diz que aqueles que são "eleitos segundo a
presciência de Deus Pai" e "gerados de novo para uma viva
esperança" são "guardados pelo poder de Deus
mediante a fé para a salvação, já prestes a se revelar no
último tempo" (I Pedro 1:2-5). Deus, pela força de seu poder, preserva
o verdadeiro filho de Deus para que ele receba esta salvação final
e completa que será revelada na segunda vinda de Cristo.
Não poderia ser de outra forma, visto que a obra da
salvação é uma obra de Deus. A obra de Deus não falha.
A obra do homem é finita e frequentemente termina em nada. Mas a obra
de Deus é uma obra todo-poderosa e soberana. Quando ele estabelece seu
pacto com o seu povo, promete salvá-los no sangue de Cristo e, então,
lhes salva pela sua graça, essa grande obra é certa
e segura. É uma obra eterna.
Assim Deus diz através do profeta Isaías: "Porque os montes se
retirarão, e os outeiros serão abalados; porém a minha benignidade
não se apartará de ti, e a aliança da minha paz não mudará, diz o
SENHOR que se compadece de ti" (Isaías 54:10). Deveras, os montes
podem se retirar; mas a benignidade, a misericórdia e o amor de Deus,
que salva o seu povo, permanecerão sobre eles para sempre. Deus não
muda. Quando salva alguém, ele salva de fato—salva para sempre.
Quando o Deus da vida dá vida, essa vida é uma vida eterna
que nunca morre. Dessa forma, Jesus pôde dizer: "Na verdade,
na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me
enviou, tem a vida eterna, e não entrará em
condenação, mas passou da morte para a vida" (João 5:24). A vida
eterna não é algo que possa ser perdido. Se fosse, não seria vida
eterna.
A salvação eterna do povo eleito de Deus é tão
certa que nada pode jamais tirá-la deles. Embora os ímpios procurem
conseguir com que eles corram com eles em toda a sua lascividade e
pecado, embora o próprio diabo os tente para abandonar a Deus e a
Verdade de sua Palavra, ninguém é capaz
de tirá-los da graça que Deus lhes deu. Jesus diz: "E dou-lhes a
vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as
arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos;
e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai" (João 10:28-29).
Os crentes estão seguros nas mãos de Cristo e nas mãos de seu Pai
celestial. Ninguém pode arrebatá-los. Sim, nem mesmo os pecados dos
crentes pode separá-los de Deus e de sua salvação. Todos os seus
pecados foram apagados no sangue do Cordeiro. Cristo morreu por eles e
Deus os justificou. Portanto, o povo de Deus pode dizer com o apóstolo
Paulo: "Porque estou certo de que, nem a
morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades,
nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem
alguma outra criatura poderá nos separar do
amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor" (Romanos
8:38-39).
Isso não significa, contudo, que alguém que
professe ser um cristão possa viver da forma que ele quiser e ainda
estar certo da salvação eterna. O apóstolo Pedro diz que "somos
guardados pelo poder de Deus através da fé" (I
Pedro 1:5). Quando Deus preserva o seu povo, ele o faz de uma forma que
eles perseveram na fé. Embora o crente
verdadeiro possa tropeçar em graves pecados, ele não cai
definitivamente. Deus o traz de volta para que pela fé ande nos
caminhos de Deus. Ele é preservado no caminho da fé—uma
fé que resulta num viver piedoso. Qualquer um, portanto, que professa
ser um cristão, mas contínua e abertamente anda nos caminhos do pecado,
não é um verdadeiro filho de Deus. De tais pessoas o apóstolo João
fala quando diz: "Saíram de nós, mas não eram de nós; porque,
se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se
manifestasse que não são todos de nós" (I João 2:19). Há
muitos que professar serem cristãos, mas não o são. Eles caíram de
sua profissão. O verdadeiro filho de Deus, contudo, persevera na fé.
Não porque ele seja capaz de permanecer de pé por si mesmo, mas porque
Deus o preserva pela sua graça. De fato, o povo
de Deus tem boa razão para regozijar-se com Judas quando o mesmo diz:
"Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar,
e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória.
Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade,
domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém" (Judas
24-25).
Glorificação
A bênção final que o filho de Deus recebe é a
bênção de eterna glória nos novos céus e
nova terra. Ele está aguardando por aquele grande dia quando Jesus
virá e o tomará para estar com ele para sempre. Porque, "quando
Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos
manifestareis com ele em glória" (Colossenses 3:4). Este é o
porque os crentes são capazes de suportar pacientemente os sofrimentos
e problemas desta vida. Eles sabem que estas aflições não durarão
para sempre. Em breve elas serão substituídas por uma glória que é
tão maravilhosa que está acima de nossa imaginação. Portanto,
dizemos com o apóstolo: "Porque para mim tenho por certo que as
aflições deste tempo presente não são para comparar com a
glória que em nós há de ser revelada" (Romanos 8:18).
Todo pecado, todas doenças, todas enfermidades e fraquezas do povo de
Deus serão retiradas, de forma que eles serão gloriosos tanto no corpo
como na alma. Eles serão como Cristo. A glória do Deus Todo-poderoso
resplandecerá neles e irradiará a partir deles.
Essa glória é a consumação, o produto final,
daquela que começou antes da fundação do mundo na eleição de seu
povo. Esse é o último elo na cadeia inquebrável da salvação.
"E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a
estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou"
(Romanos 8:30). Que este último passo na salvação não é uma obra da
graça soberana de Deus é inconcebível. Mesmo aqueles que insistem que
o homem deve ter uma parte em sua salvação, atribuem a glorificação
a ninguém mais, senão a Deus. A própria natureza dessa maravilha da
graça a tira completamente da esfera da obra do homem. Somos
glorificados pelo poder soberano de Deus somente. Esse fato, contudo, é
uma forte prova de que tudo da salvação é uma obra de Deus somente.
Porque não podemos separar a glorificação de nenhum dos outros passos.
Como a consumação da salvação, ela está
inseparavelmente conectada com cada parte da
salvação.
A glorificação é o próprio propósito e o
objetivo da eterna eleição. Quando Deus escolheu o
seu povo antes da fundação do mundo, ele os escolheu para glória. O
apóstolo Paulo diz: "Para que também desse a conhecer as riquezas
da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já
dantes preparou" (Romanos 9:23). Já no eterno conselho de
predestinação de Deus o seu povo foi preparado para glória. De fato,
eles já foram glorificados no conselho de Deus. No extremo princípio,
o fim já tinha sido determinado. Porque a glorificação é o
propósito da eleição, ela é também o propósito da regeneração.
O apóstolo Pedro escreve: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso
Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos
gerou de novo … para uma herança
incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar,
guardada nos céus para vós" (I Pedro 1:3-4). O povo de Deus são
regenerados para que possam ser glorificados. A regeneração é
simplesmente outro passo que os traz para mais perto da glória final.
Sem ela, a glorificação seria impossível. Até mesmo o chamado
eficaz tem como o seu propósito a glória.
Lemos dessa forma em II Tessalonicenses 2:14: "Para o que pelo
nosso evangelho vos chamou, para alcançardes a glória de nosso
SENHOR Jesus Cristo." O Espírito de Cristo chama os
eleitos à fé e ao arrependimento para que eles possam obter a glória
de Cristo.
De fato, todas as coisas que Deus traz para as vidas
dos crentes são apenas os meios que ele usa para trazê-los à glória
final. O salmista diz: "Guiar-me-ás com o teu conselho,
e depois me receberás na glória" (Salmos 73:24).
Deus conduz o seu povo através de toda as sua vida em harmonia com o
que ele propôs para eles. Esse propósito é a glória. Durante toda as
suas vidas, Deus os conduz para a glória eterna. Tudo o que acontece a
eles, tudo o que chega a eles, seja isso "bom" ou
"mal," é enviado pelo Senhor para conduzi-los à glória.
Certamente, então, a glorificação é uma obra da graça soberana de
Deus, como também tudo da salvação, do princípio ao fim. Isso porque
toda a salvação é uma única e grande obra. A
salvação é um dom de Deus. É completa e perfeita. Ninguém pode
adicionar ou tirar algo dela.
Realmente o homem não tem nada do
que se gloriar. Sim, o crente é glorificado, mas sempre essa glória é
no final das contas não sua glória, mas de
Deus. Ele enche o crente com sua glória.
O propósito da glorificação do povo de Deus é a glorificação do
próprio Deus. Deus manifesta a glória do seu grande nome na salvação
que ele dá ao seu povo por sua maravilhosa graça somente. Assim, o
apóstolo Paulo diz: "E nos predestinou para filhos de adoção por
Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para
o louvor da glória de sua graça …" (Efésios
1:5-6). A salvação, a glória, do povo de Deus é sempre "para o
louvor de sua glória"—a glória de sua graça
soberana.
Dessa forma, as Escritura deixam muito claro que a
"SALVAÇÃO É DO SENHOR" (Jonas 2:9). Do
princípio ao fim, a salvação não é um resultado da obra ou vontade
do homem, mas da soberana graça de Deus. Ele é Deus
mesmo na salvação. Em seu eterno decreto de predestinação, ele planejou
a salvação. Ele realmente obteve salvação
enviando o seu Filho para morrer por seu povo sobre a cruz. Ele aplica
essa salvação ao coração e vida de seu povo pela poderosa
operação de sua graça. Aquele que crê na Bíblia pode somente
concluir com o apóstolo Paulo: "Assim, pois, isto não depende do
que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se
compadece" (Romanos 9:16). A salvação é de Deus. Louvemos,
portanto, a maravilhosa majestade do Altíssimo Deus com o apóstolo
Paulo:v"Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da
ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão
inescrutáveis os seus caminhos! Porque, quem compreendeu a mente do
Senhor? ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele,
para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são
todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente.
Amém" (Romanos 11:33-36).
Referências Nas Escrituras
O Deus
Soberano
1 Crônicas
29:11; Daniel 4:34-35; Salmos 22:28; Deuteronômio 4:39; Isaías 40:17;
Isaías 45:9; Isaías 57:15; Atos 17:25, 28
A Vontade
Soberana de Deus
Isaías
46:9-10; Efésios 1:11; Efésios 3:11; Salmos 33:11; Isaías 14:24, 27;
Provérbios 19:21; Isaías 46:11
Predestinação
Soberana
Romanos
9:21-23; II Tessalonicenses 2:13; Salmos 33:12; Efésios 1:3-4; João
15:16; Judas 4; 1 Pedo 2:7-8; Romanos 9:16; II Timóteo 1:9
Presciência
Romanos 9:11;
Romanos 8:29-30; Amós 3:2; João 10:14-15; Deuteronômio 7:7-8
O Amor
Soberano de Deus
Jeremias
31:3; Efésios 2:4-5; 1 João 3:1; Oséias 11:1; Salmos 11:5; Salmos
5:5; Salmos 7:11; João 3:36; Malaquias 1:1-3; Romanos 9:13; II
Tessalonicenses 2:16
O Amor de
Deus e a Cruz
1 João 4:9;
Atos 20:28; Atos 4:27-28; Atos 2:23; Apocalipse 13:8; Lucas 19:10;
Hebreus 9:12; 1 Coríntios 1:24-25
Redenção
Particular
João
10:14-15, 26; Atos 20:28; Efésios 5:25; Romanos 8:32-34; Romanos
8:35-39; João 10:28; Isaías 53:10-11
Regeneração
Efésios
2:4-6; Ezequiel
36:26; João
1:13; Tito
3:5; João
3:3 ; I
Pedro 1:3; I
Pedro 1:23
A Depravaçãodo
Homem
Jeremias
13:23; Romanos
3:10-12; João
8:44; João
3:19-20; Colossenses
2:13; Salmos
51:5; Romanos
5:12; Ezequiel
37:4-6
O Chamado
Salvífico
Romanos
8:30; I
Pedro 2:9; Romanos
10:13-14; João
10:3; Isaías
55:11; João
10:27; 2
Tessalonicenses 2:13-14; II
Timóteo 1:9; Mateus
11:28; 1
Coríntios 1:9
Fé
Salvadora
João
3:36; Marcos
1:15; Atos
16:31; Efésios
2:1; João
6:44; Efésios
1:19; Efésios
2:8-9; Phil. 1:29; Hebreus
12:2; Atos
2:47; João
10:26; Atos
13:48; Atos
18:27
Conversão
1
Tessalonicenses 1:9; Mateus
18:3; Ezequiel
18:30; Atos
3:19; Jeremias
31:18; Salmos
80:19; João
12:40; Romanos
9:18; Atos
11:18; 2
Timóteo 2:24-25; Atos
5:31
Justificação
Isaías
45:24-25; Gálatas.
2:16; Romanos
4:5; Salmos
32:1-2; Isaías
1:18; Isaías
53:11; Romanos
5:9; Romanos
4:3; 1
Coríntios 1:30; Apocalipse
13:8; Números
23:21; Romanos
8:33-34
Santificação
Colossenses
3:9-10; II
Coríntios 3:18; 1
Pedro 1:15-16; João
15:8; Mateus
5:16; Tiago
2:14,17; Filipenses 2:13; Efésios
2:10; I
Coríntios 1:30; Hebreus
10:10
Preservaçao
e Preservação
1
Pedro 1:2-5; Isaías
54:10; João
5:24; João
10:28-29; Romanos
8:38-39; 1
João 2:19; Judas
24-25
Glorificação
Colossenses
3:4; Romanos 8:18; Romanos 8:30; Romanos 9:23; 1 Pedro 1:3-4; II
Tessalonicenses 2:14; Salmos 73:24; Efésios 1:5-6; 1 Coríntios 1:31;
Salmos 103:1-4; Salmos 57:5; Jonas 2:9; Romanos 9:16; Romanos 11:33-36.
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto / felipe@monergismo.com
Para material
Reformado adicional em Português, por favor, clique aqui. |